O quarto parecia um cárcere. As paredes, antes claras e acolhedoras, agora se estreitavam ao redor dela como se quisessem sufocá-la com a lembrança que queimava em sua pele. Analee entrou cambaleando, as pernas trêmulas como se ainda carregassem o peso das mãos dele em sua cintura. Encostou-se na porta fechada, respirando rápido, os lábios latejando com o gosto que não se apagava.
Correu até o lavatório, deixou a água fria escorrer pelas mãos e depois pelo rosto, tentando apagar o calor que a consumia. Mas não havia água capaz de extinguir aquele fogo. O gelo apenas ressaltava a brasa que ardia sob a pele, como se a fênix tatuada em suas costas estivesse viva, pulsando, pedindo voo.
Deitou-se na cama, puxando o lençol até o pescoço, mas o tecido leve só servia para lembrar-lhe o calor da proximidade dele, o peso do corpo masculino tão perto, o cheiro de vinho, fumaça e desejo. Cada vez que fechava os olhos, não via descanso — via John. Via o olhar em brasa que a despira sem pedir, via o abismo de onde quase não voltara.
O coração, insubmisso, batia em guerra contra a mente. A cada batida, repetia uma verdade que ela se recusava a aceitar: não era apenas desejo. Não era só o choque de pele contra pele. Era sobrevivência. Era o reconhecimento de que dois corpos marcados pela dor haviam encontrado no outro o mesmo incêndio.
Mas junto ao fogo vinha o terror. O medo que nunca a abandonara. O medo de entregar-se demais e perder tudo. De cair no mesmo buraco de sempre, de deixar que um homem tivesse poder sobre sua alma, sobre seu corpo, sobre a liberdade conquistada com sangue e lágrimas.
Eu não posso. A frase saiu em sussurro, quase um soluço, como se a própria voz pudesse convencê-la.
Eu não devo. Repetiu em silêncio, como se fosse oração.
Mas o corpo não obedecia. Cada fibra, cada nervo, cada músculo clamava pela repetição. As mãos ainda tremiam como se lembrassem do toque. Os lábios ainda pediam mais. A fênix tatuada em suas costas ardia, lembrando-a de que, gostasse ou não, já estava em chamas.
E nenhum mantra, nenhuma fuga, nenhum silêncio poderia apagar o incêndio que John havia aceso.
A manhã nasceu dourada pelas janelas do Santuário, mas em Analee não havia luz — apenas sombra e fuga. Levantou-se cedo demais, antes que pudesse cruzar com John nos corredores, antes que o olhar dele a denunciasse para si mesma.
Enterrou-se no trabalho como quem ergue muralhas. Vestiu-se de branco, prendeu o cabelo num coque apertado e colocou nos ombros a armadura da psicóloga. No consultório improvisado, atendeu as acolhidas com voz suave, ouviu relatos de dor, falou sobre recomeços. Mas cada palavra que dizia às outras ecoava como ironia dentro dela. “Você merece amar, você merece viver” — como podia aconselhar o que ela mesma não tinha coragem de permitir?
A cada passo, o corpo a traía. Sentia o coração acelerar quando ouvia passos masculinos pelo corredor, o sangue gelar quando acreditava ser ele. E quando percebia que não era, o alívio vinha misturado à decepção. Estava dividida entre o impulso de fugir e o desejo ardente de ser encontrada.
Almoçou rápido, fingindo apetite. Evitou a cozinha nos horários em que sabia que John descia para o café. Passou o dia entre papéis, histórias e terapias, mas o tempo inteiro sentia o peso de olhos que não estavam ali.
Quando a tarde começou a se apagar, não suportou mais o peso das paredes. Saiu para o jardim, mas não para o pátio central, onde todos circulavam. Caminhou até os limites do Santuário, onde as árvores eram mais altas, onde o vento soava como lamento e o escuro começava a se insinuar.
Precisava de escuridão. Precisava de um lugar onde não houvesse olhares, onde pudesse se esconder não apenas dos outros, mas de si mesma. Ali, entre sombras e silêncio, deixou-se cair no banco de pedra, apoiou o rosto nas mãos e respirou fundo, tentando acreditar que fugir era possível.
