Magnata Narrando
Depois que deixei aquela garota na praia, achei que a parada ia morrer ali mesmo. Era o normal. Eu não sou de carregar lembrança de mulher na cabeça, muito menos de alguém que eu conheci em cinco minutos no meio da areia. Minha vida nunca funcionou desse jeito. Desde moleque aprendi que quem se apega muito às coisas acaba ficando fraco, e fraqueza é a primeira coisa que o mundo tenta arrancar da gente quando você nasce no meio do caos. Então eu sempre fui direto, frio, objetivo. Mulher pra mim sempre foi companhia de momento, nada além disso. Só que naquela noite a mente parecia ter decidido trabalhar contra mim, porque a imagem dela voltava de novo e de novo como se tivesse ficado gravada em algum canto da minha cabeça que eu não conseguia desligar.
Cheguei em casa ainda com o barulho do mar misturado dentro dos ouvidos e uma irritação crescente comigo mesmo por estar pensando naquilo. Empurrei o portão da garagem, desliguei a moto e entrei sem nem olhar direito em volta. A casa estava silenciosa, daquele jeito que deixa o ambiente pesado quando você chega depois de uma noite longa. Joguei a chave na mesa da sala, arranquei a camisa pelo caminho e fui direto pro banheiro. Liguei o chuveiro quente e fiquei parado debaixo da água, deixando ela cair forte nos ombros enquanto tentava organizar os pensamentos. Normalmente aquilo resolvia. Água quente sempre limpava a mente, levava embora o peso do dia, apagava qualquer coisa desnecessária. Mas dessa vez não apagou nada. Sempre que eu fechava os olhos vinha a mesma cena: ela na cadeira de rodas, tentando agir como se nada estivesse acontecendo quando a roda travou na areia, o corpo pequeno tentando resolver sozinha uma situação que muita gente no lugar dela teria começado a reclamar ou pedir ajuda. Aquilo me chamou atenção sem que eu tivesse percebido na hora.
— Que pørra é essa, Magnata? — murmurei baixo para mim mesmo, passando a mão pelo rosto enquanto a água ainda caía.
Desliguei o chuveiro e saí do banheiro com a toalha enrolada na cintura. Fui até o quarto, larguei a toalha numa cadeira e vesti apenas uma bermuda larga. O corpo ainda estava quente do banho, mas a cabeça continuava inquieta. Voltei para a sala e me joguei no sofá, puxando a bandeja de vidro que ficava na mesa de centro. Dois baseados já estavam bolados ali, preparados desde mais cedo. Acendi um devagar, puxando a fumaça com calma enquanto esticava o braço para pegar o controle remoto da televisão. Liguei a TV só para quebrar o silêncio da casa. A tela iluminou o ambiente com aquela luz azulada que piscava nas paredes, mas eu nem prestei atenção no que estava passando. Fiquei largado ali fumando e soltando a fumaça devagar, olhando para a tela sem realmente ver nada. Um baseado virou dois, depois três, e mesmo assim a mente continuava rodando no mesmo lugar.
Levantei irritado, caminhei até o pequeno bar que ficava na lateral da sala e puxei uma garrafa de whisky. Nem me dei ao trabalho de pegar um copo. Dei um gole direto e senti o líquido forte descendo queimando pela garganta. Aquilo normalmente ajudava a desligar o cérebro, mas naquela noite parecia que nada estava funcionando direito. O nome dela surgia de novo na minha cabeça como se alguém estivesse repetindo aquilo em silêncio.
Luísa.
Passei a língua pelos dentes, incomodado com a situação.
— Tá de sacanägem comigo — falei baixo, mais irritado comigo mesmo do que com qualquer outra coisa.
Dei mais um gole na garrafa, terminei o último baseado e fiquei alguns segundos parado olhando a sala silenciosa. A televisão ainda piscava imagens aleatórias, a garrafa de whisky estava aberta na mesa e a fumaça ainda subia lentamente no ar. Balancei a cabeça, decidido a encerrar aquela p***a antes que começasse a parecer coisa de maluco.
— Chega dessa merdä.
Levantei, larguei tudo exatamente como estava e fui para o quarto. Peguei minha Glock na mesa de cabeceira, conferi o carregador por puro hábito — reflexo de anos vivendo do jeito que eu vivo — e deixei a arma ali do lado da cama. Me joguei no colchão e, dessa vez, o sono veio rápido. Apaguei.
Dia seguinte...
Quando acordei olhei no relógio seis da manhã. Meu corpo sempre funcionou assim. Não importa quanto tempo eu durma, o relógio interno nunca falha. Levantei ainda sentindo o gosto do whisky na boca e caminhei direto para o banheiro. Liguei o chuveiro gelado dessa vez. A água fria caiu na minha cabeça como um choque que acorda qualquer um na hora. Fiquei ali alguns minutos deixando o frio percorrer o corpo enquanto a mente voltava ao estado normal. Quando desliguei o chuveiro já estava completamente desperto.
