Clara chegou mais cedo do que o normal.
Muito mais cedo.
O relógio do celular marcava quase uma hora antes do horário em que a atendente do café havia dito que ele costumava aparecer. Mesmo assim, ela já estava lá, parada do outro lado da rua, observando o Café Horizonte como se aquele lugar guardasse todas as respostas que ela precisava.
Talvez guardasse mesmo.
Ela respirou fundo.
O caderno estava dentro da bolsa.
A carta também.
Dois pedaços de uma história que não era dela… mas que agora parecia atravessá-la de uma forma impossível de ignorar.
— Você só vai entrar — murmurou para si mesma.
Mas não entrou imediatamente.
Ficou ali por mais alguns segundos, organizando pensamentos que se recusavam a ficar organizados.
Ela precisava agir com cuidado.
Não podia simplesmente chegar e dizer:
"Eu encontrei uma carta sua de anos atrás e sei tudo sobre você."
Aquilo seria… absurdo.
E invasivo.
E, honestamente, um pouco assustador.
Clara passou a mão pelo cabelo, tentando se acalmar.
— Normal. Você precisa agir normal.
Só que nada naquela situação era normal.
Ela atravessou a rua.
Empurrou a porta do café.
O pequeno sino tocou novamente.
O ambiente era o mesmo do dia anterior.
Aconchegante.
Quente.
Familiar.
Mas, para Clara, tudo parecia carregado de expectativa.
Ela caminhou até o balcão.
— Um cappuccino, por favor.
A atendente sorriu.
— Vai sentar no mesmo lugar de ontem?
Clara hesitou por um segundo.
— Sim.
Pegou a xícara e caminhou até a mesa perto da estante.
A mesma mesa.
A mesma cadeira.
O mesmo lugar onde ele tinha estado.
Ela sentou-se.
Colocou a bolsa sobre a mesa.
E esperou.
Os minutos passaram lentamente.
Cada som parecia mais alto do que deveria.
O tilintar de xícaras.
O murmúrio de conversas.
O leve virar de páginas de um livro em alguma mesa próxima.
Clara tentou distrair-se.
Abriu um livro qualquer da estante.
Leu duas linhas.
Não entendeu nenhuma.
Seu olhar voltava repetidamente para a porta.
Até que—
O sino tocou.
Clara levantou os olhos.
E lá estava ele.
Henrique.
O mesmo passo tranquilo.
O mesmo olhar atento, mas distante.
Ele entrou como se aquele lugar fosse parte da rotina dele.
Como se nada estivesse prestes a acontecer.
Clara sentiu o coração disparar.
Instintivamente, abaixou o olhar para o livro.
Fingindo ler.
Mas sem conseguir enxergar uma única palavra.
Ela ouviu os passos dele se aproximando do balcão.
Ouviu a voz baixa.
Calma.
— O de sempre.
Clara fechou os olhos por um segundo.
Aquilo era real.
Ele estava ali.
A poucos metros dela.
Sem saber.
Sem imaginar.
Sem fazer ideia de que ela sabia quem ele era.
Ela virou lentamente uma página do livro.
Tentando manter a aparência de normalidade.
Mas suas mãos estavam levemente trêmulas.
Alguns segundos depois, ela ouviu passos novamente.
Mais próximos.
E então—
— Posso sentar aqui de novo?
Clara levantou o olhar.
Como se estivesse surpresa.
— Claro.
Henrique puxou a cadeira e sentou-se.
Colocou a xícara sobre a mesa.
E por um instante, os olhos deles se encontraram.
Clara desviou primeiro.
— Você também costuma vir aqui? — perguntou ele, de forma casual.
Clara assentiu.
— Às vezes.
Ela tentou manter o tom leve.
Natural.
— E você?
Ele deu um pequeno sorriso.
— Mais do que deveria.
Clara soltou uma leve risada.
— Parece um bom lugar para vir mais vezes.
Henrique olhou ao redor.
— É tranquilo.
O silêncio caiu entre eles por alguns segundos.
Não era desconfortável.
Mas também não era tão leve quanto no dia anterior.
Havia algo diferente.
Algo que Clara sentia… e que talvez ele também estivesse começando a perceber.
— E a carta? — perguntou ele de repente.
Clara sentiu o coração falhar um instante.
Mas manteve o rosto calmo.
— Ainda estou com ela.
Henrique assentiu lentamente.
— Descobriu mais alguma coisa?
Clara hesitou por uma fração de segundo.
Tempo suficiente para que ele percebesse.
Mas não respondeu imediatamente.
— Um pouco.
Henrique inclinou levemente a cabeça.
— Um pouco?
Clara deu de ombros.
— Só que é difícil.
Ela olhou para a xícara.
