Capítulo 5

744 Words
Capítulo 5 Giovana narrando A fome é uma desgraça. Principalmente quando você foi sequestrada. Eu nunca imaginei que esse seria um pensamento real da minha vida, mas cá estou. Refém. Num morro que eu nem sei onde fica. Vestindo uma camiseta masculina que quase vira um vestido em mim. E comendo sorvete às três da manhã. Se minha amiga descobrisse isso, provavelmente desmaiaria antes mesmo de perguntar como fui parar aqui. Suspiro enquanto afundo a colher no pote. Não estou comendo porque quero. Estou comendo porque ansiedade abre um buraco no meu estômago. E, pelo visto, a cozinha do senhor "eu sou o dono da razão" estava cheia de comida. No começo fiquei até com vergonha. Depois pensei melhor. Ele me sequestrou. O mínimo que podia fazer era me alimentar. Abro a geladeira outra vez. Tem refrigerante. Frutas. Queijo. Presunto. Iogurte. Esse criminoso se alimenta melhor do que eu. Que ódio. Pego uma colher limpa e volto para o sofá. Ju continua dormindo depois dos remédios que dei. Frank desapareceu faz quase uma hora. E o insuportável do Souza também. Melhor assim. Quanto menos eu olhar para a cara daquele homem, maiores são minhas chances de não acabar morta... Ah, é. Já estou presa. Maravilha. Escuto a porta abrir. Nem preciso levantar a cabeça. Reconheço aqueles passos pesados. Ele entrou. Continua com aquela cara de poucos amigos. O infeliz nem parece que sabe sorrir. Levanto os olhos por um segundo. Ele para no meio da cozinha. Olha para mim. Depois olha para o pote de sorvete. Em seguida para a camiseta que estou usando. Pronto. Lá vem. — Acho que você já está se sentindo bem à vontade. Ergo o dedo do meio antes mesmo de pensar. — Quero sair daqui. Era a resposta para qualquer coisa que aquele homem dissesse. Ele cruza os braços. — O único jeito é fugindo. E nós dois sabemos que você não vai fazer isso. Olho bem para a cara dele. Como ele tem coragem de falar uma coisa dessas? — São três horas da manhã. — Não quero discutir com você. Vai dormir. Dou outra colherada no sorvete. — Continua sendo um babaca i****a. Ele bebe água como se eu nem existisse. — Já falei que não vai embora. — E eu já falei que quero. Meu Deus... Será que esse homem nasceu sem cérebro? Ou ele perdeu em alguma troca de tiros? Ele aponta para o pote. — De onde saiu esse sorvete? — Da sua geladeira. Ele fecha os olhos por um segundo. Quase consigo ouvir a paciência dele indo embora. — Você mexeu na minha geladeira? Faço cara de inocente. — Não. Aponto para o pote. — O sorvete criou pernas, abriu a geladeira sozinho e pulou na minha mão. Ele me encara. Eu encaro de volta. Se for para morrer, vou morrer irritando esse homem. — Você tá abusando da sorte. — E você tá abusando da minha paciência. Ele dá um passo na minha direção. Ele é alto. Bem mais do que eu. Mas me recuso a baixar a cabeça. — Esqueceu que é refém? Cruzo as pernas. — Não. Dou um sorriso debochado. — Mas você esqueceu que eu sou a única enfermeira que sabe cuidar do seu amigo. Por alguns segundos ele não responde. Finalmente consegui calar a boca dele. Vitória. A comemoração dura pouco. Frank aparece na cozinha coçando a barriga. — Vocês ainda estão brigando? Olho para ele. — Seu amigo começou. Souza responde na mesma hora. — Mentira. — Verdade. — Você tem cinco anos? Frank começa a rir. — Eu juro que nunca vi um sequestrador e uma refém discutirem tanto. Ele pega outra colher. Sem pedir licença. Sem vergonha nenhuma. Mergulha no meu sorvete. Abro a boca indignada. — Ei! — O quê? — Você acabou de roubar meu sorvete! Frank me olha como se eu fosse maluca. — Teu? Olha para Souza. — Ela invadiu tua geladeira, pegou teu sorvete e agora tá dizendo que é dela. Que cara de p*u. — Achado não é roubado. — Na geladeira dos outros é. Antes que eu responda, escuto um som estranho. Uma risada. Olho imediatamente para Souza. Ele tentou disfarçar. Tarde demais. — Você riu. — Não viaje. — Eu vi. — Tá precisando de óculos. Aponto a colher para ele. — Você riu. Frank confirma. — Eu também vi. Cruzo os braços satisfeita. Pronto. Descobri. O rabugento sabe sorrir. Só tem vergonha de admitir.
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