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924 Words
O amanhecer em Mosqueiro foi anunciado pelo grito estridente de um pássaro na mata, um som que costumava ser o prelúdio da paz, mas que para Mariana foi como o estalo de um chicote. Ela despertou em um sobressalto, o corpo banhado em um suor frio que fazia os lençóis de algodão grudarem em sua pele. O coração martelava contra as costelas, um tambor frenético que ecoava o ritmo de um sonho que começara como um refúgio em Madrid e terminara como um abismo no Pará. ​O sonho com Juan ainda estava vívido. Nele, Mariana se permitira, pela primeira vez em anos, sentir curiosidade. A curiosidade de ser tocada por mãos grandes que não buscavam ferir. Entre os lençóis, na penumbra do quarto, ela tentou prolongar aquela sensação, explorando o próprio corpo com a segurança de quem conhece o prazer, mas a mente buscava o elemento masculino que ela sempre renegou. ​Mas, no limiar da entrega, o santuário desmoronou. ​A imagem de Juan foi subitamente distorcida por uma névoa fétida. O calor do sonho tornou-se o bafo quente e ácido de álcool barato; o toque imaginário transformou-se no peso esmagador de mãos imundas. Mariana travou. O prazer transformou-se em náusea instantânea. O cheiro de cigarro de quinta categoria, suor acumulado e cachaça impregnou o ar, infiltrando-se em suas narinas como se o "verme" estivesse ali, materializado na escuridão. ​— MARIA! MARIA, POR FAVOR! — o grito rasgou o silêncio da manhã, um som visceral, de uma criança que acabara de perceber que o monstro estava de volta. ​Na suíte principal, o som atravessou as paredes. Maria, Júlio e Valério despertaram em um choque absoluto e correram pelo corredor. Quando os gêmeos invadiram o quarto, Mariana entrou em um estado de dissociação. Ver os vultos masculinos na porta foi como ver o trauma multiplicado. ​— SAIAM! SAIAM DAQUI! — ela berrava, encolhida contra a cabeceira, puxando o edredom com mãos que não paravam de tremer. — Nojentos! Vocês são tão nojentos quanto ele! Não encostem em mim! ​Valério e Júlio estancaram, atingidos pela agressividade daquela dor. Maria, com as lágrimas já correndo, empurrou os maridos para fora. ​— Saiam, por favor — ela ordenou. — Deixem-na comigo. Agora! ​Assim que a porta se fechou, Maria subiu na cama e envolveu a irmã em um abraço de ferro. Mariana resistiu no início, o corpo rígido como mármore, mas o calor familiar da irmã começou a perfurar o pânico. ​— Eu estou aqui, Mari. Ele morreu, ele não pode mais te tocar. Respira comigo... — Maria sussurrava, ninando-a. ​Mariana desabou no ombro da irmã, o corpo sacudindo em soluços violentos. ​— Ele estava aqui, Maria... o cheiro de álcool, o suor... ele tocou em mim de novo — Mariana soluçava, a voz sumindo. — Me perdoa... me perdoa por ser fraca. Eu sempre tive tanto medo dele, Maria. Eu me escondia, eu tentava ser invisível para ele não me ver... eu via o que ele fazia com você e eu só queria desaparecer. Mas ele me achou, Maria. Naquela noite... o cheiro dele... ele me tocou e eu não consegui te ajudar. Eu falhei com você porque eu só conseguia tremer. ​Maria sentiu uma facada no peito. Ela lembrou daquela noite. Maria, ainda uma menina, tentava ser o escudo, mas houve um momento em que a vigilância falhou. O monstro havia chegado a tocar em Mariana, a caçulinha que Maria jurara proteger daquele destino. O abuso só não fora mais profundo, mais definitivo, porque Maria acordara a tempo e, em um ato de desespero, o chamara, desviando a fúria e a luxúria dele para si mesma. Maria sofrera o pior para que Mariana não fosse completamente destruída, mas a marca do toque dele na pele da irmã nunca saíra. ​— Você não falhou, Mari. Você era uma criança — Maria disse, segurando o rosto da irmã. — Eu é que deveria ter te protegido melhor. Eu falhei com você, minha pequena. Eu deixei ele chegar perto. ​— Eu sinto falta do papai, Maria... — Mariana murmurou, a voz infantilizada. — Sinto falta do Camilo. Se ele estivesse aqui, ele expulsaria esses fantasmas. Ele era o único homem que não me dava nojo. Por que ele teve que ir? ​Maria fechou os olhos, deixando as próprias lágrimas caírem. Ela não julgou; no seu íntimo, ela também clamava por Camilo. Ele fora o único que soubera amar as duas com um respeito quase sagrado. Amara Maria como mulher e amara Mariana como a filha que ele nunca teve, protegendo-a de si mesma e dos seus medos. ​— Ele ainda está cuidando de você, Mari — Maria disse, apertando-a mais forte. — E eu estou aqui. Eu nunca mais vou deixar você enfrentar essas sombras sem mim. ​Ficaram ali, entrelaçadas, enquanto a fortaleza de gelo de Mariana se transformava em poças de lágrimas, e Maria entendia que sua missão de protegê-la estava longe de terminar. Ela segurou a irmã em seus braços, como se assim pudesse protegê-la dos fantasmas que parecia que nunca a deixariam de persegui-las. A culpa por ter permitido que a irmã passasse tanto tempo longe e sozinha com seus traumas a atingiram com força. Como pôde seguir em frente e ser feliz quando a sua irmãzinha ainda sentia as dores do passado com força? Seria ela egoísta por estar sendo feliz quando nitidamente a irmãzinha estava entrando em um colapso depois de anos fingindo que tudo estava bem?
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