Capítulo 20 – O Jantar que Queima

1886 Words
A casa inteira parecia respirar em alerta depois do que acontecera. Até as paredes pareciam estar em vigília, como se também soubessem que a sombra de Seraphine havia atravessado o portão do Santuário. A segurança fora dobrada: homens de confiança circulavam discretamente pelo jardim, as câmeras recém-instaladas piscavam pequenas luzes vermelhas, e o portão principal estava trancado sob vigilância constante. Mas nada disso bastava para aliviar o ar sufocante. Havia um veneno maior que qualquer ameaça externa: a certeza de que o documento que libertara Seraphine era falso. A mentira tinha cheiro de poder, de manipulação. Alguém a havia colocado de volta em campo — alguém influente o bastante para distorcer a lei. E isso só confirmava os piores temores de John: estavam sendo caçados por forças que jogavam sujo, sem limites. O reflexo dessa visita maldita fora estampado de forma c***l em Livy. A menina, ao ver a mãe, não apenas congelara como estátua. O trauma retornou em um gesto visceral, incontrolável: ela se urinou diante de todos, os olhos arregalados, o corpo pequeno tremendo. Depois, se fechou em um choro silencioso que não rasgava o ar, mas o coração de quem testemunhava. Porque o silêncio de Livy era ainda mais devastador que um grito. E só houve um remédio: Analee. Foi nos braços dela que a criança encontrou abrigo. A fênix não precisou prometer nada em palavras — bastou o calor do abraço, a firmeza da mão segurando a dela, o coração pulsando como escudo. Analee recusou-se a soltá-la até que o cansaço do corpo pequeno finalmente se impôs ao medo. Só então, com os dedos ainda presos ao ursinho e à mão da psicóloga, Livy adormeceu, respirando devagar, como se tivesse encontrado um ninho temporário em meio à tempestade. John ficou parado à porta do quarto, testemunhando a cena com o coração dilacerado. E quando finalmente se aproximou, foi em silêncio, para não quebrar a frágil paz que a filha havia conquistado. Pegou Livy nos braços com cuidado, tirando-a do colo de Analee, mas seu olhar denunciava: ele sabia que aquela calma não vinha dele. Vinha dela. Da mulher que carregava as próprias cinzas tatuadas nas costas e, mesmo assim, encontrava forças para oferecer abrigo. Dona Ofélia, por sua vez, não resistira ao peso do dia. A pressão subira, a cabeça latejava, e o médico do Santuário fora chamado às pressas. Receitou repouso, água, e um comprimido para acalmar o coração que batia ansioso demais. Agora, descansava em seu quarto, respirando lentamente, como quem tentava driblar a tensão que ameaçava a paz de todos. E assim, quando a noite caiu, a casa se reduziu ao silêncio de dois sobreviventes. John e Analee sentaram-se frente a frente na mesa de jantar. Dois pratos esfriavam lentamente diante deles, esquecidos. Ninguém tinha apetite. A fome era irrelevante diante do fogo que ainda queimava por dentro. A mesa era longa, mas naquela noite parecia curta demais. Porque não havia comida que preenchesse o vazio do que estavam prestes a enfrentar. Havia apenas olhares. E olhares, às vezes, queimam mais do que qualquer chama. A mesa era extensa, de madeira nobre, marcada por anos de histórias do Santuário. Mas, naquela noite, parecia curta demais. Os talheres repousavam intocados, como se já soubessem que não seriam usados. O cheiro da comida quente se dissipava pelo ar, mas não havia fome — apenas a sensação de que tudo ao redor poderia se incendiar a qualquer segundo. John apoiava os cotovelos na mesa, os dedos entrelaçados com força, o maxilar travado. Olhava fixamente para o prato como se, de alguma forma, os números que costumava enfrentar nos relatórios empresariais estivessem ali, capazes de distraí-lo. Mas não havia gráficos ou contratos que o salvassem do que lhe queimava o peito. O corpo ainda vibrava com a raiva de ter visto Seraphine diante de Livy, com o medo estampado no rosto da filha, e, sobretudo, com a imagem impossível de apagar: Livy, pequena e tremendo, encontrando paz apenas nos braços de Analee. Como se ela fosse o único abrigo seguro em um mundo que só sabia ferir. Do outro lado, Analee mexia distraidamente no garfo, empurrando os grãos de arroz de um lado para o outro. Não tinha apetite. O nó em sua garganta era maior que qualquer fome. De vez em quando, erguia os olhos, apenas para flagrar John. E toda vez que seus olhares se encontravam, o ar rareava, carregado de algo que não era dito. Era como se cada silêncio gritasse mais alto do que qualquer frase: eu sinto você. O vinho repousava nas taças, intocado. A chama das velas tremulava no meio da mesa, lançando reflexos quentes que iluminavam não apenas os contornos de seus rostos, mas também as cicatrizes invisíveis que ambos carregavam. A fênix e a águia, lado a lado, marcados por dores diferentes, mas reconhecendo-se sem esforço. John foi quem quebrou o silêncio. A voz rouca, quase um sussurro, atravessou a distância da mesa. — Ela só dormiu porque você estava lá. Não era acusação, tampouco uma constatação fria. Era gratidão nua, sem disfarce. Analee ergueu o rosto. Surpresa pelo tom inesperadamente suave, demorou um instante para responder. Seus olhos ardiam de uma forma que não queria admitir. Um quase sorriso se formou em seus lábios. — Ela dormiu porque não estava sozinha. As palavras pairaram no ar, leves e densas ao mesmo tempo. Um lembrete de que, por mais que tentassem negar, havia um elo invisível costurando-os naquela noite: Livy. Mas também algo além dela, algo que ambos ainda tinham medo de nomear. O silêncio