Capítulo 4

973 Words
Capítulo 4 Souza narrando Fecho a porta do barraco sem olhar para trás. — Chefinho... Paro no primeiro degrau da escada. — O quê? Letícia cruza os braços na porta. — Ouvi uns boatos. Reviro os olhos. Lá vem. — Que boatos? — Dizem que você voltou da prisão com uma garota. Solto uma risada sem humor. Eu odeio fofoca. Nesse morro o povo consegue saber da vida dos outros antes mesmo de acontecer. — O pessoal fala demais. — Então é mentira? Enfio as mãos no bolso. — E desde quando eu te devo satisfação? Ela faz um biquinho. Conheço esse olhar. Se eu der um centímetro de assunto, amanhã metade do morro vai saber até a cor da calcinha da enfermeira. — Só fiquei curiosa... — Curiosidade mata. Ela sorri. — Chefinho... — Letícia. Minha voz sai mais firme. — Se continuar perguntando sobre isso, eu mesmo resolvo teu problema. Ela ergue as mãos em rendição. — Tá bom, tá bom. Dou as costas. — Boa noite. — Boa noite, chefinho. Desço o restante da escada e sigo pelas vielas. Mesmo sendo quase três da manhã, o morro continua acordado. Música alta. Moto passando. Gente conversando nas portas. Criança correndo como se não existisse horário. Seis meses preso fazem qualquer lugar parecer diferente. Passo por alguns conhecidos, cumprimento quem precisa ser cumprimentado e continuo andando. Minha cabeça, porém, insiste em voltar para a mesma pessoa. A enfermeira. Que mulher insuportável. Fala sem pensar. Não mede as consequências. E, aparentemente, não sabe sentir medo. Qualquer pessoa minimamente inteligente teria ficado calada depois de ser sequestrada. Ela não. Responde. Provoca. Discute. Manda tomar no cu. Balanço a cabeça. Ela ainda vai acabar apanhando da própria língua. Abro a porta de casa. O silêncio dura exatamente dois segundos. — Ah, não... A cozinha está acesa. Giovana está sentada na bancada usando uma camiseta minha minha pronto agora vai roubar minhas camisas. O cabelo está preso de qualquer jeito. Na frente dela existe um pote de sorvete quase vazio. Ela enfia mais uma colherada na boca como se estivesse na sala da própria casa. Fico encarando a cena por alguns segundos. Ela levanta os olhos. — O quê? Aponto para o sorvete. — Acho que você já está se sentindo bem à vontade. Ela nem responde. Apenas levanta o dedo do meio. Depois enfia outra colher na boca. — Quero sair daqui. Cruzo os braços. — Unico jeito é fugindo e sabemos que você não vai fazer isso. — São três horas da manhã. — Não quero discutir com você vai dormir. Ela revira os olhos. — Continua sendo um babaca i****a. Pego uma garrafa de água na geladeira. — Já falei que não vai embora. — E eu já falei que quero ir. — Que pena. Ela bate a colher dentro do pote. — Você é sempre tão desagradável ou faz curso? — Nasci com talento. — Percebi. Dou um gole na água. — De onde você tirou esse sorvete? — Da sua geladeira. Fecho os olhos por um segundo. — Você mexeu na minha geladeira? — Não. Ela aponta para o pote. — O sorvete simplesmente apareceu na minha mão. Respiro fundo. — Você tá abusando da sorte. — E você tá abusando da minha paciência. Dou um passo na direção dela. — Esqueceu que é refém? Ela apoia o cotovelo na bancada. — Não. Sorri daquele jeito debochado. — Mas você esqueceu que eu sou a única enfermeira disponível quando seu amiguinho resolver abrir os pontos. Droga. O pior é que ela tem razão. Antes que eu responda, Frank aparece no corredor esfregando os olhos. — Caralho... Ele olha para mim. Depois para Giovana. Depois para o sorvete. — Vocês estão brigando por causa de sobremesa? — Não se mete — respondemos juntos. Frank abre um sorriso. — Eu adoro quando vocês falam em sincronia. Giovana aponta a colher para ele. — Seu amigo é insuportável. — Eu sei. — Você concordou comigo? — Claro. Frank senta na cadeira ao lado dela. — Mas você também é. Ela fica indignada. — Eu? — Sim. Ele pega outra colher na gaveta. — Nunca vi uma refém discutir tanto. Sem pedir licença, enfia a colher no pote. Giovana arregala os olhos. — Ei! — O quê? — Esse sorvete é meu. Frank olha para mim completamente confuso. — Ela acabou de roubar o sorvete da tua geladeira de que tá dizendo que é dela eu não deixava assim. Não consigo evitar. Dou uma risada baixa. Ela percebe. — Você riu. Volto imediatamente a ficar sério. — Não viaje. — Eu vi. — Tá precisando de óculos. — Você riu. Frank aponta para mim. — Eu também vi. Lanço um olhar para os dois. — Vocês terminaram? Giovana cruza os braços. — Ainda não. — Então termina logo. — Me leva embora. — Não. — Chato. — Insuportável. — Babaca. — Linguaruda. Frank levanta devagar com o pote de sorvete na mão. — Vou sair de fininho porque vocês estão parecendo um casal que brigou. Nós dois olhamos para ele ao mesmo tempo. — Cala a boca! Ele ergue as mãos. — Tá bom. Sai andando pelo corredor. — Mas depois não reclamem quando eu disser que avisei. Giovana bufa. — Ele também tem problema mental. Encosto na bancada. Pela primeira vez desde que cheguei, ela fica em silêncio. Olha para a colher. Depois para o pote quase vazio. Depois para mim. — Posso fazer uma pergunta? — Já fez. Ela faz uma careta. — Você consegue ser sério o tempo inteiro? Dou de ombros. — Consigo. Ela suspira. — Deve ser cansativo. Fico alguns segundos olhando para aquela mulher. Ela tinha acabado de ser sequestrada. Estava presa num lugar que nunca tinha visto. Mesmo assim... Ainda encontrava disposição para discutir comigo. Maluca. Completamente maluca.
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