Capítulo 07 Luísa

1068 Words
Luísa Narrando Acordei com aquela sensação estranha de quando a gente não sabe se viveu uma coisa de verdade… ou se sonhou. Fiquei olhando pro teto do meu quarto por alguns segundos, tentando organizar os pensamentos. O quarto ainda estava meio escuro, só um feixe de luz entrando pela fresta da cortina. Passei a mão no rosto devagar. — Que noite doida… — murmurei. A imagem da praia voltou na minha cabeça. O barulho do mar. A areia fria. O vento batendo no rosto. E aquele cara. O grandão tatuado. Balancei a cabeça, tentando afastar aquilo. — Foi só coisa da minha cabeça… — pensei comigo mesma, mas no fundo sabia que não era. Virei o corpo devagar e puxei a cadeira de rodas que sempre deixo encostada ao lado da cama. Esse movimento já é automático na minha vida. Eu me apoiei no colchão, segurei na lateral da cadeira e fiz força com os braços. Um movimento só. Subi. Quem olha de fora acha que é difícil. No começo era mesmo. Hoje… é rotina. Ajeitei a almofada da cadeira e respirei fundo. — Bora começar o dia. Fui rodando até o banheiro. Aqui em casa tudo foi adaptado com o tempo. Nada de degraus. Só rampas suaves ligando um cômodo ao outro. Meu pai sempre disse que casa boa é casa que não limita ninguém. Entrei no banheiro e parei ao lado da cadeira de banho. Ela é mais leve, própria pra água. Fiz a transferência devagar, com cuidado, como sempre faço. Nada disso me impede de viver. A única coisa que eu realmente não faço… é ficar de pé. Mas tirando isso? Faço tudo. Liguei o chuveiro e deixei a água esquentar antes de entrar. O vapor começou a subir pelo banheiro enquanto eu prendia o cabelo no alto da cabeça. Meu cabelo é cacheado. E quem tem cabelo cacheado sabe… lavar não é só lavar. É quase um ritual. Entrei no banho e deixei a água cair sobre mim por alguns segundos. Aquela sensação sempre me acalma. A água quente descendo pelas costas, o vapor envolvendo tudo, aquele momento onde o mundo lá fora simplesmente para de existir. Comecei lavando o cabelo. Shampoo, massagem no couro cabeludo, enxágue. Depois máscara de hidratação. Enquanto o creme agia, fiz o resto da higiene. Meu corpo inteiro já está acostumado com depilação a laser há anos, então isso nunca foi um problema. Mas enquanto minhas mãos passavam o sabonete pela pele, minha mente… minha mente resolveu viajar. A voz dele. Grossa. Firme. Diferente. — Será que era ele mesmo? — pensei, os olhos fixos na parede de azulejos enquanto a água escorria. — Ou eu tô criando coisa onde não existe? Balancei a cabeça, irritada comigo mesma. — Para, Luísa. Foi um encontro de cinco minutos na areia. Nada além disso. Terminei o banho e voltei pro cabelo. A parte mais demorada. Desembaracei devagar, mecha por mecha. Depois apliquei o creme de pentear e comecei a fazer a fitagem. Separando os cachos com os dedos, paciência, cuidado. Olhei o relógio do banheiro. Uma hora já tinha passado. Pra muita gente isso é exagero. Pra mim? É meu tempo. Uma pessoa sem deficiência talvez faça tudo isso em quarenta minutos. Pra mim demora um pouco mais. E tá tudo bem. Quando terminei, usei o difusor pra dar uma secada leve nos cachos. Não completamente, só o suficiente pra não pingar. Depois voltei pro quarto. Escolhi um short jeans claro e uma blusa soltinha. Passei hidratante nas pernas, nos braços, no colo. Perfume leve. Quando terminei de me vestir, respirei fundo. Hora de trocar de cadeira. A cadeira de banho fica parada no quarto enquanto eu puxo a outra, a do dia a dia, pra perto. Fiz o movimento com cuidado, segurando nas laterais. Quase consegui. — Espera aí, menina! — a voz da minha mãe apareceu na porta. Olhei pra ela e ri. — Mãe… Ela entrou já rindo também. — Deixa eu te ajudar antes que você invente moda. — Eu já tava quase conseguindo. — Eu sei, mas mãe serve pra quê? Ela me ajudou na transferência e ajeitou a almofada da cadeira. — Pronto. — Obrigada. — Agora vem. O café já tá na mesa. Ela me empurrou até a cozinha, como sempre faz quando tá em casa. Eu consigo ir sozinha, mas às vezes ela gosta de participar das pequenas coisas. Sentamos à mesa. Pão, queijo, frutas e café. Peguei minha xícara enquanto ela me observava com aquele olhar de mãe investigadora. Eu já sabia o que vinha. — Então… — ela começou. Lá vem. — Como foi a praia ontem? Mordi um pedaço do pão e fiz cara de paisagem. — Foi normal. — Normal como? — Normal, mãe. Praia. Mar. Areia. Ela estreitou os olhos. — Só isso? — Só. Eu respondi o mínimo possível. Não porque tinha algo errado. Mas porque eu conheço minha mãe. Se eu começasse a contar detalhes demais… ela podia começar a se preocupar. E a última coisa que eu queria era correr o risco dela querer me proibir de ir à praia. Mesmo eu sendo maior de idade. O mundo já tem perigo demais. Mãe então… — Não aconteceu nada diferente? Balancei a cabeça. — Não. O telefone. A ligação. O cara. Guardei tudo só pra mim. Terminei o café e ela suspirou. — Tá bom então. Depois me empurrou até o jardim da frente da casa. O sol da manhã já estava bonito, iluminando as plantas que ela cuida com tanto carinho. Paramos perto das flores. — Você parece pensativa — ela comentou. Dei de ombros. — Tô nada. Mas na verdade eu tava sim. Porque o telefone estava na minha mão. O número desconhecido ainda estava lá na tela. Eu já tinha olhado ele umas dez vezes desde que acordei. Passei o dedo pela tela devagar. O botão verde de ligar estava ali. Toquei nele. Pare. Tirei o dedo. — Que loucura… — murmurei. Coloquei o dedo de novo. Parei. Respirei fundo. Depois encostei o celular no suporte da cadeira. Fechei os olhos. Ontem à noite eu tinha ficado sem entender nada quando o cara ficou mudo no telefone. Acabei desligando. Talvez eu até tenha sido grossa. Mas esse povo que liga só pra passar tempo também é demais. Depois ele ligou de novo. E aí… Pelo tipo de voz… Uma lembrança me arrepiou. Continua...
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