Impressões
A modesta cidade de Porstmouth, conhecida por sua pacificidade, foi surpreendida no último ano por uma onda de assassinatos em série. Assustado com a revolta da população e preocupado com a própria segurança, o inspetor da polícia local, Billy Nortgen, pediu hoje ajuda do FBI para solucionar os casos sem respostas. — Andy Barton, repórter da ABN.
— Inspetor, eles localizaram a garota — disse Johnny Curtis.
Fazia quase uma semana, desde que Kimberly desapareceu. A última vez, ela foi vista por sua vizinha, descendo de patins a rua de baixo, seu pequeno ritual particular de toda quinta-feira, pós-balé. Apesar do interesse público, o caso passaria despercebido pela polícia, se Kimberly não fosse filha de uma mulher muito importante na região, a promotora de eventos, Lucy Cleimber.
Quando Kimberly foi encontrada dentro de um galpão abandonado, a cidade teve medo, pois era um aviso de que outras pessoas também poderiam morrer daquela mesma forma horrenda. O corpo dela estava erguido pelos pés, preso por um gancho de carne e sem a cabeça. Mais tarde, sua cabeça foi desenterrada dentro da plantação de milho da fazenda da sra. Mesdra, a duzentos metros longe dali. Não restaram dúvidas; os olhos castanhos, os cabelos vermelhos e as cicatrizes eram de Kimberly Lancaster. A sra. Lucy acabou se suicidando alguns dias depois de receber a notícia.
— Sr. Curtis, o que estava escrito na carta não é mentira? — perguntou o inspetor Billy Nortgen.
— A agente Norman pode confirmar. — disse Sarah, interrompendo o amigo.
— Agente Norman? — Michael fez cara feia. — Quem é essa?
— Ellis Wallis Norman —, Sarah voltou a responder — ela vem do FBI.
Billy Nortgen exibia seus cabelos brancos, as rugas e a barriga saliente. Um homem mais próximo do final de sua vida, do que do começo dela. Diferente do chefe, Michael e Johnny eram novos e fortes, com os músculos saltando de suas roupas. Porém, nenhum deles, na verdade, nenhum policial de Rox era tão inteligente para resolver o mistério que assombrava a cidade.
Chamei Kimberly para fora da biblioteca e pedi que retirasse os livros de dentro do meu carro. Ela se apoiou nas cadeiras e eu tranquei as portas. Depois ela começou a gritar, então golpeei sua cabeça com um pé-de-c***a. Quando chegamos no galpão, arranquei seus órgãos. Os gatos comeram. Eles comeram todos, exceto o seu coração. Este está guardado em uma caixa. Se eu quisesse esconder tudo, eu esconderia, sem deixar pistas. Mas a polícia não vai me pegar. Eles não podem me pegar. E você, sra. Lucy, é uma mulher que merece saber a verdade.
Quinn Solo
Quinn Solo aparentemente matou outros três adolescentes no mesmo distrito, em um intervalo de um ano: Stacy Henker, uma modelo em ascensão. David Orson, um aluno do ensino fundamental da escola Vice. E Olivia Grace, a garçonete do restaurante Gales. Porém, foi somente a partir da confissão do assassino, direcionado a Lucy Cleimber, que o FBI começou a agir.
— Chame a agente Norman — ordenou o inspetor.
Michael rodou a maçaneta, abriu a porta e piscou para que eu entrasse. Pelo seu olhar, ele não percebeu que eu estava ouvindo atrás da escuta embaixo da mesa. Ser uma espiã vai além de ouvir conversas que não nos pertence. Eu era uma mulher querendo fazer o meu trabalho entre homens. Uma mulher que um dia também morou ali. E fazer trabalho de agente inclui investigar a polícia de vez em quando. Os policiais Michael, Clay, Johnny e principalmente Billy Nortgen eram suspeitos. Qualquer um deles poderia ser Quinn Solo, já que a polícia de Rox nunca chegou perto do assassino.
— Com licença — eu disse, entrando na sala. Antes de sentar na poltrona, fiz um breve aceno de mão e sorri.
— Essa é a agente Norman, ela trabalha para o departamento de inteligência do FBI — disse o inspetor Billy Nortgen — o paradeiro de Quinn Solo acabou tomando proporções federais. Por isso, a partir de hoje, vocês terão uma nova integrante.