retornou, mas não tinha mais o mesmo peso. Agora, era fogo contido. Um fogo que não destruía, mas ameaçava se expandir. Cada olhar sustentado era uma brasa acesa. Cada respiração contida era um convite não dito. E, no fundo, ambos sabiam: estavam queimando. John levantou a taça, finalmente, como quem precisa de coragem líquida. O vinho deslizou em sua garganta, mas não apagou o fogo que ardia por dentro. Quando pousou a taça de volta sobre a mesa, o som do vidro contra a madeira soou mais alto do que deveria — um estalo seco, quase um aviso. Ele ergueu o olhar. E o prendeu em Analee. Ela não desviou. Não se escondeu. Os olhos se encontraram no espaço entre eles, e, de repente, a mesa comprida desapareceu. Não havia velas, não havia pratos, não havia taças. Havia apenas o choque de duas presenças que se reconheciam. O olhar dele era lâmina, incisivo, quase brutal. Mas também era carícia — um roçar invisível que queimava tanto quanto qualquer toque. O dela, firme e desafiador, escondia um tremor que só ela sentia. Havia desejo ali, bruto, intenso, pulsando como uma corda prestes a se romper. Mas havia algo além do físico. Eles se viam não apenas como homem e mulher. Eles se viam como sobreviventes. Reconheciam-se nas cicatrizes que carregavam, nas sombras que tentavam ocultar. Não era simples atração — era como se duas dores distintas se curvassem uma diante da outra em respeito. O peito de John subiu e desceu mais forte, denunciando o esforço que fazia para se controlar. A águia tatuada em suas costas rugia, pedindo voo, pedindo pele. Ele cerrou o maxilar, prendeu a respiração por um instante, tentando conter a fúria doce do desejo. Analee, por sua vez, apertava o guardanapo entre os dedos com força, como se fosse a única âncora que a mantinha ali. O corpo queria se inclinar, queria ceder, mas a mente lembrava da promessa feita à fênix: nunca mais se entregar. Ainda assim, cada fibra dela ardia. O medo não era do desejo. O medo era do que ele representava. Porque ali, diante de John, ela não era apenas a psicóloga do Santuário, a mulher forte que erguera muralhas. Ela era, outra vez, a menina que queria acreditar que amar não era morrer. O silêncio estalava entre eles, denso, incandescente. E foi Analee quem ousou, deixando escapar uma provocação embebida em vulnerabilidade. — Você me olha como se quisesse… A frase morreu no ar, suspensa, perigosa. John inclinou-se levemente para a frente, o olhar faiscando como brasa em noite sem vento. — Eu te olho como se já tivesse perdido a batalha. A resposta caiu entre eles como um estilhaço. Não era confissão. Era rendição. O silêncio seguinte queimou mais do que qualquer beijo roubado. A chama da vela tremulou entre eles, como se zombasse da distância que ainda tentavam manter. Mas os dois sabiam: já estavam em chamas. A tensão os prendia como correntes invisíveis. O jantar esquecido, as taças cheias, a comida fria. Nada mais importava. O mundo havia se reduzido àquele espaço de mesa e ao fogo que ardia entre eles. John não suportou permanecer sentado. O corpo dele parecia grande demais para caber naquela cadeira, como se o gavião em suas costas exigisse voo. Levantou-se devagar, cada passo ecoando pesado contra o silêncio, e deu a volta até parar ao lado dela. Analee ergueu o rosto, e o coração acelerou como nunca. O ar ficou denso, elétrico, quando a sombra dele cobriu a chama da vela. Era como se o escuro se inclinasse sobre ela, não para ameaçar, mas para seduzir. Por um segundo, o desejo venceu todas as muralhas. A mão de John roçou de leve no encosto da cadeira dela, os olhos dele percorreram sua boca, e o tempo parou. A pele de Analee se arrepiou inteira, como se a fênix tatuada nela tivesse aberto as asas. Mas a razão ainda lutava para sobreviver. Analee fechou os olhos, respirou fundo, e murmurou com a voz trêmula: — Não posso. Não agora. Ele se afastou um passo, o maxilar travado, como se cada músculo protestasse contra a ordem do cérebro. O gavião rugia dentro dele, feroz, pedindo para puxá-la para seus braços e abraçá-la como ela abraçava Livy — inteira, sem reservas. Mas John conteve-se. Parte de sua força estava em saber esperar. E foi então que, instintivamente, a mão dele se moveu. Um gesto pequeno, delicado, quase proibido: ele afastou uma mecha solta do cabelo dela e a prendeu atrás da orelha. O toque foi breve, mas devastador. Não havia dureza, não havia força bruta — apenas cuidado. E foi exatamente isso que queimou Analee por dentro. Porque aquilo não a machucava. Aquilo a acendia. O gesto suave, quase íntimo, fez a fênix estremecer em brasas. John inclinou-se levemente, perto o bastante para que ela sentisse o calor da respiração dele contra sua pele. A voz saiu grave, arrastada, como um sussurro que a marcou mais do que qualquer grito: — Eu também não devia. — Uma pausa, o olhar mergulhado no dela. — Mas isso não apaga o que já está aqui. E, antes que a muralha desmoronasse de vez, ele recuou. Virou-se e subiu as escadas, o corpo rígido, cada passo uma luta contra si mesmo. Analee permaneceu sozinha, o peito arfando como se tivesse corrido uma maratona. As mãos ainda apertavam o guardanapo, agora amassado como se guardasse dentro dele toda a tensão da noite. A vela à sua frente tremulou, espalhando sombras dançantes na mesa. E, naquele instante, ela teve a impressão de que a chama ria dela, zombava da resistência. Porque a fênix já havia sido tocada pelo fogo da águia. E nenhum dos dois conseguiria fugir por muito tempo.
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