Capítulo 13 – Cicatrizes Reconhecidas

1817 Words
Havia algo em Analee que despertava em John um instinto que ele acreditava estar morto. Não era apenas desejo — embora esse queimasse nele como fogo indomável. Era algo mais profundo, mais primal, que o conectava a ela como se seus corpos se reconhecessem antes mesmo de qualquer toque. A atração os ligava de forma invisível, uma corrente silenciosa que os puxava um para o outro, mesmo quando ambos insistiam em recuar. Às vezes, bastava ela passar pelo corredor do Santuário, o perfume suave misturado ao som firme dos passos, para que o gavião tatuado em suas costas parecesse se agitar. Ele quase podia sentir as asas batendo sob a pele marcada pelas cicatrizes, como se exigissem voar em direção à fênix que caminhava diante dele. E John odiava admitir isso. Odiava porque cada fibra de sua promessa — nunca mais amar, nunca mais se entregar — parecia desmoronar sob o peso de um único olhar dela. Odiava porque, mesmo em silêncio, Analee o desafiava. Ela não precisava de gestos ousados nem de palavras insinuantes. Bastava existir. Bastava erguer os olhos e fitá-lo de frente para que todo o autocontrole dele se estremecesse. Dentro do Santuário, ele a observava quase em segredo. Via os olhares que ela atraía — a reverência das mulheres que a viam como exemplo, a admiração dos homens que respeitavam sua força. Ninguém ousava ultrapassar limites, mas só o fato de que ela despertava atenção era suficiente para acender nele um instinto feroz. Não era ciúme comum. Era territorialidade. Era o gavião dentro dele abrindo as asas, pronto para atacar qualquer sombra que ousasse se aproximar demais. Ele se perguntava quando aquilo havia começado. Talvez no instante em que a viu pela primeira vez, sob a luz dourada do pôr do sol no pátio do Santuário, quando seus olhos se encontraram e algo nele parou de respirar. Talvez antes, quando ouvira Livy pronunciar suas primeiras palavras nos braços dela. Ou talvez sempre. Talvez estivesse destinado. John sabia que era perigoso. Cada passo em direção a Analee significava desafiar a promessa que fizera a si mesmo: nunca mais amar, nunca mais se perder. Mas, ao mesmo tempo, a necessidade de protegê-la crescia em proporções que não conseguia controlar. Não era apenas como se protege uma missão ou um abrigo. Não. Era como se protegesse algo precioso demais para ser tocado pelo mundo. E isso o apavorava. Porque, no fundo, sabia que esse tipo de proteção não nascia apenas da responsabilidade. Nascia do desejo. Nascia daquilo que mais temia: a possibilidade de amar outra vez. John fechou os punhos, sentindo as cicatrizes repuxarem a pele nas costas. O gavião parecia vivo, as asas batendo sob sua carne, chamando-o para o voo. Mas todo voo implicava queda. E, se se entregasse à fênix, não sabia se teria forças para se erguer outra vez. A madrugada caía pesada sobre o Santuário. O silêncio das paredes parecia gritar dentro do quarto de John, cada sombra se movendo como se tivesse vida própria. O sono não vinha — não vinha há semanas. As lembranças ainda tinham cheiro de fumaça, e as cicatrizes em suas costas ardiam como se nunca tivessem cicatrizado de verdade. Exasperado, puxou o moletom pela cabeça e desceu os degraus até a cozinha. Os pés descalços contra o chão frio o lembravam da solidão que carregava. Pegou um copo, encheu-o de água, e quando o levou à boca, ouviu. Um som diferente. Pequeno, mas inconfundível. Respingo. Água em movimento. John franziu o cenho, apoiou o copo sobre o balcão e seguiu o instinto. Atrás das cortinas de vidro que se abriam para o jardim, o brilho da piscina cortava a noite como uma lâmina azul. Ele caminhou até a porta, empurrou-a devagar, e o ar noturno, úmido e frio, bateu contra sua pele. Foi então que a viu. Analee. Sozinha, deslizando pela piscina como se fosse parte da água, como se tivesse nascido ali. O corpo cortava a superfície em movimentos lentos, quase felinos, cada curva acentuada pelo reflexo da lua. Os cabelos encharcados grudavam-lhe às costas, e quando ela virou o rosto, ele viu os olhos semicerrados, entregues a um silêncio que não era vazio, mas refúgio. John parou, a respiração falhando por um segundo inteiro. Sentiu o coração dar um salto dentro do peito, descompassado, traidor. Era impossível não olhar. Impossível não sentir. A fênix se movia na água como se estivesse dançando. Não havia pressa, não havia defesa. Apenas entrega. Cada mergulho revelava a força escondida, cada respingo parecia um lampejo de fogo líquido. John apertou o punho ao lado do corpo. O gavião dentro dele se agitou, as asas invisíveis batendo com violência. Era atração, era desejo, mas também algo mais: reconhecimento. A cada curva do corpo dela, a cada gota que escorria pela pele, ele via o reflexo da própria luta, da própria dor. Analee emergiu, os lábios entreabertos para buscar ar. A água escorreu por seu rosto, descendo pelo pescoço até desaparecer na curva dos ombros. A lua banhou sua pele com um brilho quase etéreo. John engoliu em seco. O instinto gritava para que se afastasse. Mas os olhos… os olhos não obedeciam. Era como se estivesse diante de um segredo que já conhecia, mas nunca ousara admitir. A pele dela brilhava como fogo disfarçado de água, e ele sabia — se desse um passo, se atravessasse a distância que os separava, não haveria volta. Naquele instante, não existia passado, não existia dor. Apenas