Capítulo 6

859 Words
Capítulo 6 Giovana narrando Acordo completamente perdida. Levo alguns segundos para lembrar onde estou. O teto não é o do meu apartamento. A cama também não. Muito menos o fato de existir um criminoso rabugento dormindo em algum lugar daquela casa. Maravilha. Fui sequestrada. De novo esse pensamento. Acho que meu cérebro ainda está tentando aceitar. Olho para a cadeira ao lado da cama. Outra camisa do Souza. Suspiro. Não é como se eu tivesse muita opção. Minhas roupas ficaram na minha casa e alguém lavou a camiseta que eu estava usando ontem. Visto a camisa. Ela fica enorme em mim. Ótimo. Agora, além de refém, pareço uma criança usando a roupa do pai. Prendo o cabelo num coque malfeito e desço as escadas. O cheiro de café invade a casa inteira. Meu estômago ronca. Pelo menos não vou precisar assaltar a geladeira escondida dessa vez. Assim que entro na cozinha, paro no lugar. Franzo a testa. Conto mentalmente. Frank. Ju. E mais dois homens que eu nunca tinha visto. Olho outra vez. Depois solto a primeira coisa que passa pela minha cabeça. — Porra... só pra saber... vocês se multiplicaram? Os quatro me encaram. O silêncio dura exatamente três segundos. Um dos desconhecidos, moreno, barbudo e com uma cicatriz cortando a sobrancelha, me observa da cabeça aos pés. Depois olha para Frank. — Quando vocês falaram que tinham sequestrado uma enfermeira, eu achei que pelo menos ela tivesse estatura normal. Ele volta a me olhar. — Isso aí parece uma criança. Cruzo os braços. — Eu tenho tamanho normal. Ele arqueia uma sobrancelha. — Quantos anos você tem? — Vinte e cinco. — Tem certeza? Frank começa a rir. Idiota. Aponto o dedo para o grandão. — Eu sou um adulto completamente formado. Ele continua sério. — Não convenceu. — Vai à merda. Frank bate na mesa gargalhando. — Eu falei que ela era baixinha. — Eu não sou baixinha! Ju resolve participar. — Você é um pouquinho. Viro para ele. — Você também? — Só tô sendo sincero. Olho para os quatro. — Quer saber? Vocês parecem um grupo de postes. O problema não sou eu. Vocês que cresceram demais. Frank aponta para mim. — Gostei dessa teoria. — É porque ela favorece você. — Não favorece, não. — Favorece, sim. — Não. — Frank... — O quê? — Cala a boca. Ele ergue as mãos. — Tá bom. Respiro fundo. Esses homens conseguem me cansar antes mesmo das oito da manhã. Ju limpa a garganta. — Ei... Olho para ele. — Obrigado. Pisco algumas vezes. — Pelo quê? — Por ter cuidado de mim ontem. Dou um sorriso pequeno. — Aceito o agradecimento... Ele sorri de volta. — ...se você convencer o senhor Ranzinza a me liberar. O sorriso desaparece na mesma hora. — Ah... Olha para os outros. Depois para mim. — Acho melhor não. Franzo a testa. — Como assim "acho melhor não"? — Porque... pelo visto... você não fez um trabalho muito bom. Cruzo os braços. — Como é? Ele coça a nuca. — Você salvou minha vida... mas também ficou presa aqui. — Então a culpa é minha? — Não foi isso que eu... Aponto para a porta. — Vai à merda. Frank quase cai da cadeira de tanto rir. — Ela mandou o cara que agradeceu ela ir à merda! — Mandou pouco. Ju balança a cabeça rindo. — Tô vendo que vou ficar devendo essa. — Vai mesmo. O outro rapaz, que até então permanecia quieto, fecha o jornal que estava lendo. Tem cabelos claros, barba bem feita e um jeito muito mais calmo que os outros. Ele observa cada um de nós por alguns segundos antes de falar. — Cada dia eu acho que essa casa atrai mais gente maluca. Olha primeiro para Frank. Depois para Ju. Em seguida para mim. — Primeiro foram esses dois. Aponta discretamente para Frank e Ju. — Agora apareceu essa daí. Balança a cabeça. — Literalmente apagaram a placa da frente. Franzo a testa. — Que placa? — A que dizia "Casa de bandido". Frank começa a rir outra vez. — Agora devia estar escrito "Hospício". Pela primeira vez desde que fui sequestrada... Concordei com um criminoso. Meu Deus. Estou tempo demais aqui. — Bom dia. A voz grave ecoa pela cozinha. Nem preciso olhar. O rabugento acordou. Souza entra vestindo uma bermuda e uma camiseta preta. Os olhos passam rapidamente por todo mundo. Até pararem em mim. Depois descem para a camisa que estou usando. Outra vez. Ele suspira. — Você pegou outra camisa minha? Dou um sorriso inocente. — Peguei. — Tá gostando de roubar minhas coisas? — Não. Pego uma caneca de café. — Tô gostando de não andar pelada. Frank cospe o café de tanto rir. Ju abaixa a cabeça. Os outros dois prendem o riso. Souza apenas fecha os olhos por um segundo. Tenho quase certeza de que ele conta até dez mentalmente antes de falar comigo. — Você tem resposta pra tudo? Dou um gole no café. — Tenho. — Que azar o meu. Sorrio satisfeita. Consegui irritá-lo logo cedo. Meu dia já começou um pouquinho melhor.
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