O sol nasceu tímido naquela manhã, filtrando-se pelas cortinas do Santuário e iluminando o quarto de Analee com um brilho suave. Mas dentro dela não havia suavidade alguma — havia fogo. Um fogo que não vinha do passado, das cicatrizes, mas do presente, de John Terly. Do homem que ela deveria manter distante, mas cuja presença queimava em sua pele como se ainda estivesse entre seus braços.
Levantou-se antes que qualquer outra pudesse notar sua inquietação. Vistou-se depressa, prendeu o cabelo em um coque apressado e decidiu: evitar. Evitar o jardim. Evitar a cozinha. Evitar qualquer canto em que pudesse cruzar com ele. Porque o acaso, ela já sabia, não era acaso. O destino tinha uma forma perigosa de empurrá-los um para o outro, como se a fênix e a águia fossem atraídas pelo mesmo vento.
Então, escondeu-se no único lugar onde sabia se perder: o trabalho.
Passou a manhã inteira mergulhada entre as mulheres acolhidas, ajudando a organizar oficinas, ouvindo histórias, oferecendo abraços. A cada toque de conforto que dava, sentia um alívio passageiro, como se pudesse distrair o coração. Mas no instante seguinte, o vazio voltava. Era como tentar tapar uma f***a com as mãos: a chama sempre escapava.
Quando ouviu uma das acolhidas, uma jovem que carregava no olhar a mesma dor que um dia fora sua, dizer com a voz embargada “eu não consigo confiar em ninguém”, Analee congelou. Porque, no fundo, aquilo também era sobre ela. Porque a fênix que ajudava outras mulheres a voar agora tinha medo das próprias asas.
John. O nome martelava como ameaça dentro de sua mente.
Não podia admitir. Não podia permitir. Não depois de tudo. Não depois de passar a vida inteira aprendendo que desejar era abrir espaço para o perigo.
E, no entanto… ela havia desejado. Pela primeira vez, não com a urgência de provar força ou de sobreviver. Mas de verdade. Desejou um homem pelo que ele era, pelo reflexo de dor e de coragem que vira nele.
Isso a apavorava.
Então, fugiu. Do jardim, da piscina, dos corredores que podiam levá-la até ele. Fugiu como se a distância pudesse apagar o que a noite anterior havia acendido.
Mas o corpo… o corpo não mentia. A cada vez que lembrava das mãos de John em sua cintura, um arrepio percorria sua pele. A cada vez que lembrava do olhar dele, sentia o coração acelerar, sem permissão.
E assim, entre sorrisos forçados e palavras de incentivo às outras, Analee descobriu uma verdade que doía mais do que qualquer cicatriz: não era apenas do homem que fugia. Era dela mesma. Da mulher que, enfim, ousava desejar.
John fez o que sempre soube fazer quando o coração ameaçava sair do controle: refugiou-se no trabalho. A mesa do escritório, improvisada no Santuário, tornou-se trincheira. Ligou o computador antes mesmo de tomar café, abriu relatórios intermináveis, mergulhou em contratos e números. Fingiu-se empresário ocupado demais para sentir, para pensar em outra coisa que não fosse lucro, riscos, negociações.
Mas era só fachada.
Passou horas ao telefone, conversando com sócios, investidores, advogados. No fim de cada ligação, percebia que não tinha registrado metade do que fora dito. O cérebro obedecia ao automático, mas o coração não. Porque, em cada pausa, em cada segundo de silêncio entre uma ligação e outra, a lembrança voltava: o corpo de Analee contra o seu, o peso leve dela em seus braços, a pele quente sob a palma da sua mão.
O desejo vinha com violência, mas não era apenas físico. Era mais profundo, mais traiçoeiro. Analee o desarmava, e isso o apavorava.
Fugir era sua forma de resistir. E ele precisava resistir. Entregar-se significava quebrar o voto que jurara nunca quebrar. Depois do incêndio, depois da traição de Seraphine, depois de ver sua vida ruir, prometera a si mesmo que nunca mais deixaria uma mulher atravessar suas defesas. Nunca mais amaria. Nunca mais arriscaria.
Mas havia algo diferente nela.
Cada vez que fechava os olhos, o rosto de Analee surgia — molhado pela piscina, iluminado pela lua, desafiando-o com aquele olhar que parecia ver além da superfície. Ela não precisava de esforço para invadir suas muralhas; simplesmente estava lá, como se sempre tivesse feito parte dele.
John recostou-se na cadeira, passou a mão pelo rosto e soltou um suspiro pesado. O moletom escorregou um pouco, e o desenho do gavião em suas costas pareceu pulsar contra a pele.
Era como se a tatuagem exigisse algo dele. Como se as asas batessem em fúria, pedindo para voar de volta ao fogo que ele tentava apagar.
Ele sabia que era inútil. Podia se esconder atrás de relatórios, fingir-se de mármore diante da mãe, da filha, das acolhidas do Santuário. Mas dentro dele, a batalha já estava perdida. O gavião reconhecia a fênix. O corpo já sabia o que a mente teimava em negar.
