Prólogo
Ricardo Medeiros
Não poderia permitir que Victória terminasse presa. Fui um idiotä, quando, por um segundo, hesitei em acreditar em sua total inocência. Se ainda fosse eu, o advogado a defendê-la, me sentiria mais seguro, pois daria tudo naquele tribunal para que a verdade fosse soberana.
Monique, decerto, pegaria pesado. Sua dor de cotovelo e o orgulho extremamente ferido, jamais deixariam que o senso de justiça prevalecesse, em seu ser. Ela se voluntariou a assistente da promotoria, justamente para tentar acabar com qualquer chance de a Victória ser inocentada.
Na mochila de couro, preto-fosco, como a jaqueta que eu usava, pus apenas algumas peças de roupas e meu passaporte. Assim que montei na Kawasaki Z1, sabia que seria um caminho sem volta. Minha carreira iria por “água abaixo”. Nada disso me importava, diante da mínima possibilidade que Victória sofresse, pagando por um crime no qual não teve culpa.
Eu fugiria com ela, deixando toda uma vida para trás. No entanto, essa tal vida me foi impulsionada, nunca a escolhi. Ficar com o amor da minha vida, sim, era a minha escolha. A moto cortou o trilho do bondinho. Focado e disperso ao mesmo tempo, não olhei para ver se vinha algum em minha direção. Ao menos, no momento em que passei, não havia nenhum. Avistei a sede do fórum lavradio e, foi naquele instante, que o motor da Z1 foi posto em potência máxima.
O segurança mäl pôde acreditar no que seus olhos viam, só lhe restou pular para o lado, se jogando no chão, ao me ver entrar com a moto de uma só vez, com os pneus deslizando no chão verde e devidamente encerado do fórum. Conhecia aquele lugar como se fosse a casa onde nasci. Fui direto para sala criminal. Sem descer da moto, entrei, fazendo com que as portas de madeira se abrissem e uma parte dela se quebrasse. Victória chorava, de pé, com certeza havia recebido a pior sentença de sua vida.
Segui o corredor que dava de frente para a mesa do juiz e as armas já estavam apontadas para mim. Os demais, jogados ao chão. Sob os olhares julgadores dos que ali assistiam o julgamento, virei a moto, expondo a garupa para que ela subisse. Sem pensar duas vezes, Vitória o fez. Saí pelo lado oposto ao que entrei, cometendo um crime, que mancharia para sempre o nome da minha família. Não antes de ouvir os gritos de Monique, com seus gritos histéricos e ameaças de puro ódio, voltados para nós.
(...)
Enquanto eu corria para fora da cidade, Victória não parava de se agarrar às minhas costas, me fazendo sentir seu perdão e amor, cada vez que a mulher da minha vida, repousava a cabeça em minha coluna. Era como se, ali, ela se sentisse segura e nada a pudesse atingir.
Eu tinha que dar uma parada, eram muitas horas pilotando sobre duas rodas.
Queria afastá-la do perigo iminente o mais rápido possível.
Do alto da rodovia federal, dava para ver uma pequena cidade, logo saí da estrada e a adentrei. Precisávamos de água, usar um banheiro e talvez comer alguma coisa. Não foi necessário andar muito, para que encontrássemos um pequeno centro comercial, onde tinha de tudo um pouco.
Victória desceu da garupa, seus olhos se banharam em lágrimas. Assim que encontraram os meus, fui compelido pelo mesmo sentimento que ela, instantaneamente.
— Amor, me perdoa! — segurei seu rosto, o emoldurando com minhas mãos — Não deveria ter desconfiado do seu caráter em nenhum segundo.
— Shiii! Tudo bem, esquece. Tudo ficou para trás. Existe uma nova vida nos esperando agora. Quando voltarmos…
— Não, Victória! Jamais poderemos voltar! — ela eriçou as sobrancelhas — Infelizmente, até nossos nomes não poderão ser mais os mesmos.
— Ricardo, eu…
— Eu sei — a interrompi — Você merecia coisa melhor, não posso permitir que a mulher da minha vida, pague por um crime que não cometeu.
— Ricardo, quer me ouvir? — agora era Victória quem emoldurava meu rosto com suas pequenas e delicadas mãos — Não devo nada à justiça. Fui absolvida, não há nada que nos impeça de ser feliz. Daqui para a frente, não haverá nada de secreto entre nós. Finalmente, poderemos viver nosso amor em toda sua plenitude e desejo.