Capítulo 7
Souza narrando
A cozinha parecia uma feira.
Todo mundo falando ao mesmo tempo.
Frank ria de alguma besteira.
Ju tentava convencer os outros de que já estava bom para voltar ao trabalho.
E a enfermeira...
Continuava usando outra camisa minha.
Parei na porta por alguns segundos.
Olhei para ela.
Depois para a camisa.
Depois para ela de novo.
Sério...
Eu tinha acabado de sair da prisão.
Agora também ia precisar esconder minhas roupas dentro da própria casa.
Balanço a cabeça e puxo uma cadeira.
— Vocês não têm trabalho, não?
O silêncio dura pouco.
Ju é o primeiro a responder.
— Eu tô de licença.
Olho para ele.
— Licença?
— Tomei um tiro, esqueceu?
Faço uma careta.
— Verdade.
Ainda vai ficar alguns dias sem poder fazer esforço.
Frank termina o café de uma vez só e coloca a caneca na pia.
— Eu já tô indo.
— Fazer o quê?
— Receber o carregamento.
Confirmo com a cabeça.
Depois olho para os outros dois.
— E vocês?
Zé e Val levantam as mãos ao mesmo tempo.
— A gente só veio filar o café.
Reviro os olhos.
— Bando de folgado.
— Café de graça é mais gostoso — Frank responde.
Idiota.
Volto minha atenção para a enfermeira.
Ela continua tomando café como se não tivesse ninguém olhando.
— Ei.
Ela levanta os olhos.
— O quê?
— Termina isso aí.
Ela olha para a caneca.
Depois para mim.
— Por quê?
— Porque eu vou te levar pra comprar roupa.
Ela franze a testa.
— Comprar roupa?
— Não quero mais você pegando minhas camisas.
Ela olha para a camisa enorme que está usando.
Depois dá de ombros.
— Por mim tanto faz.
Fico esperando o restante da frase.
Ela sorri daquele jeito debochado.
— Vou continuar pegando mesmo assim.
Encaro a cara de p*u daquela garota.
Ela simplesmente faz uma expressão de quem não está nem um pouco preocupada.
Como alguém consegue ser tão irritante?
Balanço a cabeça.
— Você é impossível.
— Já ouvi isso algumas vezes.
— Acredito.
Frank começa a rir.
— Cara...
Olho para ele.
— O quê?
— Ela tá te roubando na tua frente e ainda avisa que vai continuar.
— Eu percebi.
— E tu não vai fazer nada?
Olho outra vez para Giovana.
Ela toma mais um gole de café.
Nem sequer demonstra preocupação.
— Vai devolver minhas camisas.
Ela sorri.
— Não.
Fecho os olhos por um segundo.
Respira.
Um...
Dois...
Três...
— Você tá abusando da sorte.
Ela apoia o queixo na mão.
— Você fala isso umas dez vezes por dia.
Frank ri alto.
— Ela decorou teu repertório.
Lanço um olhar para ele.
— Tu também tá abusando.
Ele levanta as mãos.
— Eu não falei nada.
— Falou o suficiente.
Giovana termina o café e levanta da cadeira.
— Então...
Quando a gente vai?
Franzo a testa.
— Pra onde?
— Comprar roupa.
— Achei que não queria.
Ela dá de ombros.
— Não quero.
— Então?
— Mas prefiro escolher minhas roupas do que usar as suas.
Olho para a camisa.
— Engraçado.
— O quê?
— Porque essa aí você pegou sem reclamar.
Ela sorri.
— Reclamei por dentro.
— Não pareceu.
Ela passa por mim.
De propósito, bate de leve no meu ombro.
— Vamos logo, rabugento.
Fico olhando ela subir as escadas.
Frank encosta ao meu lado.
— Ela manda em tu, né?
Olho devagar para ele.
— Quer ir junto com ela comprar roupa?
Ele dá dois passos para trás.
— Deus me livre.
Algumas horas depois.
A boca já estava funcionando normalmente.
Os rádios não paravam.
Gente entrando.
Gente saindo.
Dinheiro trocando de mão.
Como se eu nunca tivesse passado seis meses preso.
Zé entra na sala.
A expressão dele não era das melhores.
Levanto os olhos.
— Fala.
Ele fecha a porta antes de responder.
— A fuga da prisão não trouxe nada muito sério.
Cruzo os braços.
— Então por que essa cara?
Ele coça a barba.
— Tem um problema.
Meu humor, que já não era bom, piora.
— Que p***a de problema?
Zé respira fundo.
— Pelo que eu consegui entender...
Alguém tá procurando pela enfermeira.
Fico alguns segundos em silêncio.
Depois solto o ar devagar.
Era só o que me faltava.
— Quem?
— Ainda não sabemos.
— Polícia?
— Não parece.
— Família?
— Também não.
Passo a mão no rosto.
Que inferno.
Uma mulher sequestrada já era dor de cabeça suficiente.
Agora apareceu alguém atrás dela.
— Descobre quem é.
Zé confirma com a cabeça.
— Já coloquei dois caras nisso.
Ele sai da sala.
Permaneço olhando para a porta fechada.
A imagem da enfermeira passa pela minha cabeça.
Linguaruda.
Teimosa.
Folgada.
E, agora...
Alguém estava atrás dela.
Só faltava essa mesmo.
Balancei a cabeça.
— Enfermeira tapada...
Murmurei sozinho.
— Você ainda vai acabar me dando muito mais trabalho do que eu imaginava.