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906 Words
O inverno em Madrid tinha uma crueza que parecia penetrar até os ossos, mas dentro do La Luna, o ar era denso com o cheiro de café expresso e o burburinho dos clientes que buscavam abrigo contra o vento cortante. Juan polia o balcão com uma força desnecessária, seus olhos voltando-se, a cada minuto, para a tela do celular que repousava ao lado do caixa. Nenhuma notificação. Nenhuma resposta. O silêncio que vinha de Mosqueiro era um peso que ele não sabia como carregar. ​— ¡Madre mía, Juan! Se você continuar esfregando esse balcão, vai acabar chegando na madeira bruta — a voz de Elena cortou o transe dele. ​Elena estava sentada em um dos bancos altos, girando uma taça de vinho tinto. Ela observava o irmão há mais de uma hora, incomodada com a apatia dele. ​— O que você quer, Elena? Se veio para reclamar da vida, escolheu o dia errado — Juan respondeu, sem olhar para ela. ​— ¡Qué borde eres! — ela bufou, revirando os olhos. — Só estou dizendo que você parece um zombie. Olhe para aquela loira no canto, está te dando mole há vinte minutos e você nem pisca. O que deu em você ultimamente? ​Juan sequer olhou na direção indicada. — Só estou cansado. Muita coisa para organizar no bar. ​— Sei... — Elena tomou um gole de vinho, o tom de voz tornando-se amargo e fútil ao mergulhar nos próprios pensamentos. — Eu é que deveria estar assim, de mau humor. Sabe, às vezes sinto falta daquela estátua de gelo. A Mariana era um muro, sempre distante... Mas, Dios, na cama... na cama aquele gelo derretia de um jeito que eu nunca vi. Era fogo puro, Juan. Um fogo que me consumia. É isso que me dói: perder aquela intensidade agora que ela sumiu no mapa. ​Juan sentiu o estômago revirar. Ouvir a irmã descrever Mariana daquela forma — como se a profundidade e o trauma dela fossem apenas um tempero para o prazer de Elena — o deixava com o sangue quente. Para Elena, Mariana era um desafio s****l. Para ele, Mariana era uma alma frágil que gritava por socorro através do silêncio. ​— Dá para você parar? — Juan disparou, a voz saindo grossa. — É nojento ouvir você falar dela assim depois do que você fez no jardim da casa dos nossos pais. ​Elena deu de ombros, com um desdém que fez as mãos de Juan tremerem sobre o pano. — Foi um erro de momento, Juan. Eu estava carente. A Mariana não me dava atenção e aquela mulher estava lá, disponível... foi só uma distração. Nada que justificasse ela ter agido como se eu fosse um nada. ​— Um "nada"? — Juan sibilou, inclinando-se sobre o balcão. — Você não tem noção do estrago que causou. Ver você daquele jeito, com a cabeça entre as pernas de outra mulher... ​— Pois é, e ela nem sequer abriu a boca! — Elena o interrompeu, a voz carregada de uma indignação cínica. — Qualquer pessoa normal teria gritado, feito um escândalo, jogado algo na minha cabeça. Mas ela? Ela simplesmente olhou, deu meia volta e foi embora sem dizer uma única palavra. Nem uma lágrima, Juan. Aquela mulher não tem coração, é pura pedra. Ela me deixou ali falando sozinha como se eu fosse um fantasma. ​Juan sentiu uma pontada de dor por Mariana. Ele sabia que aquele "gelo" não era falta de sentimento, mas um mecanismo de defesa de quem já foi destruído demais. — Talvez ela só quisesse preservar o resto de dignidade que você não teve o trabalho de respeitar, Elena. Você a traiu porque é fraca. Não use o silêncio dela como desculpa para a sua falta de caráter. ​— ¡Cállate! — Elena se levantou, a voz subindo. — Você fala como se ela fosse uma santa. Se ela tivesse coração, teria ficado e brigado por nós, em vez de simplesmente virar as costas e sumir para o outro lado do oceano. ​Juan não respondeu. A imagem voltou com uma força avassaladora: Mariana parada na porta que dava para o jardim. Ele lembrava da expressão dela — a palidez súbita, o choque paralisante sendo engolido por uma máscara de indiferença absoluta. Ele viu quando ela girou nos calcanhares e caminhou para longe, os ombros rígidos, sem olhar para trás nem uma única vez. Naquele segundo, Juan percebeu que o silêncio dela era o grito mais alto que ele já tinha ouvido. ​— Só vai embora, Elena — ele disse, voltando-se para as garrafas, a mão tremendo levemente. ​Ela saiu batendo a porta. Juan pegou o celular. O Madrid lá fora estava cinza, mas sua mente estava a milhares de quilômetros dali. ​Juan: "Só preciso saber se você ainda está respirando aí, Mari. O Madrid está cinza sem as suas patadas. Me dá um sinal." ​Ele enviou, sabendo que as chances de resposta eram mínimas, mas sentindo que, enquanto ele escrevesse, ela ainda teria um fio ligando-a a alguém que a via de verdade, para além da estátua que ela fingia ser. O silêncio dela o estava destruindo pouco a pouco. Tentava fingir que não sabia o porque, tentava não enganar seu coração sabendo que a amiga em questão jamais olharia para ele como um homem, e sim, como um estorvo.
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