Capítulo 33 Magnata

1202 Words
Magnata Narrando Papo reto… Tem parada que tu não controla. E isso é o que mais me deixa bolado. Porque eu sempre fui o cara que dita as regras, que manda no jogo, que segura a onda. Aqui no morro, quem não controla a própria mente vira história pra contar. E eu nunca fui disso. Nunca. Sempre mantive distância, sempre deixei claro que sentimento não entra no pacote. Mas com ela? É diferente. Parece que meu corpo não me escuta mais. Parece que quem tá no comando não sou eu… é o coração. E isso é perigoso pra c*****o. Porque coração não pensa. Coração não calcula. Coração só sente. E sentir demais, no meu mundo, é o primeiro passo pra se f***r. Ter ela nos meus braços dentro daquele mar… Pørra. Aquilo ali mexeu comigo num nível que eu nem sei explicar. O jeito que ela se agarrou em mim, o sorriso depois, a felicidade estampada na cara dela… como se aquilo fosse um sonho. Como se eu tivesse entregando pra ela um pedaço de mundo que sempre foi dela, mas nunca pôde tocar. A primeira vez que ela entrou no mar, e foi comigo. A primeira vez que ela sentiu o sal na pele, o corpo flutuando, a água gelada batendo no rosto. Foi comigo. E o pior? Aquilo me deixou feliz também. De um jeito leve… limpo… coisa que eu não tô acostumado a sentir. Sem peso. Sem culpa. Sem querer nada em troca. Só a sensação de estar ali, com ela, vendo ela ser feliz. Sempre gostei da praia. Sempre. Desde moleque, quando eu descia o morro escondido pra sentir o vento na cara. Pra mim, mar sempre foi refúgio. Onde eu descarrego, onde eu penso, onde eu esqueço que existe guerra, problema, cobrança. É melhor que whisky, melhor que qualquer pó, melhor que qualquer fuga que n**o tenta arrumar por aí. Eu já troquei muita coisa pela praia. Já deixei de resolver B.O, já deixei de colar em parada grande… só pra vir pra cá, sentar na areia e ouvir o barulho das ondas. Depois de uma guerra, depois de uma trocação, depois de um dia pesado… a praia sempre foi meu lugar. Mais que um baseado, mais que uma dose, mais que uma mulher. Mas hoje… Hoje foi diferente. Hoje não foi só o mar. Foi ela. O jeito dela. O cheiro dela misturado com o sal. A pele dela colada na minha. A forma como ela se entregou sem nem saber quem eu sou. E não… não é pena. Não é dó. Eu já sei disso. Isso é outra parada. Mais pesada. Mais funda. E eu tô começando a entender… que isso pode dar r**m pra mim. Pode me fazer vacilar. Pode me fazer querer coisa que eu nunca quis. Pode me fazer sentir coisa que eu jurei que nunca ia sentir. E o pior? Eu não tô nem aí. Saímos do mar depois de um tempo. Ela já tava mais tranquila, mais solta. O medo que ela tinha no começo foi sumindo aos poucos. O corpo dela relaxou nos meus braços, a respiração voltou ao normal. As amigas ainda tavam ali perto, olhando de longe, mas logo ela dispensou elas com um sorriso, dizendo que tava de boa. — "Ela escolheu ficar comigo" — pensei, sentindo um negócio estranho no peito. — "Ela mandou as amigas embora pra ficar comigo." Ficamos nós dois. Comemos ali no quiosque mesmo, uma porção de camarão, pastel, batata. Rimos de coisa boba, trocamos ideia… e teve beijo. Mais de um. Calmo. Sem pressa. Diferente de tudo que eu já vivi. Não era aquela coisa de pegação, de querer levar pra cama. Era outra parada. É gostoso só estar aqui, perto dela, sentindo o gosto dela. Mas eu percebi. Tinha algo aqui. No olhar dela. Um medo escondido. Um receio que ela tentava disfarçar, mas não conseguia esconder totalmente. Não era de mim… ou talvez fosse também. Mas era mais profundo. Coisa dela. Insegurança. Medo de se entregar. Medo de confiar. Medo de acreditar que aquilo podia ser real. Guardei isso. Fingi que não vi. Mas vi. Depois puxei as toalhas, estendi na areia e coloquei ela sentada primeiro. Com cuidado. Do jeito certo. Apoiei os braços dela, segurei na cintura, deixei ela se ajeitar. Depois me deitei do lado, os braços atrás da cabeça. Ficamos juntos… olhando o céu. As estrelas começando a aparecer… o barulho do mar ao fundo… o vento batendo de leve. A lua já tava alta, a praia quase vazia. O som das ondas preenchendo o silêncio. E por um tempo… Eu esqueci de tudo. Esqueci que tinha morro, que tinha responsabilidade, que tinha guerra. Esqueci que era chefe, que tinha nome pesado, que tinha que estar sempre atento. Esqueci até que tinha que ir embora. Só fiquei deitado. Com ela. O corpo dela ao lado do meu. A mão dela quase tocando a minha. A respiração dela calma, o peito subindo e descendo devagar. Fechou os olhos por um segundo, os cachos espalhados na toalha, o rosto iluminado pela lua. — "É isso" — pensei. — "É isso que eu quero. Só isso." Até que o celular começou a tocar. Ignorei. — Vai atender não? — ela perguntou, virando o rosto pra mim, os olhos curiosos. Balancei a cabeça. — Não. O telefone continuou vibrando, insistente. — Já tem um tempo que tá tocando… — ela insistiu, a voz baixinha. Suspirei, mas não atendi. Deixei tocar até cair. Fiquei olhando pro céu, as estrelas começando a se espalhar. — Já tá tarde… eu preciso ir. — Ela falou e eu virei o rosto pra ela. — Vamos pra minha casa. Ela me olhou na hora. — Não. Direto. Sem nem pensar. A resposta saiu rápida, firme. — Então vamos pra sua. — falei, tranquilo, como se fosse a coisa mais natural do mundo. Ela riu de leve, desacreditada, balançando a cabeça. — Eu preciso ir pra minha casa… isso sim. — a voz dela saiu com um tom de quem tava tentando se convencer. Passei a mão no rosto, virando de lado pra encarar ela melhor. O braço apoiado na toalha, o rosto perto do dela. — Pra quê? Amanhã é sábado… tu nem trabalha, nem tem faculdade… fica comigo. Ela ficou me olhando por uns segundos. Os olhos dela passearam pelo meu rosto, como se estivessem procurando alguma coisa. — Você tem noção do que você tá pedindo? — a voz dela saiu mais baixa. — Se eu não tivesse… eu não tava pedindo. — respondi na moral, sem desviar o olhar. Ela respirou fundo, o peito subindo devagar. — Eu te vi duas vezes… na verdade… hoje é a segunda vez. — os dedos dela mexiam na barra da toalha. — A gente nem se conhece… e você quer que eu vá pra sua casa? Aproximei um pouco, o rosto ficando perto do dela. — Nossas almas já se conhecem. Ela soltou um riso fraco, balançando a cabeça, mas não desviou o olhar. — Nossas almas não veem perigo. — falou, séria agora. — Nossas almas não mostram quem eu sou… nem quem você é. Antes que ela continuasse… Eu beijei. Continua...
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