Capítulo 23 – John em Silêncio – Ele promete não voltar, mas já não pode

1276 Words
John entrou no quarto como um soldado derrotado. O corpo ainda erguido, mas a alma em pedaços. A porta se fechou atrás dele com um estalo seco, e o silêncio que se instalou parecia zombar de sua tentativa de manter o controle. O paletó caiu sobre a poltrona num movimento brusco, pesado. A gravata, arrancada com violência, ficou pendurada como corda frouxa, símbolo de um nó que ele não conseguia desfazer dentro de si. Aproximou-se do espelho e fitou o próprio reflexo. O homem que o encarava não era o bilionário implacável, nem o pai protetor. Era um sobrevivente cansado, os olhos fundos como trincheiras, vermelhos como feridas abertas. Naquele vidro, enxergava mais do que a própria imagem. Via Analee. Via a silhueta dela no banco de pedra, curvada sob o peso das próprias dores, o vento brincando com os fios soltos do cabelo, a vulnerabilidade que ela escondia tão m*l. E, acima de tudo, ouvia as palavras que ecoavam em sua cabeça como uma sentença gravada a ferro quente: eu não posso, eu não devo. Ele fechou os olhos por um instante, mas isso não apagou nada. Ao contrário, intensificou. Sentiu de novo o gosto do beijo — áspero, urgente, feito de sobrevivência e fome. Sentiu o calor da pele dela sob suas mãos, o arrepio que o incendiara por dentro. Segurou firme a borda da pia, os nós dos dedos esbranquiçando pela força. Baixou a cabeça, deixando que algumas gotas de suor escorressem pela têmpora. Quando falou, a voz saiu grave, quebrada, quase irreconhecível. — Não volto. Repetiu, encarando o reflexo, como se o espelho pudesse ser juiz e testemunha de sua promessa. — Não vou mais atrás dela. Era uma jura desesperada, feita ao vidro, ao gavião tatuado em suas costas, ao homem que tentava ainda acreditar que tinha controle. Mas, mesmo enquanto pronunciava as palavras, sabia da mentira. Porque o corpo o traía. Cada músculo pulsava como se ainda a sentisse perto. Cada respiração parecia buscar o perfume dela no ar rarefeito. O coração já não era dele — batia em ritmo de outra pele, de outra boca, de outro destino. E, no silêncio abafado do quarto, John entendeu a crueldade de sua própria sentença: não havia promessa que pudesse calar o grito que Analee já havia despertado dentro dele. O voto estava feito. Mas já estava quebrado. John tentou deitar. O colchão, macio demais, parecia punir-lhe a insônia. Os lençóis, frios, se tornavam cárcere, colando-se à pele como se denunciassem cada lembrança. Ele fechava os olhos, mas o corpo não obedecia. O coração, em disparo, batia tão forte que parecia querer sair pela boca. A cada piscada, o rosto de Analee surgia. O brilho molhado dos olhos dela. O sussurro quebrado no jardim. O beijo que ainda queimava em seus lábios. O corpo reagia como se a tivesse ali: músculos tensos, respiração curta, veias em chamas. Virou-se de lado, depois de costas, depois de bruços. Nenhuma posição oferecia paz. O gavião tatuado em suas costas parecia mover-se, pulsar contra a pele queimada, como se tivesse vida própria. Um chamado silencioso. Uma ordem inescapável. Vá até ela. Ele apertou os punhos contra o colchão, o maxilar travado. — Não. — A palavra escapou num sussurro áspero, mais para si mesmo do que para o vazio. Mas o instinto rugia, feroz, faminto. O mesmo instinto que um dia o fizera atravessar chamas para salvar a filha agora rugia para atravessar qualquer barreira e buscá-la. Proteger. Possuir. Amar. A mente gritava, desesperada: você jurou nunca mais. Você não pode quebrar de novo. Mas o corpo o traía. Cada músculo clamava pela fênix. Cada nervo ardia pela chama dela. Era guerra dentro dele. Razão contra instinto. Voto contra desejo. E, no fundo, John sabia qual venceria. John