a fênix nadando sob a lua. E a águia, presa ao chão, desejando voar até ela. A água da piscina escorria em fios prateados pelo corpo de Analee quando ela emergiu pela última vez. O silêncio da madrugada a envolvia, mas não abafava o som ritmado da respiração dela, nem o impacto visual que sua presença causava. John permaneceu imóvel na soleira da porta, dividido entre o impulso de fugir e a impossibilidade de desviar os olhos. Analee caminhou até a borda, subindo os degraus lentamente, e cada movimento parecia coreografado pela lua. O cabelo, pesado pela água, colava-se aos ombros, formando um manto escuro que ainda assim não conseguia esconder sua força. Ela alcançou a toalha deixada na espreguiçadeira, envolvendo-se sem pressa. Mas o tecido fino não cobria totalmente as costas. E então John viu. A tatuagem. A fênix se erguia sobre a pele dela, asas abertas, linhas em chamas, como se estivesse em pleno voo. Um desenho que, para qualquer outro olhar, seria apenas símbolo de força e superação. Mas para John, era revelação. Ele sabia. Reconhecia. Por baixo daquelas asas coloridas, estavam cicatrizes. Cicatrizes que não nasceram por acaso, mas de violência. Marcas deixadas pelo mesmo tipo de fogo que destruíra sua própria vida. O corpo de John enrijeceu. Instintivamente, sua mão se fechou em punho ao lado do corpo, como se tentasse conter a fúria e a dor que explodiam ao mesmo tempo. Não era apenas atração. Não era apenas desejo. Era reconhecimento. Era como olhar em um espelho invertido. Ele, com a águia marcada sobre suas próprias cicatrizes. Ela, com a fênix cobrindo as dela. Dois corpos tatuados pela dor, transformando queimaduras em símbolos. Dois destinos que, de formas diferentes, haviam sido gravados pelo mesmo ferro em brasa. O olhar de Analee se ergueu e o encontrou. Ela não pareceu surpresa em vê-lo ali. Ao contrário, parecia já saber que ele a observava. Não desviou, não se escondeu. Apenas sustentou o peso daquele silêncio carregado. — Bonito observar sem pedir licença, John… — disse, a voz baixa, mas carregada de ironia e provocação. Ele não recuou. O olhar dele percorreu-lhe as costas, retornou ao rosto, e só então sua voz grave ecoou, rouca, firme: — Bonito é ver alguém transformar dor em arte. As palavras ficaram suspensas no ar como faíscas, inflamando tudo ao redor. Analee ergueu o queixo, como quem aceitava o desafio. A fênix ardia em sua pele. A águia pulsava sob a dele. E naquele instante, mais do que atração, mais do que desejo, havia um reconhecimento visceral: o destino os havia marcado com a mesma chama. E nada, nem o silêncio, nem o medo, seria capaz de apagar aquilo. O silêncio entre eles não era vazio. Era denso, pesado, feito de respirações entrecortadas e olhares que se tocavam como se fossem mãos. A química explodia, vibrando no ar, arrancando cada máscara que ambos tentavam manter. Os corpos se inclinavam sem que percebessem, atraídos por algo que nenhum dos dois tinha força para negar. Os olhos cobiçavam sem lembrar das próprias dores, como se, por um instante, não houvesse passado, não houvesse promessas — apenas o agora, quente, incandescente. — Está com medo? — Analee quebrou o silêncio, a voz carregada de provocação. Mas o olhar faiscante traía o coração acelerado, a vulnerabilidade que tentava esconder. John sustentou o olhar dela, a voz baixa e rouca, como se arrancada de dentro das cicatrizes: — Não de você… mas do que posso sentir se encostar em você. As palavras pairaram entre eles como fogo prestes a se alastrar. O ar pareceu rarefeito. O espaço entre suas bocas diminuiu tanto que bastaria um sopro para que se encontrassem. Os lábios estavam ali, prontos, a tentação viva, o calor pulsando. Por um instante, o mundo desapareceu. Só havia a fênix e a águia, prestes a se tocar. Mas o medo se ergueu como muralha invisível. John recuou no último segundo, o maxilar travado, como se a contenção fosse a última defesa que ainda tinha. Analee sorriu. Mas não era apenas ironia. Era a fênix reconhecendo que já incendiara o coração da águia — mesmo sem tocá-lo. Ainda assim, por trás da ousadia, havia medo. Porque naquele instante, ela também quis fugir. A provocação fora máscara, disfarce. No fundo, tremia pelo que havia sentido. Pela primeira vez desde que fora marcada pelo fogo, desejou um homem. Desejou de verdade. Não como vingança, não como necessidade de provar força, mas como chama viva que pedia para ser alimentada. E isso a apavorava. John respirou fundo, virou-se lentamente como se precisasse de ar, como se só assim pudesse manter o controle. E foi nesse gesto que a barreira ruiu ainda mais: o moletom deslizou um pouco, revelando parte das costas tatuadas. A águia. Protegendo as cicatrizes, cobrindo as marcas do incêndio. O olhar de Analee se fixou naquilo e, por um instante, seu coração parou. Não precisava tocar, não precisava perguntar. Reconheceu a si mesma ali. Não havia nada mais íntimo do que aquele reconhecimento silencioso. Era como se tivesse se visto pela primeira vez através da pele de outro. Como se o destino tivesse gravado neles o mesmo idioma de dor e de renascimento. Foi mais intenso do que qualquer beijo poderia ser. Mais arrebatador do que qualquer carícia. Porque naquele reflexo, Analee não viu apenas John. Viu a si mesma. E essa revelação a incendiou por dentro, tanto quanto a assustou.
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