📖 Capítulo 1 – Apresentação
Narrado por Helena
Oi… meu nome é Helena. Tenho vinte e cinco anos e, depois de seis anos de muito esforço, acabei de me formar em medicina.
Moro com minha mãe, Marta, em um bairro nobre do Rio de Janeiro. Pelo menos por enquanto. Porque nada aqui realmente parece meu, sabe? As ruas largas, os carros importados, as casas enormes com portões dourados… tudo isso sempre me pareceu uma prisão de luxo.
— Helena, você não vai tomar café? — escuto a voz da minha mãe vindo da cozinha.
Levanto os olhos do espelho. Meus cabelos pretos, lisos, caem escorridos até a cintura. Eu passo os dedos neles, tentando controlar o nervosismo que insiste em se instalar toda vez que penso no futuro. Visto a calça jeans, a blusa branca e prendo a bolsa no ombro.
— Já tô indo, mãe. — respondo, tentando sorrir.
Minha mãe sempre foi meu alicerce. Forte, mesmo quando tudo ao redor parecia ruir. Cresci vendo ela segurar o choro, engolir a dor e ainda assim me proteger do homem que deveria ser meu herói, mas que se tornou meu maior medo: meu pai.
Ele sempre nos deu tudo. Colégios particulares, viagens, roupas caras… menos carinho. O que ele nos dava em excesso era violência. Batiam nele como quem descarrega a própria frustração. E, em mim, o que ele roubou não foram só sorrisos da infância. Foram pedaços de quem eu deveria ser.
— Helena… — minha mãe aparece na porta, me olhando com ternura. — Você não precisa ficar revivendo isso, filha.
Eu respiro fundo, engolindo a memória como quem engole veneno.
— Eu sei, mãe. Mas é impossível esquecer.
Sento à mesa. O cheiro do café fresco se mistura ao silêncio pesado que sempre paira quando lembramos do passado. Tento afastar os pensamentos e mudo de assunto:
— Hoje é meu primeiro dia no posto, você acredita? Finalmente vou trabalhar de verdade.
Minha mãe sorri.
— Eu acredito, sim. Sempre acreditei em você. Só que ainda me pergunto se fez a escolha certa… ir para aquele lugar tão perigoso.
Eu seguro a mão dela.
— Mãe, a gente já viveu perigo dentro de casa. Nada vai ser pior do que aquilo. Lá eu vou estar ajudando pessoas de verdade, não só vivendo de aparência.
Ela assente, mas sei que o medo não desaparece.
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Meu dia começa cedo. Costumava acordar às seis da manhã para ir à faculdade, agora vou continuar acordando cedo para encarar uma nova rotina. Só que, desta vez, não será em salas climatizadas ou corredores cheios de jovens de classe alta. Agora meu destino é o morro.
Ainda moramos aqui, nesse bairro de luxo, mas não por muito tempo. Eu e minha mãe já temos um plano. Fiz uma poupança durante toda a faculdade, guardando cada centavo de plantões e estágios. O suficiente para comprar uma casa simples, em um lugar onde ele — meu pai — jamais pensaria em nos procurar: a favela.
Parece loucura? Talvez. Mas, para nós, é liberdade.
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Antes de sair, escuto a voz dele ecoando na minha mente.
“Você nunca vai ser ninguém sem mim, Helena.”
Engulo seco e fecho a porta.
Hoje, pela primeira vez, sinto que estou provando o contrário.