Mas no fundo, sabia: fugir dele era apenas tentar fugir do próprio fogo.
John percebeu a ausência dela antes mesmo de notar a própria inquietação. Ao longo do dia, atravessou corredores, entrou em salas, mas não a viu. Cada não-encontro lhe pesava como uma derrota. Tentou afogar-se no trabalho, enterrou-se em relatórios e telefonemas, mas tudo soava vazio. O eco da risada de Livy, conquistada por Analee, ainda ressoava nele — e com isso vinha a certeza de que não conseguiria mais viver em um mundo onde ela não estivesse presente.
À noite, abandonou os papéis. Seguiu os instintos — não os de empresário, não os de bilionário, mas os do gavião tatuado em suas costas, que rugia, impaciente, pedindo voo. Seus pés o levaram em silêncio pelo Santuário até os limites do jardim, onde o vento era mais forte e o escuro mais denso.
E então a viu.
Analee estava sentada no banco de pedra, os ombros curvados para frente, o rosto escondido nas mãos. O vestido leve se agitava ao sabor da brisa, e o cabelo solto escapava em fios rebeldes que a lua beijava em prata.
John parou, preso à cena como se o mundo tivesse encolhido até caber naquele instante. A respiração dela era trêmula, quase um soluço contido. O peito de John apertou. Cada fibra de seu corpo pedia para avançar, segurá-la, protegê-la, prometer que nunca mais estaria sozinha.
Mas ele ficou imóvel, à sombra das árvores. Um caçador silencioso, dividido entre o desejo de tomar e o medo de ferir. Observava-a como quem contempla algo sagrado, como quem vê a própria salvação e, ao mesmo tempo, o maior risco de sua vida.
Os punhos cerraram. O maxilar travou. O coração batia descompassado, mais rápido do que em qualquer sala de reunião ou campo de batalha.
Ali, no escuro, John entendeu: não estava apenas desejando Analee. Estava lutando contra si mesmo.
E perderia. Mais cedo ou mais tarde, perderia.
O vento frio cortava a pele de Analee, mas dentro dela era verão em chamas. Sentada no banco de pedra, abraçou o próprio corpo como se os braços pudessem conter o incêndio que a devorava por dentro. O coração batia em disparo, pulsando nas têmporas, nos pulsos, no ventre. Cada batida era a lembrança do beijo. Cada suspiro era a memória da boca dele, do calor que não deveria ter provado.
Ela ergueu o rosto para o céu escuro, e as estrelas pareceram zombar de sua fragilidade. As lágrimas vieram, quentes, escorrendo pelo rosto como trilhas de fogo. Apertou os olhos, tentando contê-las, mas quanto mais tentava segurar, mais queimavam.
— Eu não posso… — sussurrou, a voz falha, rouca. — Eu não posso… não de novo…
O vento levou suas palavras, mas não o suficiente. John, escondido nas sombras, as ouviu. Cada sílaba o atravessou como lâmina. O peito dele se contraiu, dolorido, e o gavião em suas costas vibrou como fera acorrentada. Ele queria avançar, puxá-la contra si, jurar que não era como os outros, que jamais seria.
Mas não se moveu. Ficou imóvel, com o corpo tenso, os dedos cravando-se nas palmas das mãos. Sentia o sangue arder nas veias, sentia o desejo gritar como fera faminta, mas o medo de romper a muralha dela o paralisava.
Analee curvou-se, apoiando os cotovelos nos joelhos, e escondeu o rosto nas mãos. O cabelo caía em cortinas negras, colando-se ao rosto molhado pelas lágrimas.
— Eu não devo… — repetiu, mais baixo, quase uma oração quebrada.
E foi então que a fênix em suas costas ardeu. Um arrepio percorreu sua pele, como se as chamas tatuadas quisessem sair e iluminar a noite. Ela sentiu — no peito, no ventre, na alma — que fugir não seria suficiente. Porque o fogo já estava dentro dela. E fugir do fogo era impossível.
John fechou os olhos, tentando conter o próprio coração. Mas sentiu o calor subir como febre, sentiu cada músculo tremer em protesto. Ali, nas sombras, entendeu a verdade que ela ainda se recusava a aceitar: não era apenas desejo. Era destino.
E o destino não se foge.
O destino queima.