Capítulo 6

983 Words
Clara ainda estava parada no meio do café quando percebeu que o coração dela não estava apenas acelerado. Ele estava… descompassado. Como se tivesse perdido o ritmo certo. O pequeno caderno em suas mãos parecia mais pesado do que deveria. Como se carregasse algo além de papel e tinta. Ela olhou novamente para a capa. Henrique. Não era coincidência, não podia ser. A mesma caligrafia, o mesmo nome e a mesma sensação estranha que havia sentido ao conversar com ele. Clara levantou os olhos rapidamente e olhou para a porta do café. Nada. A rua estava movimentada, mas ele já não estava mais ali. — Não… — murmurou, quase sem voz. Sem pensar duas vezes, Clara segurou o caderno com firmeza e saiu do café. O sino na porta tocou atrás dela. O ar da rua estava mais frio agora, e o movimento parecia mais intenso. Pessoas passando, conversas, passos apressados. Mas Clara só tinha um objetivo naquele momento. Encontrá-lo. Seus olhos percorriam cada rosto. Cada esquina. Cada movimento. — Ele não pode ter ido tão longe… — sussurrou. Ela andou rapidamente pela calçada, olhando ao redor. Nada. Virou a esquina. Nada. Parou por um segundo, respirando fundo, tentando organizar os pensamentos. — Pensa, Clara… pensa. Ele estava sozinho. Sem pressa. Talvez não tivesse ido muito longe. Talvez estivesse em algum lugar próximo. Talvez… Ela olhou novamente para o caderno em suas mãos. Uma ideia surgiu. Clara voltou para dentro do café. A atendente olhou para ela, surpresa. — Esqueceu algo? Clara respirou fundo. — O homem que estava sentado naquela mesa… ele costuma vir aqui? A atendente pensou por um momento. — Às vezes. Clara sentiu uma pequena esperança. — Você sabe o nome dele? A atendente franziu levemente a testa. — Acho que… Henrique. O mundo de Clara pareceu parar por um segundo. Era ele. Não havia mais dúvida. Ela sentiu um arrepio percorrer o corpo inteiro. — Ele vem sempre no mesmo horário? A atendente assentiu. — Quase sempre no final da tarde. Clara apertou o caderno contra o peito. — Obrigada. Ela saiu novamente do café. Mas desta vez não correu. Parou na calçada. Respirou fundo. Tentou organizar tudo o que estava acontecendo. Ela havia encontrado a carta. Descoberto quem eram Sofia e Henrique. E agora… havia conhecido Henrique. Sem saber. Falado com ele. Sorrido para ele. Dividido uma mesa. E ele não fazia ideia de que ela estava com a carta. Clara fechou os olhos por um segundo. — Isso não pode ser real… Mas era. E agora ela tinha o caderno dele. Ela olhou para a capa mais uma vez. Depois, com cuidado, abriu. As primeiras páginas estavam preenchidas com uma caligrafia elegante e organizada. Textos. Reflexões. Pequenos trechos que pareciam pensamentos soltos. Clara começou a ler. "Há histórias que a gente guarda não porque quer esquecer, mas porque não sabe como continuar." Ela sentiu o peito apertar. Virou a página. "O silêncio também é uma resposta. Só que às vezes… é a resposta que mais dói." Clara respirou fundo. Aquilo não parecia apenas um caderno qualquer. Era… íntimo. Muito íntimo. Ela hesitou por um momento. Sabia que não deveria ler. Mas também sabia que já tinha ido longe demais para parar agora. Virou mais uma página. E então encontrou algo diferente. Um nome. Sofia. Clara sentiu o coração acelerar novamente. Começou a ler com mais atenção. "Hoje eu quase falei com você." "Quase." "Mas fiquei parado, observando você rir com seus amigos como se aquilo já fosse o suficiente para mim." "Talvez seja." Clara levou a mão ao peito. Aquilo era real. Era o Henrique. O mesmo da carta. O mesmo que estava sentado ao lado dela minutos atrás. E ele… ainda carregava aquilo. Ela virou mais páginas. Mais textos. Mais pensamentos. Mais sentimentos guardados. Até que encontrou algo que fez seu coração parar por um segundo. Uma data. Recente. Muito recente. Clara franziu a testa. E começou a ler. "Achei que com o tempo isso fosse desaparecer." "Mas não desapareceu." "Não da forma que eu imaginei." "Sofia seguiu a vida dela. Eu sei disso." "E eu também segui… pelo menos na superfície." "Mas tem coisas que não se resolvem com o tempo." "Só se escondem melhor." Clara sentiu um nó na garganta. Ele ainda pensava nela. Depois de tantos anos. Depois de tudo. Ela fechou o caderno por um momento. Respirou fundo. O mundo parecia diferente agora. Mais silencioso. Mais pesado. Mas também… mais claro. Aquela história não estava no passado. Ela ainda existia. Ainda vivia dentro dele. Clara olhou novamente para a rua. Agora com um olhar diferente. Ela não estava mais apenas curiosa. Ela estava… envolvida. De verdade. E pela primeira vez, uma pergunta surgiu com força dentro dela: Ela deveria devolver a carta? Ou… Ela deveria deixar as coisas como estavam? Clara apertou o caderno contra o peito. A resposta não era simples. Se entregasse a carta… Ela poderia mudar tudo. Mas também poderia abrir uma ferida que talvez nunca tivesse cicatrizado. Ela começou a caminhar lentamente. Sem direção. Pensando. Sentindo. Vivendo cada segundo daquele turbilhão de emoções. O céu já estava mais escuro agora. As luzes da rua começavam a acender. E Clara sabia de uma coisa com certeza: Ela voltaria ao café. No dia seguinte. No mesmo horário. E quando o visse novamente… Ela não poderia fingir que nada tinha acontecido. Mas também não sabia como dizer. Como explicar. Como devolver um pedaço do passado de alguém… sem quebrar algo no presente. Clara parou por um momento. Olhou para o caderno mais uma vez. E então tomou uma decisão. Não definitiva. Mas suficiente para o próximo passo. Ela iria voltar. E desta vez… Ela iria prestar atenção em cada detalhe. Porque agora sabia exatamente quem ele era. E talvez… Talvez aquela história não fosse apenas sobre Sofia e Henrique. Talvez, sem perceber… Clara já tivesse começado a fazer parte dela.
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