— São muitos anos.
Henrique observava cada detalhe.
Cada pausa.
Cada escolha de palavra.
— E mesmo assim você continua tentando.
Clara levantou os olhos.
— Sim.
Ele apoiou o braço na mesa.
— Por quê?
A pergunta veio simples.
Mas carregada.
Clara não respondeu imediatamente.
Porque a verdade era complicada demais.
Ela não estava mais fazendo aquilo só por curiosidade.
Mas também não podia dizer isso.
— Porque… — começou, escolhendo as palavras com cuidado — acho que algumas histórias merecem ser concluídas.
Henrique ficou em silêncio.
Observando.
Como se estivesse analisando não só o que ela disse… mas como disse.
— Mesmo quando não são suas?
Clara sentiu o impacto da pergunta.
Mas manteve a expressão neutra.
— Às vezes principalmente quando não são.
Henrique não respondeu.
Mas algo em seu olhar mudou.
Uma pequena mudança.
Quase imperceptível.
Mas Clara percebeu.
Ela desviou o olhar.
Pegou a xícara.
Tomou um gole.
Tentando ganhar tempo.
— E você? — perguntou, tentando mudar o foco. — Gosta de histórias assim?
Henrique não respondeu imediatamente.
Seus olhos estavam nela.
Fixos.
Atentos.
— Depende.
Clara franziu levemente a testa.
— Do quê?
Ele respondeu com calma:
— De quem está contando.
O silêncio voltou.
Mais denso desta vez.
Clara sentiu um leve desconforto crescer dentro dela.
Ele estava desconfiando.
Não completamente.
Mas o suficiente para perceber que havia algo que não encaixava.
Ela precisava ter cuidado.
Muito cuidado.
— Você sempre faz perguntas assim? — tentou brincar, com um pequeno sorriso.
Henrique inclinou levemente a cabeça.
— Só quando as respostas parecem interessantes.
Clara soltou uma leve risada.
Mas por dentro, estava tensa.
Muito mais do que queria demonstrar.
Ela mudou de assunto.
— E o seu livro?
Ele olhou para o livro sobre a mesa.
— Estou relendo.
— Gosta de reler?
— Às vezes.
Ele fez uma pausa.
— Algumas histórias mudam dependendo do momento em que você lê.
Clara assentiu lentamente.
— Isso é verdade.
Ela pensou na carta.
Pensou no caderno.
Pensou em tudo o que sabia.
— Algumas coisas só fazem sentido depois de muito tempo.
Henrique a observou com atenção.
— Você fala como se já tivesse vivido isso.
Clara congelou por dentro.
Mas não deixou transparecer.
— Acho que todo mundo já viveu.
Ele continuou olhando.
Em silêncio.
Por tempo demais.
Até que Clara desviou o olhar novamente.
Ela sabia.
Sabia que ele estava percebendo.
Que algo nela não era apenas curiosidade casual.
E isso era perigoso.
Muito perigoso.
— Você sempre vem aqui no mesmo horário? — perguntou ela, tentando recuperar o controle.
Henrique respondeu sem desviar o olhar:
— Quase sempre.
— Rotina?
— Talvez.
Ele fez uma pausa.
— Ou hábito.
Clara assentiu.
— Faz sentido.
Mas o clima já não era mais o mesmo.
Havia tensão.
Silenciosa.
Sutil.
Mas presente.
Henrique apoiou as mãos na mesa.
— E você?
Clara olhou para ele.
— Eu o quê?
— Vai continuar vindo?
A pergunta pareceu simples.
Mas não era.
Clara sentiu o peso dela.
— Talvez.
Ele assentiu.
— Então acho que ainda vamos conversar mais.
Clara forçou um pequeno sorriso.
— Acho que sim.
Mas por dentro, sabia que aquilo não seria simples.
Porque cada conversa com ele…
Aproximava ela de uma verdade que não podia esconder para sempre.
E Henrique…
Já estava começando a perceber.
Ele terminou o café em silêncio.
Levantou-se.
— Até amanhã?
Clara hesitou por um segundo.
Mas respondeu:
— Até.
Ele pegou o livro.
E saiu.
O sino tocou novamente.
Clara ficou parada.
Olhando para a mesa.
Para a xícara.
Para o vazio que ele deixou.
Seu coração ainda estava acelerado.
Mas agora não era só por nervosismo.
Era por algo mais.
Mais profundo.
Mais complicado.
Ela abriu a bolsa.
Tirou o caderno.
Olhou para o nome na capa.
Henrique.
E pela primeira vez…
Ela sentiu medo.
Não de descobrir a verdade.
Mas do momento em que não poderia mais escondê-la.
Porque esse momento estava chegando.
Mais rápido do que ela queria admitir.