— Ouvi dizer que a senhorita participou das investigações do 11 de setembro. É verdade? — perguntou Sarah, retoricamente.
— É verdade. Eu estive lá.
Muitos perguntam como descobri a localização dos terroristas ou se as suas carteiras estavam entaladas no vaso sanitário do aeroporto. Ainda questionam se posso ajudar a proteger Portsmouth. Eu também não sei. Mas eu sei que os treinamentos, as noites em que estive no campo inimigo, tudo teve um propósito. Eles me degolariam e costurariam a minha boca, se me pegassem escondida, assim como o talibã pegou Allan e colocou sua cabeça dentro de uma frigideira cheia de óleo quente. Ele morreu agonizando, enquanto eu corria para ultrapassar a cerca de arame farpado, ouvindo sua aguda voz sumindo vagarosamente.
— Srta. Norman, existe um homem rondando os perímetros de Virgínia. Cheriton, Charlotte, Portsmouth, Winchester... um homem que esquarteja pessoas, cujo rosto não conhecemos — disse o sr. Nortgen.
— O senhor sabe se é o assassino é um homem? — Perguntei.
— Os comentários do povo dizem que é um homem — ele rebateu.
— Sr. Nortgen, os comentários do povo não são a polícia.
Lucy desconfiava que sua filha estava namorando. Talvez ela soubesse quem era Quinn Solo, mas levou para o túmulo tal segredo, assim como as demais vítimas levaram. Talvez Quinn Solo fosse um homem, mas os primeiros indícios apontavam para uma mulher. Eu fiz a biografia de Kimberly e investiguei seus amigos. Ela se envolveu e demonstrou pouco interesses afetivos por homens. Além do mais, todos os seus relacionamentos anteriores foram com mulheres.
Eles o apelidaram de demônio das flores vermelhas, porque elas estavam cobertas de tulipas vermelhas quando foram desenterradas. Ainda há muitas garotas desaparecidas, e algumas jamais terão seus corpos encontrados. Digo com pesar, mas sei que é a mais absoluta verdade. Collie não se engana. O faro dele é muito bom. Ele acharia alguma coisa, se tivessem coisas para achar. O medo toma conta das ruas agora. As aulas dos colégios foram suspensas. Todo mundo tem medo de andar por aqui. Houve toque de recolher. As crianças já não podem atravessar a ponte, não ainda. Mas Quinn Solo, seja lá quem for você, eu vou encontrá-lo.
— Mesdra recebeu a notificação da polícia — disse Michael. — E mesmo assim não consegue explicar como a cabeça de uma menina esteve enterrada tanto tempo em suas plantações.
— Srta. Norman, quero que interrogue essa mulher — ordenou o inspetor Nortgen — e investigue o filho dela também. Esse vai ser o seu primeiro trabalho aqui.
Mesdra Curie foi uma espécie de conselheira da minha mãe, há muito tempo, e minha madrinha. Um verão antes de setembro de 2001, eu me diverti em sua fazenda, tomando conta de seu único filho, brincando com suas raposas. Max era uma boa criança de seis anos naquela época. Eu sei, pois minha irmã Sophia também tinha seis anos. Mas, diferente dele, ela agarrava minha blusa e chorava. Jogava areia em meus olhos e cortava meus cabelos. Max não. Max era um bom e ingênuo menino.
— Ellis, posso brincar? — dizia ele.
— Só às seis.
— Ellis, as raposas estão comendo os ovos.
— Malditas sejam!
— Ellis, você corta meu cabelo hoje?
— Hoje não.
Ele se parecia com a mãe, uma mulher de cabelos escuros, de grandes olhos negros e pele bronzeada. Ouvi dizer que o pai do garoto morreu para uma uma trupe de ciganos.
Porém, doze anos depois, Max não era mais o garoto que eu colocava no colo e mexia em seus cabelos, que desarrumava sua franja e espantava as raposas. Doze anos depois, ele era o principal suspeito de ser Quinn Solo. E foi a primeira pessoa que vi ao entrar na fazenda, deitado na sombra dos milharais. Não mudou tanto, exceto pela altura e pela barba por fazer.
— A sra. Mesdra está? — Perguntei a ele.
— Minha mãe foi pra colheita. — Max sorriu.
— Que horas posso vê-la?
— Às quatro. Espere, se quiser.
