Capítulo 7

1351 Words
Clara chegou mais cedo do que o normal. Muito mais cedo. O relógio do celular marcava quase uma hora antes do horário em que a atendente do café havia dito que ele costumava aparecer. Mesmo assim, ela já estava lá, parada do outro lado da rua, observando o Café Horizonte como se aquele lugar guardasse todas as respostas que ela precisava. Talvez guardasse mesmo. Ela respirou fundo. O caderno estava dentro da bolsa. A carta também. Dois pedaços de uma história que não era dela… mas que agora parecia atravessá-la de uma forma impossível de ignorar. — Você só vai entrar — murmurou para si mesma. Mas não entrou imediatamente. Ficou ali por mais alguns segundos, organizando pensamentos que se recusavam a ficar organizados. Ela precisava agir com cuidado. Não podia simplesmente chegar e dizer: "Eu encontrei uma carta sua de anos atrás e sei tudo sobre você." Aquilo seria… absurdo. E invasivo. E, honestamente, um pouco assustador. Clara passou a mão pelo cabelo, tentando se acalmar. — Normal. Você precisa agir normal. Só que nada naquela situação era normal. Ela atravessou a rua. Empurrou a porta do café. O pequeno sino tocou novamente. O ambiente era o mesmo do dia anterior. Aconchegante. Quente. Familiar. Mas, para Clara, tudo parecia carregado de expectativa. Ela caminhou até o balcão. — Um cappuccino, por favor. A atendente sorriu. — Vai sentar no mesmo lugar de ontem? Clara hesitou por um segundo. — Sim. Pegou a xícara e caminhou até a mesa perto da estante. A mesma mesa. A mesma cadeira. O mesmo lugar onde ele tinha estado. Ela sentou-se. Colocou a bolsa sobre a mesa. E esperou. Os minutos passaram lentamente. Cada som parecia mais alto do que deveria. O tilintar de xícaras. O murmúrio de conversas. O leve virar de páginas de um livro em alguma mesa próxima. Clara tentou distrair-se. Abriu um livro qualquer da estante. Leu duas linhas. Não entendeu nenhuma. Seu olhar voltava repetidamente para a porta. Até que— O sino tocou. Clara levantou os olhos. E lá estava ele. Henrique. O mesmo passo tranquilo. O mesmo olhar atento, mas distante. Ele entrou como se aquele lugar fosse parte da rotina dele. Como se nada estivesse prestes a acontecer. Clara sentiu o coração disparar. Instintivamente, abaixou o olhar para o livro. Fingindo ler. Mas sem conseguir enxergar uma única palavra. Ela ouviu os passos dele se aproximando do balcão. Ouviu a voz baixa. Calma. — O de sempre. Clara fechou os olhos por um segundo. Aquilo era real. Ele estava ali. A poucos metros dela. Sem saber. Sem imaginar. Sem fazer ideia de que ela sabia quem ele era. Ela virou lentamente uma página do livro. Tentando manter a aparência de normalidade. Mas suas mãos estavam levemente trêmulas. Alguns segundos depois, ela ouviu passos novamente. Mais próximos. E então— — Posso sentar aqui de novo? Clara levantou o olhar. Como se estivesse surpresa. — Claro. Henrique puxou a cadeira e sentou-se. Colocou a xícara sobre a mesa. E por um instante, os olhos deles se encontraram. Clara desviou primeiro. — Você também costuma vir aqui? — perguntou ele, de forma casual. Clara assentiu. — Às vezes. Ela tentou manter o tom leve. Natural. — E você? Ele deu um pequeno sorriso. — Mais do que deveria. Clara soltou uma leve risada. — Parece um bom lugar para vir mais vezes. Henrique olhou ao redor. — É tranquilo. O silêncio caiu entre eles por alguns segundos. Não era desconfortável. Mas também não era tão leve quanto no dia anterior. Havia algo diferente. Algo que Clara sentia… e que talvez ele também estivesse começando a perceber. — E a carta? — perguntou ele de repente. Clara sentiu o coração falhar um instante. Mas manteve o rosto calmo. — Ainda estou com ela. Henrique assentiu lentamente. — Descobriu mais alguma coisa? Clara hesitou por uma fração de segundo. Tempo suficiente para que ele percebesse. Mas não respondeu imediatamente. — Um pouco. Henrique inclinou levemente a cabeça. — Um pouco? Clara deu de ombros. — Só que é difícil. Ela