Capítulo 6
Giovana narrando
Acordo completamente perdida.
Levo alguns segundos para lembrar onde estou.
O teto não é o do meu apartamento.
A cama também não.
Muito menos o fato de existir um criminoso rabugento dormindo em algum lugar daquela casa.
Maravilha.
Fui sequestrada.
De novo esse pensamento.
Acho que meu cérebro ainda está tentando aceitar.
Olho para a cadeira ao lado da cama.
Outra camisa do Souza.
Suspiro.
Não é como se eu tivesse muita opção. Minhas roupas ficaram na minha casa e alguém lavou a camiseta que eu estava usando ontem.
Visto a camisa.
Ela fica enorme em mim.
Ótimo.
Agora, além de refém, pareço uma criança usando a roupa do pai.
Prendo o cabelo num coque malfeito e desço as escadas.
O cheiro de café invade a casa inteira.
Meu estômago ronca.
Pelo menos não vou precisar assaltar a geladeira escondida dessa vez.
Assim que entro na cozinha, paro no lugar.
Franzo a testa.
Conto mentalmente.
Frank.
Ju.
E mais dois homens que eu nunca tinha visto.
Olho outra vez.
Depois solto a primeira coisa que passa pela minha cabeça.
— Porra... só pra saber... vocês se multiplicaram?
Os quatro me encaram.
O silêncio dura exatamente três segundos.
Um dos desconhecidos, moreno, barbudo e com uma cicatriz cortando a sobrancelha, me observa da cabeça aos pés.
Depois olha para Frank.
— Quando vocês falaram que tinham sequestrado uma enfermeira, eu achei que pelo menos ela tivesse estatura normal.
Ele volta a me olhar.
— Isso aí parece uma criança.
Cruzo os braços.
— Eu tenho tamanho normal.
Ele arqueia uma sobrancelha.
— Quantos anos você tem?
— Vinte e cinco.
— Tem certeza?
Frank começa a rir.
Idiota.
Aponto o dedo para o grandão.
— Eu sou um adulto completamente formado.
Ele continua sério.
— Não convenceu.
— Vai à merda.
Frank bate na mesa gargalhando.
— Eu falei que ela era baixinha.
— Eu não sou baixinha!
Ju resolve participar.
— Você é um pouquinho.
Viro para ele.
— Você também?
— Só tô sendo sincero.
Olho para os quatro.
— Quer saber? Vocês parecem um grupo de postes. O problema não sou eu. Vocês que cresceram demais.
Frank aponta para mim.
— Gostei dessa teoria.
— É porque ela favorece você.
— Não favorece, não.
— Favorece, sim.
— Não.
— Frank...
— O quê?
— Cala a boca.
Ele ergue as mãos.
— Tá bom.
Respiro fundo.
Esses homens conseguem me cansar antes mesmo das oito da manhã.
Ju limpa a garganta.
— Ei...
Olho para ele.
— Obrigado.
Pisco algumas vezes.
— Pelo quê?
— Por ter cuidado de mim ontem.
Dou um sorriso pequeno.
— Aceito o agradecimento...
Ele sorri de volta.
— ...se você convencer o senhor Ranzinza a me liberar.
O sorriso desaparece na mesma hora.
— Ah...
Olha para os outros.
Depois para mim.
— Acho melhor não.
Franzo a testa.
— Como assim "acho melhor não"?
— Porque... pelo visto... você não fez um trabalho muito bom.
Cruzo os braços.
— Como é?
Ele coça a nuca.
— Você salvou minha vida... mas também ficou presa aqui.
— Então a culpa é minha?
— Não foi isso que eu...
Aponto para a porta.
— Vai à merda.
Frank quase cai da cadeira de tanto rir.
— Ela mandou o cara que agradeceu ela ir à merda!
— Mandou pouco.
Ju balança a cabeça rindo.
— Tô vendo que vou ficar devendo essa.
— Vai mesmo.
O outro rapaz, que até então permanecia quieto, fecha o jornal que estava lendo.
Tem cabelos claros, barba bem feita e um jeito muito mais calmo que os outros.
Ele observa cada um de nós por alguns segundos antes de falar.
— Cada dia eu acho que essa casa atrai mais gente maluca.
Olha primeiro para Frank.
Depois para Ju.
Em seguida para mim.
— Primeiro foram esses dois.
Aponta discretamente para Frank e Ju.
— Agora apareceu essa daí.
Balança a cabeça.
— Literalmente apagaram a placa da frente.
Franzo a testa.
— Que placa?
— A que dizia "Casa de bandido".
Frank começa a rir outra vez.
— Agora devia estar escrito "Hospício".
Pela primeira vez desde que fui sequestrada...
Concordei com um criminoso.
Meu Deus.
Estou tempo demais aqui.
— Bom dia.
A voz grave ecoa pela cozinha.
Nem preciso olhar.
O rabugento acordou.
Souza entra vestindo uma bermuda e uma camiseta preta.
Os olhos passam rapidamente por todo mundo.
Até pararem em mim.
Depois descem para a camisa que estou usando.
Outra vez.
Ele suspira.
— Você pegou outra camisa minha?
Dou um sorriso inocente.
— Peguei.
— Tá gostando de roubar minhas coisas?
— Não.
Pego uma caneca de café.
— Tô gostando de não andar pelada.
Frank cospe o café de tanto rir.
Ju abaixa a cabeça.
Os outros dois prendem o riso.
Souza apenas fecha os olhos por um segundo.
Tenho quase certeza de que ele conta até dez mentalmente antes de falar comigo.
— Você tem resposta pra tudo?
Dou um gole no café.
— Tenho.
— Que azar o meu.
Sorrio satisfeita.
Consegui irritá-lo logo cedo.
Meu dia já começou um pouquinho melhor.