Me sequei rápido e comecei a me vestir. Calça cargo preta, camiseta escura, bota. Peguei a Glock e encaixei na cintura com o movimento automático de sempre. Depois coloquei o celular no bolso e prendi o rádio na lateral da calça. Quando terminei, dei uma última olhada no espelho e saí de casa.
Minha moto estava parada na garagem. Subi nela, liguei o motor e o ronco grave ecoou pela rua ainda silenciosa. Desci o morro devagar enquanto o dia começava a nascer. O céu tinha aquele tom alaranjado típico das manhãs que anunciam sol forte. Algumas casas já estavam abrindo, gente varrendo calçada, comércio levantando porta de ferro. Passei por dois cria na esquina e dei uma buzinada curta.
— Fala, chefe! — gritou um deles levantando a mão.
Levantei a minha em resposta e continuei descendo até a padaria da Dona Célia. Aquilo já fazia parte da minha rotina. Todo dia era a mesma coisa. Encostei a moto na frente e entrei.
— Bom dia, Magnata. O de sempre? — perguntou ela atrás do balcão.
— O de sempre — respondi puxando uma cadeira.
Pouco tempo depois ela trouxe um prato simples: pão com ovo e uma xícara de café preto fumegante. Comi em silêncio enquanto observava o movimento da rua pela janela. O morro acordava devagar. Crianças de uniforme caminhavam para a escola, trabalhadores passavam apressados, motos subiam e desciam a rua.
Terminei o café, paguei e voltei para a moto. De lá segui direto para o galpão onde os caras treinavam. O portão de ferro já estava aberto quando cheguei. Lá dentro alguns cria treinavam luta, outros faziam exercício físico. Assim que entrei, alguns levantaram a cabeça.
— Fala, Magnata.
Assenti em resposta e fui direto para o fundo do galpão, onde ficava a área de tiro. Peguei um dos fuzis da mesa, encaixei o carregador e comecei a treinar. Passei a manhã inteira ali focado naquilo, disparando, ajustando a mira, repetindo o processo até o corpo ficar encharcado de suor.
Quando o sol já estava alto resolvi encerrar. Peguei a moto novamente e subi em direção à boca. O movimento já estava forte quando cheguei. Cria espalhado pelas posições, moto passando, venda acontecendo como sempre.
Assim que encostei a moto vi Nandinho parado encostado no muro mexendo no celular. Assim que me viu ele guardou o aparelho e veio andando na minha direção.
— E aí, Nandinho — falei descendo da moto.
— Fala, chefe — respondeu ele parando na minha frente.
— E o bagulho que eu te pedi?
— Já puxei tudo — respondeu ele abrindo um sorriso de satisfação.
— Sério? — perguntei estreitando os olhos.
— Ordem do senhor é prioridade — respondeu ele com orgulho.
Cruzei os braços.
— Então manda.
— A mina se chama Luísa Martins. Tem vinte e três anos e mora com os pais. Casa própria, bairro tranquilo.
— Nome dos pais?
— Carlos e Lúcia Martins.
— Estuda?
— Design gráfico. Trabalha pela internet também.
— E a cadeira?
— Paralisia desde pequena.
Ele tirou um papel dobrado do bolso e estendeu para mim.
— Aqui o endereço.
Peguei o papel e guardei no bolso.
— Só isso?
Ele deu um sorriso malandro.
— Não.
— O que mais tu arrumou?
— Consegui até o número do telefone dela.
Franzi a testa.
— Pra que que tu pegou o número do telefone dela?
Ele deu de ombros.
— Sei lá, chefe… vai que tu precisa. — Falou soltando uma risada curta. — E também… a mina pode ser cadeirante…
Ele balançou a cabeça sorrindo.
— Mas é gata pra caralhø.
Levantei o olhar devagar e encarei ele.
Direto.
Sem dizer nada.
E Nandinho foi parando de rir aos poucos.
— Por acaso eu te perguntei alguma coisa sobre a aparência dela? — falei num tom baixo e seco, olhando pra ele de um jeito que qualquer um ali já sabia que era aviso.
Nandinho travou na hora. O sorriso que ele tava dando morreu no meio do caminho enquanto ele levantava as duas mãos, meio sem graça.
— Foi m*l aí, chefe… não falei por m*l não — respondeu rápido, tentando consertar a própria língua.
Estendi a mão sem dizer mais nada. Ele me entregou os papéis na mesma hora, todo cuidadoso, como se até o movimento precisasse ser calculado pra não me irritar mais. Peguei as folhas com calma, desdobrando enquanto meus olhos corriam pelas informações que ele tinha puxado.
Nandinho ficou quieto na minha frente, esperando alguma reação.
E eu continuei lendo como se ele nem estivesse aqui.
Continua...