Luísa Narrando
Acordei com aquela sensação estranha de quando a gente não sabe se viveu uma coisa de verdade… ou se sonhou.
Fiquei olhando pro teto do meu quarto por alguns segundos, tentando organizar os pensamentos. O quarto ainda estava meio escuro, só um feixe de luz entrando pela fresta da cortina. Passei a mão no rosto devagar.
— Que noite doida… — murmurei.
A imagem da praia voltou na minha cabeça. O barulho do mar. A areia fria. O vento batendo no rosto.
E aquele cara.
O grandão tatuado.
Balancei a cabeça, tentando afastar aquilo.
— Foi só coisa da minha cabeça… — pensei comigo mesma, mas no fundo sabia que não era.
Virei o corpo devagar e puxei a cadeira de rodas que sempre deixo encostada ao lado da cama. Esse movimento já é automático na minha vida. Eu me apoiei no colchão, segurei na lateral da cadeira e fiz força com os braços.
Um movimento só.
Subi.
Quem olha de fora acha que é difícil. No começo era mesmo. Hoje… é rotina.
Ajeitei a almofada da cadeira e respirei fundo.
— Bora começar o dia.
Fui rodando até o banheiro. Aqui em casa tudo foi adaptado com o tempo. Nada de degraus. Só rampas suaves ligando um cômodo ao outro.
Meu pai sempre disse que casa boa é casa que não limita ninguém.
Entrei no banheiro e parei ao lado da cadeira de banho. Ela é mais leve, própria pra água. Fiz a transferência devagar, com cuidado, como sempre faço.
Nada disso me impede de viver.
A única coisa que eu realmente não faço… é ficar de pé.
Mas tirando isso?
Faço tudo.
Liguei o chuveiro e deixei a água esquentar antes de entrar. O vapor começou a subir pelo banheiro enquanto eu prendia o cabelo no alto da cabeça.
Meu cabelo é cacheado.
E quem tem cabelo cacheado sabe… lavar não é só lavar.
É quase um ritual.
Entrei no banho e deixei a água cair sobre mim por alguns segundos. Aquela sensação sempre me acalma. A água quente descendo pelas costas, o vapor envolvendo tudo, aquele momento onde o mundo lá fora simplesmente para de existir.
Comecei lavando o cabelo. Shampoo, massagem no couro cabeludo, enxágue. Depois máscara de hidratação.
Enquanto o creme agia, fiz o resto da higiene. Meu corpo inteiro já está acostumado com depilação a laser há anos, então isso nunca foi um problema.
Mas enquanto minhas mãos passavam o sabonete pela pele, minha mente… minha mente resolveu viajar.
A voz dele. Grossa. Firme. Diferente.
— Será que era ele mesmo? — pensei, os olhos fixos na parede de azulejos enquanto a água escorria. — Ou eu tô criando coisa onde não existe?
Balancei a cabeça, irritada comigo mesma.
— Para, Luísa. Foi um encontro de cinco minutos na areia. Nada além disso.
Terminei o banho e voltei pro cabelo. A parte mais demorada.
Desembaracei devagar, mecha por mecha. Depois apliquei o creme de pentear e comecei a fazer a fitagem. Separando os cachos com os dedos, paciência, cuidado.
Olhei o relógio do banheiro. Uma hora já tinha passado. Pra muita gente isso é exagero. Pra mim? É meu tempo.
Uma pessoa sem deficiência talvez faça tudo isso em quarenta minutos. Pra mim demora um pouco mais.
E tá tudo bem.
Quando terminei, usei o difusor pra dar uma secada leve nos cachos. Não completamente, só o suficiente pra não pingar.
Depois voltei pro quarto.
Escolhi um short jeans claro e uma blusa soltinha. Passei hidratante nas pernas, nos braços, no colo. Perfume leve.
Quando terminei de me vestir, respirei fundo.
Hora de trocar de cadeira.
A cadeira de banho fica parada no quarto enquanto eu puxo a outra, a do dia a dia, pra perto. Fiz o movimento com cuidado, segurando nas laterais.
Quase consegui.
— Espera aí, menina! — a voz da minha mãe apareceu na porta.
Olhei pra ela e ri.
— Mãe…
Ela entrou já rindo também.
— Deixa eu te ajudar antes que você invente moda.
— Eu já tava quase conseguindo.
— Eu sei, mas mãe serve pra quê?
Ela me ajudou na transferência e ajeitou a almofada da cadeira.
— Pronto.
— Obrigada.
— Agora vem. O café já tá na mesa.
Ela me empurrou até a cozinha, como sempre faz quando tá em casa. Eu consigo ir sozinha, mas às vezes ela gosta de participar das pequenas coisas.
Sentamos à mesa. Pão, queijo, frutas e café.
Peguei minha xícara enquanto ela me observava com aquele olhar de mãe investigadora.
Eu já sabia o que vinha.
— Então… — ela começou.
Lá vem.
— Como foi a praia ontem?
Mordi um pedaço do pão e fiz cara de paisagem.
— Foi normal.
— Normal como?
— Normal, mãe. Praia. Mar. Areia.
Ela estreitou os olhos.
— Só isso?
— Só.
Eu respondi o mínimo possível. Não porque tinha algo errado. Mas porque eu conheço minha mãe.
Se eu começasse a contar detalhes demais… ela podia começar a se preocupar. E a última coisa que eu queria era correr o risco dela querer me proibir de ir à praia.
Mesmo eu sendo maior de idade. O mundo já tem perigo demais. Mãe então…
— Não aconteceu nada diferente?
Balancei a cabeça.
— Não.
O telefone.
A ligação.
O cara. Guardei tudo só pra mim. Terminei o café e ela suspirou.
— Tá bom então.
Depois me empurrou até o jardim da frente da casa.
O sol da manhã já estava bonito, iluminando as plantas que ela cuida com tanto carinho.
Paramos perto das flores.
— Você parece pensativa — ela comentou.
Dei de ombros.
— Tô nada.
Mas na verdade eu tava sim. Porque o telefone estava na minha mão. O número desconhecido ainda estava lá na tela.
Eu já tinha olhado ele umas dez vezes desde que acordei. Passei o dedo pela tela devagar. O botão verde de ligar estava ali.
Toquei nele. Pare. Tirei o dedo.
— Que loucura… — murmurei.
Coloquei o dedo de novo. Parei. Respirei fundo. Depois encostei o celular no suporte da cadeira.
Fechei os olhos.
Ontem à noite eu tinha ficado sem entender nada quando o cara ficou mudo no telefone. Acabei desligando.
Talvez eu até tenha sido grossa.
Mas esse povo que liga só pra passar tempo também é demais. Depois ele ligou de novo.
E aí… Pelo tipo de voz… Uma lembrança me arrepiou.
Continua...