Capítulo 32 Luísa

1549 Words
Luisa Narrando Virou comigo nos braços, começou a andar de volta pra areia. A água foi baixando, primeiro nos ombros dele, depois na cintura, depois nos joelhos. Ele andava firme, como se eu não pesasse nada. Meu rosto encostado no pescoço dele, sentindo o cheiro do mar misturado com ele. Quando chegou na areia, me sentou na cadeira com um cuidado que me fez o coração apertar. Ele ajeitou os meus braços nos apoios, se abaixou na minha frente. — Tá bem? — perguntou. — Tô. — respondi, ainda sem fôlego. Yasmin chegou correndo. — Luísa! Tá tudo bem?! Você tá bem?! — Tô, Yas. — coloquei a mão no braço dela. — Tô bem. O grandão se levantou, olhou pra Yasmin, depois pra Laura. — Vocês podem curtir a praia. — ele falou, a voz firme. — Eu vou fazer companhia pra ela. Laura deu um passo pra frente. — Eu acho melhor não. Ele olhou pra Laura. Só olhou. Mas aquilo foi o suficiente. O ar mudou. O clima pesou. — Por quê? — a voz dele saiu baixa, perigosa. Laura engoliu seco. Yasmin puxou ela pelo braço. — Tá bom. — Yasmin falou rápido. — A gente vai ali no quiosque. Qualquer coisa, Lu, é só gritar. As duas foram. Eu olhei pro grandão. — Não precisa ser assim. — falei. Ele se abaixou na minha frente de novo. — Assim como? — Assim… ameaçador. Ele passou a mão no rosto. — Não é ameaça. É cuidado. — Mesma coisa. — Não. — a voz dele ficou mais macia. — É diferente. Fiquei em silêncio, olhando ele. — O que foi que você viu em mim? — perguntei. Ele franziu a testa. — Tem um monte de mulher bonita na praia. — continuei. — Olha a Yasmin, a Laura. Com certeza você deve ter outras amigas… ou até outras pessoas interessadas. Um homem igual você… — Para. — ele cortou. — Por quê? Ele se ajeitou, os olhos fixos nos meus. — O problema não é quem se interessa por mim. — a voz dele saiu grave. — O problema é por quem eu me interesso. E isso é o que vale. Meu coração apertou. — E você, pørra. — ele completou. A palavra veio pesada, mas nos lábios dele soou como promessa. — E vou te dar um aviso. — ele continuou, a voz baixa, firme. — Se eu pegar aquele desgraçado perto de você de novo, eu vou matar ele. Na sua frente ou em qualquer lugar que ele ameaçar te encontrar. Meu corpo gelou. — Calma. — falei, colocando a mão no braço dele. — Não é assim. Ele não pode sair matando todo mundo. — Ele encostou em você. — Eu sei. — segurei o braço dele. — Mas não é assim que se resolve as coisas. Ele me olhou. O peito subindo e descendo. — Como se resolve então? — Conversando. — falei, tentando manter a calma. — Eu vou falar com ele. Ele riu, um riso sem graça. — Conversar. — repetiu, balançando a cabeça. — Sim. Ficamos os dois. O som do mar. O vento batendo. O sol descendo. Ele colocou a mão por trás da minha cadeira, se inclinou. — Vou fazer uma coisa. — falou. — O quê? — Vou deixar você conversar com ele. Uma vez. — a voz dele saiu controlada. — Se ele insistir… o papo vai ser comigo. — Tá. — concordei, sabendo que era o máximo que ele ia ceder. Ele se aproximou mais. A boca dele roçou minha orelha. — E se você fugir de mim… — sussurrou. — Eu vou atrás. Minha respiração travou. — Pode esquecer. — ele completou. — Você é minha agora. O corpo dele se afastou. Ficou em pé na minha frente, os olhos escuros fixos em mim. — Vou ali pegar uma cerveja. — falou. — Fica aí. Ele virou e foi andando na direção do quiosque. Eu fiquei ali. O coração na mão. O corpo ainda tremendo. Olhei pro mar. O sol já ia sumindo. — "O que que esse homem fez comigo?" — pensei, passando a mão no rosto. E no fundo… no fundo eu sabia. Ele não ia me deixar fugir. E eu? Eu não tinha certeza se queria fugir. — Vou ali pegar uma cerveja. — falou. — Fica aí. Ele virou e foi andando na direção do quiosque. Eu fiquei ali. O coração na mão. O corpo ainda tremendo. Olhei pro mar. O sol já ia sumindo. — "O que que esse homem fez comigo?" — pensei, passando a mão no rosto. E no fundo… no fundo eu sabia. Ele não ia me deixar fugir. E