Ele se lembra de mim. Seu sorriso parece sincero. Max tem alguma chance de ser o assassino? Suas mãos enterraram a cabeça de Kimberly onde pisa nesse momento?
— Eu sei por que veio — disse ele, depois de um longo minuto em silêncio. — A minha mãe me contou que você entrou para o FBI. Ela me fala muito de você, Ellis.
— A sua mãe é uma ótima pessoa. Mas aconteceram coisas estranhas nesses últimos dias que precisam de respostas. Diga a ela que estarei aqui amanhã, para conversarmos — entrei na picape e fui embora. — Tenha um ótimo dia.
Eu precisava de tempo até que todas as mudanças fossem feitas, principalmente a burocracia do aluguel do apartamento e a troca dos móveis.
Os relatórios não demoraram a ser entregues. Foram encontradas nas necrópsias dos cadáveres mais preservados, sinais de violência s****l. A causa mortis das meninas se deu por asfixia, através de estrangulamento, e o menino, David, por afogamento. Os exames estomacais deduziram que todos eles morreram por volta do mesmo dia da semana e da mesma hora, perto do entardecer. A evisceração dos órgãos que não foram dissecados, foi autorizada pelas famílias das vítimas, com reluto. Não havia digitais nas ferramentas deixadas submersas na areia, ou gotas de sangue do criminoso. Seis dias após a morte de Kimberly, a atendente da biblioteca onde a garota frequentou pela última vez, Rebecca Chari, também morreu.
Setembro foi caloroso. Sarah me mostrou novos pontos turísticos da cidade e me recomendou um bom veterinário para cães, quando Collie ficou doente. Nós duas éramos o mais perto do que se pode chamar de amigas. Clay finalmente admitiu a Johnny que estava gostando de alguém, depois de sair cinco vezes com a mesma garota. E Michael, ele tinha seus bons momentos de humor. Minha intuição estava certa, nenhum deles era Quinn Solo.
Diferente de setembro, outubro não foi um bom mês. Houve protestos em frente a delegacia. Os moradores desejavam respostas para os casos sem soluções. Casos esses atribuídos a mesma pessoa. Por um momento, era como se aquele pedaço de mundo tivesse se resumido ao demônio das rosas vermelhas.
— Minha filha! Minha filha! — disse Beth Noan. — Cadê Alice?
Beth esteve presa por algumas horas, depois de agredir Michael. Ela superou a tristeza e incompreensão, mas não a raiva. Pior do que saber que a filha está morta, é saber que ela pode estar morta e nunca vai ser enterrada. Alice se foi antes de Kimberly para nunca mais voltar.
— Minha filha! Cadê minha filha?
— Acalmem essa mulher, por favor! — pediu o sr. Billy Nortgen.
Quando a cela foi aberta, entrei para vê-la. Seus olhos eram bonitos, mas tristes. Os outros policiais ficaram fora da grade, com suas armas apontando em nossa direção.
Sra. Beth, o seu rosto lembra minha mãe. E a minha mãe lembra o meu passado. Quando criança, eu vi muitas coisas que não queria ver. O meu pai era um péssimo homem capaz de mudar todo o ambiente de casa. Seu cheiro ainda me enoja. Um dia escutei gritos de mamãe e vi seus olhos vermelhos. Perguntei o que aconteceu. Ela não me respondeu, apenas pediu que eu tomasse conta de Sophia, porque precisava resolver coisas importantes. A minha mãe conseguiu um novo emprego, uma nova vida em outro lugar, mas em seu rosto ainda vejo cicatrizes. Sra. Beth, olhe o seu rosto também. Ele possui cicatrizes. São diferentes, mas dolorosas do mesmo jeito. Lá no fundo, a senhora sabe o que aconteceu com Alice, mas é preciso seguir em frente.
— Sra. Beth, sou a agente Norman, do FBI — falei. — Precisamos conversar.
— Conversas não vão trazer a minha filha! — ela respondeu.
— Estou investigando o caso de Alice pessoalmente. Nós vamos encontrá-la.
— Encontrá-la morta, você quer dizer?
— Não diga isso.
A espiã esteve sobre a ponte, uma mulher ruiva e muito bonita. Ela me encarou de cima a baixo. Se parece com as outras que matei, mas não há fraqueza em seus olhos, nem medo.
Quinn Solo