Capítulo 1 — A menina de olhos de água
Aurora tinha sete anos quando o mundo dela desabou. A tragédia veio numa noite de chuva, daquelas que parecem nunca terminar, e levou os pais dela embora num acidente de estrada que a deixou órfã, sozinha e muda de dor. Ela passou meses num abrigo em Recife, uma menina de pele clara, cabelos pretos longos e ondulados e olhos verdes como a água do mar, que não falava com ninguém, apenas observava o mundo como quem espera que ele também desabe.
Foi ali que Helena Almeida a encontrou. Helena, uma brasileira que vivia na Inglaterra com o marido Marcos e o filho Rafael, de nove anos, tinha ido ao Brasil em busca de uma criança para adotar. Quando viu Aurora, sentada num canto com um vestido de vidro no colo e aquele olhar de água parada, sentiu que o coração dela se partia e se remendava ao mesmo tempo.
"Você vai vir comigo, fadinha", disse Helena, sem saber de onde tinha tirado o apelido.
Aurora não foi um dia fácil para a família. Rafael, o filho mais velho, era um menino cheio de energia, apaixonado por futebol, que passava o dia chutando bola no jardim e sonhando em ser jogador. Ele não entendeu por que os pais trouxeram uma menina estranha, que não sorria, que roubava a atenção de todos. Nos primeiros meses, ele a tratava com desdém, escondia os brinquedos dela, e a chamava de "a intrusa" quando os pais não estavam por perto.
Aurora, por sua vez, não reagia. Apenas se fechava ainda mais, como um caracol que se esconde na concha.
Foi num dia de inverno que tudo mudou. Rafael voltou da escola machucado, com o joelho ralado e o orgulho ferido por ter perdido um jogo importante. Ele se sentou no degrau da varanda, chorando baixinho, e Aurora, que passava por ali, parou. Sem dizer nada, sentou-se ao lado dele, tirou do bolso um curativo que carregava sempre consigo e colou no joelho dele com um gesto delicado.
"Fadinha", ele murmurou, olhando para ela.
Ela não respondeu, mas pela primeira vez, sorriu.
E foi assim que, a partir de um pequeno curativo, nasceu uma amizade que se tornaria o laço mais forte da vida dos dois. Rafael passou a protegê-la, a defendê-la na escola, a levá-la para ver os treinos dele. Aurora, por sua vez, tornou-se sua maior torcedora, a que conhecia cada jogada, cada gol, cada sonho. Ele a chamava de fadinha, e só ele podia chamá-la assim.