eu? Eu não tinha certeza se queria fugir. Fiquei com os olhos perdidos no horizonte, a maresia gelada batendo no rosto. A sensação do beijo ainda grudada nos lábios, o peso do corpo dele ainda marcado na minha pele. Meu dedo foi até a boca sem querer, tocando de leve onde ele tinha estado. — "Não foi sonho." — pensei, sorrindo sozinha. — "Ele realmente me beijou. Debaixo d'água. Como nos filmes." Ele voltou depois de alguns minutos. Vinha com uma lata de cerveja na mão e uma sacola do quiosque. — Tá com fome? — perguntou, parando na minha frente. Olhei pra sacola. — Tô. — respondi, rindo. — Na verdade, tô morrendo de fome. Ele se abaixou, colocou a sacola no chão e começou a tirar as coisas. Porção de camarão frito, pastel de queijo, batata frita, duas águas de coco. — Caramba… — falei, os olhos arregalados. — Isso tudo? — A gente vai dividir. — ele respondeu, já abrindo a porção. Ficamos ali. Ele sentado na areia, encostado na minha cadeira. Eu na cadeira, olhando ele. Ele comia de um jeito simples, sem frescura, sem se importar com nada. Eu pegava um camarão aqui, um pedaço de pastel ali. — Onde é que você aprendeu a comer assim? — provoquei. Ele me olhou de canto. — Assim como? — Assim… com gosto. Ele riu. — Fome é fome, princesa. Rica ou pobre, com fome todo mundo come igual. Ri também. O sol já tinha sumido quase todo. A luz da praia tava alaranjada, bonita, daquele jeito que só o fim de tarde no Rio consegue ser. — Qual é o seu nome? — perguntei de novo. Ele não respondeu na hora. Ficou comendo, os olhos fixos na praia vazia. — Você sabe tudo sobre mim. — insisti. — Meu nome, onde moro, o que faço, até o nome dos meus pais. E eu não sei nem como te chamar. — Me chama do jeito que você quiser. — ele falou, sem me olhar. — Do jeito que eu quiser? — É. — Você é muito misterioso. Ele virou o rosto pra mim. Os olhos escuros brilharam com a luz do sol se pondo. — Na hora certa você vai saber. — E quando vai ser essa hora certa? — Quando você merecer. Abri a boca pra reclamar, mas ele deu um sorriso. — Já sabe demais sobre mim. — falei. — E eu não sei nem seu nome. Ele se levantou, se ajeitou na minha frente, os joelhos quase encostando na minha cadeira. — O que você quer saber? — Tudo. — Tudo é muita coisa. — Então começa pelo nome. Ele riu, balançando a cabeça. — Teimosa. — Teimosa é você. — rebati. Ele se inclinou. O rosto dele ficou perto do meu. Os olhos nos meus olhos. — O que que um cara igual eu… — ele começou, a voz baixa. — Taria fazendo com uma cadeirante? Meu coração deu uma travada. — Como é? — perguntei, a voz falhando. Ele se aproximou mais. — Você perguntou o que eu vi em você. — ele falou. — Agora eu quero saber. O que que um cara igual eu… taria fazendo com uma cadeirante? Engoli seco. As palavras não saíam. — Se eu te contar… — ele falou, os lábios quase encostando nos meus. — Que a única boca que eu quero beijar nessa vida… é dessa cadeirante? Meu corpo inteiro arrepiou. — Para de mentir. — sussurrei, a voz fraca. — Você acha que eu tô mentindo? — Até parece, um homem bonito como você… — minha voz saía quase sem som. — Deve ter uns trinta anos… olha pra você… você não se olha no espelho? Ele deu uma gargalhada. — Então tu tá achando que eu tô mentindo? — Sei lá… — falei, sem graça. — Olha pra mim. — ele mandou. Levantei o rosto. — Olha nos meus olhos. Olhei. — Você realmente acha que eu tô mentindo? Os olhos dele estavam sérios. A boca dele estava séria. O corpo dele estava tão perto que eu sentia o calor. — Não. — falei baixo. Ele sorriu. E aí ele me beijou. Dessa vez não foi rápido. Não foi debaixo d'água. Foi devagar. Foi gostoso. Foi dele. Os lábios dele encontraram os meus com uma vontade que me fez esquecer onde eu tava. A mão dele segurou meu rosto, os dedos enroscando no meu cabelo. Eu fechei os olhos, me entreguei. O mundo sumiu. A praia sumiu. As pessoas sumiram. Só existia ele. E eu. Continua...
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