Gustavo

467 Words
📖 Capítulo 2 – O Dono do Morro Narrado por Gustavo Meu nome é Gustavo. Tenho trinta e cinco anos, e sou o dono desse morro. Não herdei só o poder. Herdei o peso. Meu pai morreu em confronto com a polícia quando eu ainda era jovem demais para segurar tanta responsabilidade, mas não havia opção. Ou eu assumia, ou a boca virava pó nas mãos de quem não sabia mandar. E eu aprendi cedo: aqui em cima, respeito não se pede. Se impõe. Minha rotina é essa: acordar antes do sol nascer, porque líder não dorme demais. Café amargo, cigarro, olhar o movimento da boca, contar o caixa, manter os moleques na linha. No meu mundo, uma palavra errada pode custar a vida. Sou duro, seco. Preciso ser. Não existe espaço para fraqueza quando todo mundo espera que você seja imortal. Mas existe uma parte de mim que ninguém toca. Meu filho. Pedro. Pedro tem cinco anos. Filho de uma garota de programa que nunca quis ser mãe. Ela pariu e sumiu, me entregando aquele bebê miúdo e chorão como se fosse um fardo. Mas, pra mim, ele nunca foi peso. Ele é tudo. Eu cuido dele do meu jeito — meio bruto, eu sei — mas com amor de verdade. Amor que eu nunca tive. — Papai, você vai brincar comigo depois? — ele me pergunta quase todo dia, com aqueles olhos verdes iguais aos meus, brilhando de esperança. Eu seguro firme na cintura dele, puxando pra perto. — Se eu tiver tempo, a gente brinca. Mas primeiro você tem que comer tudo. — respondo, fingindo dureza, mas já derretido por dentro. Ele faz birra, cruza os braços, mas logo ri. Pedro é a minha fraqueza, mas também a minha força. É por ele que eu acordo e não caio. É por ele que ainda tenho algum pedaço de humanidade dentro de mim. A mãe dele? Nunca mais vi. Nunca fez falta. Eu sou o pai e a mãe. Eu ensino, eu protejo, eu coloco comida no prato, eu pago médico particular pra vir até aqui em cima sempre que precisa. Ele nunca vai sentir abandono, não enquanto eu estiver vivo. O problema é que Pedro anda doente. Uma febre que não passa, um cansaço que não combina com criança da idade dele. Já trouxe médico, já paguei consulta caríssima, mas nada ainda resolveu. E eu não posso descer com ele pro asfalto, não posso me expor. Se descer, viro alvo. Então eu trago os médicos até aqui. Pago caro pra manter meu filho vivo. Pago o que for. Eu sou Gustavo, o traficante, o chefe, o dono do morro. Mas quando Pedro segura minha mão e me chama de pai… aí eu sou só um homem tentando ser tudo o que meu filho precisa.
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