Valente Narrando
Papo reto…
Eu tô bolado. Mas não é pouco, não. É aquele bolado que fica batendo na cabeça, tipo martelo. Mistura de raiva com frustração… com uma parada que eu nem sei explicar direito. Porque ao mesmo tempo que eu tô puto… eu também entendo.
E isso é o pior.
A cena toda volta na minha mente igual replay. A discussão. Eu saindo de casa chutado. Subindo na moto, querendo sumir. E aí, do nada… ela aparece. Com o Magnata ainda por cima.
— "Ela veio atrás de mim…" — pensei na hora, sentindo um negócio estranho no peito. — "Ela não me deixou sozinho."
E isso mexeu. Mas não apagou o resto. Nada apaga o que eu ouvi.
Ela tomando anticoncepcional.
Aquilo ficou martelando na minha cabeça igual britadeira. Porque na minha mente… ela já tinha parado com essa p***a há muito tempo. Ela mesma já tinha falado que tava cheio desse remédio no corpo dela, que não curtia mais as brigas, que queria parar. E eu acreditei. Acreditei mesmo.
E aí, do nada, vem isso.
— "Ela tava tomando esse tempo todo?" — pensei, apertando o guidão com força, os dedos crispados. — "Ela tava escondendo de mim?"
O motor da moto roncando baixo entre minhas pernas. O vento batendo no rosto. E ela ali atrás… esperando minha resposta.
— Você vai me deixar aqui sozinha? — ela repetiu, a voz falhando.
Minha vontade? Era meter o pé. Sumir. Deixar ela aqui e føda-se. Pegar a estrada, acelerar até não sentir mais nada, até o vento levar toda essa raiva que tava queimando dentro de mim.
Mas eu não sou esse cara. Nunca fui. Ela é a mulher da minha vida, pørra. A única mulher que eu olho, que eu desejo, que eu escolhi. E a gente nunca resolveu nada assim… largando o outro no meio do caminho. Sempre foi no desenrolo. No grito, às vezes. Na teimosia. Mas sempre na conversa. Sempre juntos.
Respirei fundo. Apertei o guidão.
Acelerei a moto. Uma vez. O ronco cortou o silêncio. Ela chamou meu nome. Ignorei. Acelerei de novo. Duas vezes. O motor gritou. Ela chamou de novo. Acelerei mais forte. Três vezes. O barulho ecoou no morro.
— Vitor! Para com isso! — ela gritou por trás.
Mas eu continuei. Era como se o barulho do motor abafasse tudo que tava dentro de mim. A frustração. A raiva. A sensação de que tudo que eu planejei, que eu sonhei, que eu desejei desde que me entendo por gente… tava desmoronando na minha frente.
Até que eu cansei.
Puxei o freio. O corpo inclinou pra frente. Dei a ré com a moto, devagar.
— Sobe. — falei seco, sem olhar pra trás.
Ela não falou nada. Só veio. Subiu atrás de mim, os braços envolvendo minha cintura. O corpo dela encostando no meu. O cheiro dela chegando junto.
Nem esperei ela se ajeitar direito.
Acelerei.
Descendo o morro rasgando, as curvas virando borrão, o vento batendo forte.
— Vitor, devagar! — ela falou, apertando mais forte, os dedos cravados na minha blusa. — Não adianta se matar por causa disso!
Soltei um riso sem humor.
— Não sei nem se eu quero conversar quando chegar em casa.
— Você sabe que tudo se resolve conversando! — ela insistiu, a voz quase perdida no vento.
— Eu não sei se quero ouvir mais nada! — retruquei, apertando o acelerador. — Porque pode piorar!
Silêncio por um segundo. Só o barulho da moto e o vento.
— Você sabe o que é isso? — falei, sentindo o aperto no peito.
— Eu sei. — ela respondeu. — Mas para de me chamar de Paula.
Aquilo me fez travar por dentro.
— Você nunca me chamou de Paula… — ela continuou, a voz mais baixa, mais perto do meu ouvido. — Sempre foi Paulinha… meu amor… minha linda…
Apertei o guidão com força. Os dedos doendo. Não falei nada. Só continuei.
Chegamos em casa rápido. Ela apertou o controle, o portão subindo devagar. Entrei com a moto direto, o motor ainda roncando. Parei no meio da garagem, desliguei.
Ela desceu. Os pés dela no chão frio. Fechou o portão com o controle, o barulho das correntes ecoando. Abriu a porta de casa.
E eu fiquei sentado na moto. Parado. Os braços ainda no guidão, o corpo ainda tremendo de raiva e frustração.
Ela voltou. Veio até mim. Passou os braços em volta do meu pescoço, o rosto perto do meu.
— Eu sei o que você tá sentindo… — falou baixo, a boca quase no meu ouvido.
Fechei os olhos por um segundo. O cheiro dela. O calor dela. A voz dela. Tudo me chamando.
— Mas você nunca perguntou o que eu queria de verdade.
Aquilo bateu. Forte. Desci da moto de uma vez. Fui andando de um lado pro outro da garagem, as mãos na cabeça.
— Eu achei que você queria o mesmo que eu!
— E eu quero! — ela respondeu na hora, a voz firme. — Eu nunca disse que não queria!
Parei. Olhei pra ela. O rosto dela iluminado pela luz da casa.
— Então por que parece que você não quer?!
— Porque você não escuta! — ela retrucou, a voz subindo. — Você só quer saber se eu vou engravidar, se eu vou te dar um filho… mas você não quer ouvir o resto!
Fiquei em silêncio. Ela continuou.
— Eu tava tomando anticoncepcional sim! Parei! — falou firme, os olhos brilhando. — E essas três consultas? Foram exames! Pra saber se eu já tava grávida!
Meu coração deu um soco no peito. Meu corpo travou.
— Só que não é assim, Vitor! — ela continuou, a voz falhando. — Meu corpo tá reagindo! Eu tive sangramento, dor… a médica explicou! Não é de um dia pro outro!
Passei a mão no rosto. Andando de um lado pro outro. O pensamento girando.
— Eu achei… — comecei, travando. — Eu achei que você não queria.
— Não queria engravidar de pirraça? — ela completou, com um riso sem graça.
Baixei a cabeça.
— Eu pensei que você só pensava no seu trabalho…
Ela riu sem humor, mas dessa vez o riso tinha dor.
— Eu pensava no meu futuro! No nosso filho! — falou, apontando pra si mesma, os olhos marejados. — Pra não depender só de você! Pra não deixar tudo nas costas do tráfico! Pra ele ter outra opção de vida!
Aquilo me calou. Fiquei olhando ela.
— Meu sonho não conta, não? — ela perguntou, a voz fraca.
Levantei o olhar na hora.
— Claro que conta, pørra! — falei, indo até ela, segurando os braços dela. — Desculpa… meu amor… conta sim.
Ela respirou fundo.
— Eu te entendo… sempre entendi. Mas você explode toda vez que a gente tenta conversar.
Fiquei em silêncio. A raiva ainda tava aqui. Mas agora misturada com culpa. Com vergonha. Com uma sensação de que eu tava sendo um egoísta do caralhø.
— Então não precisa. — soltei de repente, a voz saindo mais baixa. — Se você não quer filho… eu também não quero essa pørra.
Continua...