E cada segundo de fuga só tornava a queda mais inevitável.
Era quase cômico, se não fosse devastador: quanto mais John e Analee fugiam, mais se encontravam nos detalhes. Não precisavam se tocar, não precisavam se olhar. O corpo já havia decidido por eles.
John percebia primeiro pelo ar. Entrava em uma sala, e sabia se ela estava ou não ali antes mesmo de vê-la. O ambiente parecia diferente, como se o oxigênio ganhasse peso. Quando ela não estava, tudo parecia mais frio, mais seco. Quando estava, era como se o ar queimasse em seus pulmões.
Analee sentia de outra forma. Para ela, a presença dele era sombra. Não importava onde estivesse — no refeitório, nos corredores, no jardim — bastava que John cruzasse o espaço para que sua pele se arrepiava, como se um vento invisível a tocasse. O coração dela reconhecia antes da mente. O corpo denunciava o que ela tanto tentava esconder: que o desejava.
E não era só físico. Era instintivo.
Às vezes, ela estava falando com uma acolhida, ouvindo histórias de dor, e de repente, sem motivo aparente, sentia a espinha formigar. Bastava virar discretamente a cabeça para confirmar: ele estava ali, observando. Tentando disfarçar sob a postura firme, sob o olhar frio, mas os olhos dele não mentiam.
John, por sua vez, descobria-se inquieto sempre que ela entrava em algum ambiente. A mão, sem perceber, fechava em punho. O maxilar endurecia. Não porque não a quisesse — mas porque a queria demais. O corpo reagia como inimigo, traindo a mente que ainda se agarrava ao voto de não amar.
Era uma guerra silenciosa.
Fugiam pelos corredores, desviavam olhares, fingiam indiferença. Mas cada célula gritava o contrário. Cada músculo clamava pela proximidade.
À noite, quando se deitavam em suas camas separadas, ambos sentiam a mesma dor: a ausência do outro. O lençol parecia frio demais, o travesseiro pesado demais. O corpo, rebelde, pedia o calor que já conhecia mesmo sem nunca ter tido por completo.
Era como se um inimigo silencioso se infiltrasse dentro deles, crescendo por baixo da resistência. Desejo não declarado, mas cada vez mais poderoso.
E o desejo é paciente. Espera. Corrói devagar. Exige espaço até que não reste mais lugar para negar.
John sabia que estava perdido cada vez que a respiração falhava só de ouvi-la rir ao longe.
Analee sabia que estava perdida cada vez que os olhos dele cruzavam os dela, ainda que apenas por um segundo.
O corpo já havia escolhido.
E contra isso, nenhuma promessa era forte o bastante.
O corredor estava em penumbra, iluminado apenas pelas lâmpadas fracas que se espalhavam pelas paredes antigas do Santuário. O som dos passos ecoava suave, ritmado, até que ambos pararam de andar ao mesmo tempo.
John e Analee. Frente a frente.
Ele vinha de um lado, carregando o peso da insônia e da luta contra si mesmo. Ela vinha do outro, envolta na tentativa de parecer firme, de convencer-se de que era apenas mais uma noite. Mas quando os olhos se encontraram, todas as tentativas desmoronaram.
John foi o primeiro a desviar, como se isso pudesse poupá-lo da verdade. Mas o corpo o traiu: inspirou fundo, e o perfume dela entrou em seus pulmões como corrente quente. Era doce, mas havia algo de indomável naquele aroma, algo que grudava nele como lembrança.
Analee ergueu o queixo. Fingiu frieza, como sempre fazia. Mas os olhos… ah, os olhos a denunciavam. Ardiam como brasas, prestes a incendiar o silêncio. Era impossível disfarçar, impossível negar que, por trás do controle, havia um vulcão.
O espaço entre eles parecia pequeno demais. O silêncio parecia vivo, pulsando como um coração exposto. Não disseram nada, mas não precisavam. A ausência de palavras era mais íntima do que qualquer confissão.
O quase-beijo da noite anterior ainda pairava entre eles, como um fantasma quente, insistente. A pele lembrava. O corpo clamava.
John apertou o maxilar, como quem segura um grito.
Analee mordeu discretamente o lábio, como quem segura um gemido.
E naquele instante, ambos entenderam a mesma verdade: podiam fugir, podiam se enterrar em papéis, em rotinas, em sorrisos forçados. Mas o corpo já sabia.
E o corpo, uma vez desperto, não se cala.
Ele sempre pede de volta o que o fogo acendeu.
O coração de John pulsava como tambor, como se o gavião dentro dele rasgasse a pele para voar até a fênix.
O coração de Analee ardia como se as asas da fênix tremessem por dentro, prontas para incendiar tudo de novo.
Eles passaram um pelo outro em silêncio, mas nenhum deles respirou do mesmo jeito depois.
Não era mais questão de se, mas de quando.