virou-se mais uma vez na cama, mas o corpo não encontrava repouso. Os lençóis colavam-se à pele como se guardassem a memória de outro calor — o calor de Analee. A textura do tecido parecia prolongar o toque dela, a forma como seus corpos haviam se encaixado por um instante no jardim, a respiração dela tão próxima que ele jurava ainda sentir o ar úmido contra os lábios. O beijo voltou inteiro. Cada detalhe. O sabor de vinho e fome. O choque do primeiro contato, como se fossem dois animais selvagens que se reconheceram no mesmo fogo. O suspiro dela, contido, preso na garganta, e que se dissolvera contra a boca dele como confissão e pecado ao mesmo tempo. O corpo de John reagia como se tudo ainda estivesse acontecendo. O coração acelerado. O sangue correndo denso pelas veias. A pele em brasa. Ele a queria — com uma intensidade que nenhuma outra mulher havia despertado. Mas não era apenas querer. Era precisar. Precisava dela como um homem precisa de ar, como um sobrevivente precisa de água no deserto. Incapaz de permanecer deitado, levantou-se. Caminhou até a janela e a abriu com força. O vento frio entrou, atravessando-lhe o corpo como lâminas. Mas não trouxe alívio. Apenas espalhou o incêndio por dentro, incendiando ainda mais as cinzas que ele tentava sufocar. O jardim estava lá fora, silencioso, cúmplice. Guardava o banco de pedra onde a vira quebrar, guardava o lugar onde a ouvira sussurrar eu não posso, eu não devo. John fechou os olhos e encostou a testa contra a moldura da janela. — Eu não volto lá. — murmurou, como se o vento fosse testemunha. Mas a boca tremeu ao dizer. A mentira queimava mais do que o desejo. Ele sabia. Analee não era apenas uma mulher. Não era apenas um corpo. Ela era algo que nunca tivera, nem mesmo em noites de prazer vazio com amantes passageiras. Ela não era carnaval. Não era pele e esquecimento. Ela era fogo e eternidade. E ele já estava marcado para sempre. A noite parecia não ter fim. O relógio avançava, mas John ainda não havia pregado os olhos. Estava sentado à beira da cama, o tronco inclinado para frente, os cotovelos apoiados nos joelhos e a cabeça entre as mãos. O peso do corpo era nada comparado ao peso que carregava dentro de si. O silêncio do quarto era tão espesso que parecia gritar. Não havia som, não havia movimento, mas dentro dele, tudo era ruído: o coração batendo descompassado, a respiração curta, a lembrança de Analee queimando como um braseiro impossível de apagar. Ele havia prometido não voltar. Jurara a si mesmo que não buscaria mais o calor dela, que não cederia ao abismo daquele desejo. Mas o coração já havia ido antes dele. Porque mesmo longe dela, já estava preso. Preso ao olhar que o despia sem pedir licença. Preso à fênix que estremecia cada vez que seus olhos se encontravam, como se reconhecesse nele a própria dor. Preso à mulher que, mesmo tentando fugir, incendiava tudo o que tocava. John inspirou fundo, o peito pesado, como se o ar fosse pouco. O murmúrio escapou da garganta rouca, involuntário, íntimo, como confissão arrancada à força: — Eu já voltei… mesmo sem sair daqui. As palavras ficaram suspensas no ar, como sentença. Não eram fracas, não eram vacilantes. Eram verdade. E ele entendeu, enfim: prometer silêncio não o salvaria. Porque o que queimava dentro dele não era capricho, nem simples atração. Era necessidade. A fome que sentia não era carnal apenas — era vital. E a sobrevivência dele tinha nome, rosto, cicatrizes e asas. Analee. John ergueu o rosto, deixando o olhar vazio pousar no teto. Não sabia como, não sabia quando, mas já não havia volta. Fugir era impossível. Porque o destino, como fogo, não se apaga com vontade. Apenas consome. E ele já estava em cinzas.
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