olhou para a xícara. — São muitos anos. Henrique observava cada detalhe. Cada pausa. Cada escolha de palavra. — E mesmo assim você continua tentando. Clara levantou os olhos. — Sim. Ele apoiou o braço na mesa. — Por quê? A pergunta veio simples. Mas carregada. Clara não respondeu imediatamente. Porque a verdade era complicada demais. Ela não estava mais fazendo aquilo só por curiosidade. Mas também não podia dizer isso. — Porque… — começou, escolhendo as palavras com cuidado — acho que algumas histórias merecem ser concluídas. Henrique ficou em silêncio. Observando. Como se estivesse analisando não só o que ela disse… mas como disse. — Mesmo quando não são suas? Clara sentiu o impacto da pergunta. Mas manteve a expressão neutra. — Às vezes principalmente quando não são. Henrique não respondeu. Mas algo em seu olhar mudou. Uma pequena mudança. Quase imperceptível. Mas Clara percebeu. Ela desviou o olhar. Pegou a xícara. Tomou um gole. Tentando ganhar tempo. — E você? — perguntou, tentando mudar o foco. — Gosta de histórias assim? Henrique não respondeu imediatamente. Seus olhos estavam nela. Fixos. Atentos. — Depende. Clara franziu levemente a testa. — Do quê? Ele respondeu com calma: — De quem está contando. O silêncio voltou. Mais denso desta vez. Clara sentiu um leve desconforto crescer dentro dela. Ele estava desconfiando. Não completamente. Mas o suficiente para perceber que havia algo que não encaixava. Ela precisava ter cuidado. Muito cuidado. — Você sempre faz perguntas assim? — tentou brincar, com um pequeno sorriso. Henrique inclinou levemente a cabeça. — Só quando as respostas parecem interessantes. Clara soltou uma leve risada. Mas por dentro, estava tensa. Muito mais do que queria demonstrar. Ela mudou de assunto. — E o seu livro? Ele olhou para o livro sobre a mesa. — Estou relendo. — Gosta de reler? — Às vezes. Ele fez uma pausa. — Algumas histórias mudam dependendo do momento em que você lê. Clara assentiu lentamente. — Isso é verdade. Ela pensou na carta. Pensou no caderno. Pensou em tudo o que sabia. — Algumas coisas só fazem sentido depois de muito tempo. Henrique a observou com atenção. — Você fala como se já tivesse vivido isso. Clara congelou por dentro. Mas não deixou transparecer. — Acho que todo mundo já viveu. Ele continuou olhando. Em silêncio. Por tempo demais. Até que Clara desviou o olhar novamente. Ela sabia. Sabia que ele estava percebendo. Que algo nela não era apenas curiosidade casual. E isso era perigoso. Muito perigoso. — Você sempre vem aqui no mesmo horário? — perguntou ela, tentando recuperar o controle. Henrique respondeu sem desviar o olhar: — Quase sempre. — Rotina? — Talvez. Ele fez uma pausa. — Ou hábito. Clara assentiu. — Faz sentido. Mas o clima já não era mais o mesmo. Havia tensão. Silenciosa. Sutil. Mas presente. Henrique apoiou as mãos na mesa. — E você? Clara olhou para ele. — Eu o quê? — Vai continuar vindo? A pergunta pareceu simples. Mas não era. Clara sentiu o peso dela. — Talvez. Ele assentiu. — Então acho que ainda vamos conversar mais. Clara forçou um pequeno sorriso. — Acho que sim. Mas por dentro, sabia que aquilo não seria simples. Porque cada conversa com ele… Aproximava ela de uma verdade que não podia esconder para sempre. E Henrique… Já estava começando a perceber. Ele terminou o café em silêncio. Levantou-se. — Até amanhã? Clara hesitou por um segundo. Mas respondeu: — Até. Ele pegou o livro. E saiu. O sino tocou novamente. Clara ficou parada. Olhando para a mesa. Para a xícara. Para o vazio que ele deixou. Seu coração ainda estava acelerado. Mas agora não era só por nervosismo. Era por algo mais. Mais profundo. Mais complicado. Ela abriu a bolsa. Tirou o caderno. Olhou para o nome na capa. Henrique. E pela primeira vez… Ela sentiu medo. Não de descobrir a verdade. Mas do momento em que não poderia mais escondê-la. Porque esse momento estava chegando. Mais rápido do que ela queria admitir.
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