Capítulo 7

826 Words
Capítulo 7 Souza narrando A cozinha parecia uma feira. Todo mundo falando ao mesmo tempo. Frank ria de alguma besteira. Ju tentava convencer os outros de que já estava bom para voltar ao trabalho. E a enfermeira... Continuava usando outra camisa minha. Parei na porta por alguns segundos. Olhei para ela. Depois para a camisa. Depois para ela de novo. Sério... Eu tinha acabado de sair da prisão. Agora também ia precisar esconder minhas roupas dentro da própria casa. Balanço a cabeça e puxo uma cadeira. — Vocês não têm trabalho, não? O silêncio dura pouco. Ju é o primeiro a responder. — Eu tô de licença. Olho para ele. — Licença? — Tomei um tiro, esqueceu? Faço uma careta. — Verdade. Ainda vai ficar alguns dias sem poder fazer esforço. Frank termina o café de uma vez só e coloca a caneca na pia. — Eu já tô indo. — Fazer o quê? — Receber o carregamento. Confirmo com a cabeça. Depois olho para os outros dois. — E vocês? Zé e Val levantam as mãos ao mesmo tempo. — A gente só veio filar o café. Reviro os olhos. — Bando de folgado. — Café de graça é mais gostoso — Frank responde. Idiota. Volto minha atenção para a enfermeira. Ela continua tomando café como se não tivesse ninguém olhando. — Ei. Ela levanta os olhos. — O quê? — Termina isso aí. Ela olha para a caneca. Depois para mim. — Por quê? — Porque eu vou te levar pra comprar roupa. Ela franze a testa. — Comprar roupa? — Não quero mais você pegando minhas camisas. Ela olha para a camisa enorme que está usando. Depois dá de ombros. — Por mim tanto faz. Fico esperando o restante da frase. Ela sorri daquele jeito debochado. — Vou continuar pegando mesmo assim. Encaro a cara de p*u daquela garota. Ela simplesmente faz uma expressão de quem não está nem um pouco preocupada. Como alguém consegue ser tão irritante? Balanço a cabeça. — Você é impossível. — Já ouvi isso algumas vezes. — Acredito. Frank começa a rir. — Cara... Olho para ele. — O quê? — Ela tá te roubando na tua frente e ainda avisa que vai continuar. — Eu percebi. — E tu não vai fazer nada? Olho outra vez para Giovana. Ela toma mais um gole de café. Nem sequer demonstra preocupação. — Vai devolver minhas camisas. Ela sorri. — Não. Fecho os olhos por um segundo. Respira. Um... Dois... Três... — Você tá abusando da sorte. Ela apoia o queixo na mão. — Você fala isso umas dez vezes por dia. Frank ri alto. — Ela decorou teu repertório. Lanço um olhar para ele. — Tu também tá abusando. Ele levanta as mãos. — Eu não falei nada. — Falou o suficiente. Giovana termina o café e levanta da cadeira. — Então... Quando a gente vai? Franzo a testa. — Pra onde? — Comprar roupa. — Achei que não queria. Ela dá de ombros. — Não quero. — Então? — Mas prefiro escolher minhas roupas do que usar as suas. Olho para a camisa. — Engraçado. — O quê? — Porque essa aí você pegou sem reclamar. Ela sorri. — Reclamei por dentro. — Não pareceu. Ela passa por mim. De propósito, bate de leve no meu ombro. — Vamos logo, rabugento. Fico olhando ela subir as escadas. Frank encosta ao meu lado. — Ela manda em tu, né? Olho devagar para ele. — Quer ir junto com ela comprar roupa? Ele dá dois passos para trás. — Deus me livre. Algumas horas depois. A boca já estava funcionando normalmente. Os rádios não paravam. Gente entrando. Gente saindo. Dinheiro trocando de mão. Como se eu nunca tivesse passado seis meses preso. Zé entra na sala. A expressão dele não era das melhores. Levanto os olhos. — Fala. Ele fecha a porta antes de responder. — A fuga da prisão não trouxe nada muito sério. Cruzo os braços. — Então por que essa cara? Ele coça a barba. — Tem um problema. Meu humor, que já não era bom, piora. — Que p***a de problema? Zé respira fundo. — Pelo que eu consegui entender... Alguém tá procurando pela enfermeira. Fico alguns segundos em silêncio. Depois solto o ar devagar. Era só o que me faltava. — Quem? — Ainda não sabemos. — Polícia? — Não parece. — Família? — Também não. Passo a mão no rosto. Que inferno. Uma mulher sequestrada já era dor de cabeça suficiente. Agora apareceu alguém atrás dela. — Descobre quem é. Zé confirma com a cabeça. — Já coloquei dois caras nisso. Ele sai da sala. Permaneço olhando para a porta fechada. A imagem da enfermeira passa pela minha cabeça. Linguaruda. Teimosa. Folgada. E, agora... Alguém estava atrás dela. Só faltava essa mesmo. Balancei a cabeça. — Enfermeira tapada... Murmurei sozinho. — Você ainda vai acabar me dando muito mais trabalho do que eu imaginava.
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