Jácare Narrando
Depois de um dia infernal, a única coisa que queria era tomar uma ducha e esquecer o peso de tudo. Entrei no banheiro do barraco, abri o chuveiro, e deixei a água cair na cabeça enquanto pensava no que tinha acontecido. O moleque tinha ido embora, e eu sabia que era o certo pra ele. Mas, p***a, não conseguia tirar da cabeça a expressão dele antes de sair.
Terminei o banho, enxuguei o rosto e me joguei na cama. O barulho lá fora continuava — moto passando, os mano rindo alto, uns tiros ao longe. Era o som da vida que eu escolhi. Mas naquele momento, tudo parecia mais vazio do que nunca.
Passei a mão no celular e abri o contato do Benjamim. Já fazia horas desde que ele tinha partido com os coroas. No fundo, eu sabia que devia deixar ele respirar, deixar ele ter o espaço que queria. Mas meu orgulho tinha tomado um soco, e mais do que isso, algo dentro de mim me dizia que eu precisava falar com ele.
Fiquei encarando a tela, o número dele aparecendo no topo. Tive dúvida por alguns segundos, mas o sentimento falou mais alto. Escrevi rápido, sem pensar muito, e apertei o botão de enviar.
“Moleque, tô te mandando isso porque preciso te pedir desculpas de novo. Sei que fiz merda, mas foi tentando proteger vocês. Queria trocar uma ideia contigo, explicar as coisas. A gente pode conversar?”
Mandei e fiquei olhando a tela, esperando a notificação que nunca vinha. Alguns minutos depois, vi que ele tinha visualizado. Meu coração até acelerou. Mas a resposta? Não veio.
Joguei o celular no colchão e encarei o teto do barraco. Na vida, eu aprendi a nunca esperar nada de ninguém. Mas, de alguma forma, com o moleque era diferente. Não sei bem por quê, mas achava que ele entenderia, que responderia.
Ficar no silêncio, sem saber o que ele tava pensando, era pior do que um tiro. Mas se tem uma coisa que aprendi, é que a gente não pode forçar as coisas. Por mais que me matasse por dentro, eu ia ter que esperar.
Passei a noite pensando na p***a dessa mensagem, me arrependendo ainda mais de ter deixado o moleque sair. Não que eu tivesse o direito de segurar ele aqui, mas talvez, se ele tivesse ficado, as coisas seriam diferentes. Mas agora era tarde, e a única coisa que eu podia fazer era esperar pra ver se um dia ele decidiria ouvir o que eu tinha a dizer.
Não preguei os olhos a noite inteira. Cada vez que fechava os olhos, via o olhar do Benjamim, aquela mistura de raiva, mágoa e... sei lá, algo que eu não sabia decifrar. Ficava revirando na cama, esperando o sono vir, mas nada. Parecia que quanto mais eu tentava, mais a cabeça rodava, cheia de pensamentos, arrependimentos e perguntas sem resposta.
Quando o dia começou a clarear, não aguentei mais ficar parado. Me levantei, peguei minha arma no armário e saí do barraco. O sol ainda tava nascendo, tingindo o céu de laranja e roxo. O som da favela já começava a ganhar vida — motos roncando, gente gritando na viela, música alta vindo de algum canto. Tudo de sempre, mas hoje parecia mais alto.
Desci pro movimento. Precisava fazer alguma coisa, qualquer coisa, pra tirar o moleque da cabeça. Chegando lá, dei de cara com Jaguatirica e os vapores. Ele tava vibrando, como sempre fazia depois de uma vitória. Tava no meio dos caras, rindo e comemorando com aquela energia dele, meio exagerada, mas genuína.
— c*****o, Jacaré, a gente botou os vermes pra correr ontem! — Ele gritou quando me viu. — O Pão de Açúcar agora é nosso!
Dei um aceno rápido, forçando um sorriso. Jaguatirica não percebeu meu estado, tava ocupado demais celebrando. Eu sabia que ele merecia. Querendo ou não, a vitória era grande. Eles invadiram o morro, e a gente não só segurou, mas tomou o comando pra gente. Isso não é pouca coisa.
— Deixa os cara comemorar. — Falei pra ele, passando direto e entrando na minha sala.
Fechei a porta atrás de mim e sentei na cadeira velha que tinha lá. Abri a gaveta, peguei um maço de cigarro e acendi um, soltando a fumaça devagar.
Era uma vitória, sim, e eu sabia que todo mundo ali tinha motivo pra comemorar. Mas, pra mim, só o gosto amargo da noite m*l dormida e das escolhas erradas continuava na boca. O que era um morro a mais no nosso comando, se, no fim, eu não conseguia tirar aquele moleque da cabeça?
A verdade é que, mesmo ganhando essa guerra, me sentia derrotado. Ficar aqui, cercado por dinheiro, poder e respeito, parecia cada vez mais vazio. Era a p***a da ironia de ser o Jacaré: conquistar tudo isso e, ainda assim, carregar uma falta que nem eu sabia explicar.
Passei a manhã inteira na boca, desenrolando as paradas. O pessoal tava em clima de festa, mas o trabalho não para. Tinha que organizar as equipes, alinhar as rotas, resolver o que ia ser feito com o morro do Pão de Açúcar agora que era nosso. Jaguatirica ficou me ajudando com os vapores, enquanto eu coordenava o restante.
Apesar de estar resolvendo tudo no automático, minha cabeça tava longe. Cada comando que eu dava, cada pessoa que passava por mim, era só mais um ruído, mais um pano de fundo pra algo que eu não conseguia tirar da mente. Eu olhava pros moleques rindo, pros manos comemorando, e tudo parecia distante.
Quando deu umas horas, subi pro barraco. Minha barriga já tava roncando, então fui direto pro fogão. Esquentei uma comida simples que tava na geladeira e me sentei à mesa, ainda meio perdido nos pensamentos. Entre uma garfada e outra, ouvi meu celular vibrar em cima da pia. Peguei o aparelho sem muita expectativa, já achando que era só mais alguma bronca pra resolver, mas travei quando vi o nome dele na tela.
"Beleza, Jacaré. Eu topo conversar. Mas é só conversa. Nada mais."
Fiquei olhando pra mensagem por uns segundos, sentindo um misto de alívio e surpresa. O moleque tinha respondido. Ele tava disposto a me ouvir, mesmo depois de tudo. Isso já era mais do que eu esperava.
Encostei as costas na cadeira e larguei o garfo no prato, respirando fundo. Não sabia como ele ia reagir nem o que ele esperava dessa conversa, mas sabia que não podia desperdiçar essa chance. Talvez fosse a última.
Peguei o celular de novo, apaguei umas três respostas antes de finalmente digitar algo que não soasse desesperado.
"Valeu, moleque. Fala a hora e o lugar, que eu apareço."
Mandei a mensagem e deixei o celular na mesa, encarando o prato pela metade. Tava com fome, mas o nó na barriga não deixava eu comer. Agora, era esperar. De novo. Só que dessa vez, com uma ponta de esperança que eu não sentia fazia tempo.