Capítulo 10 Magnata

1442 Words
Magnata Narrando Sexta-feira no morro é dia sagrado. O movimento triplica, os cria tão soltos, as mina tudo na área, e o cheiro de churrasquinho se mistura com o baseado que já vai rodando desde cedo. Eu tô na base há horas, resolvendo corre, ouvindo rádio, dando corda pros menor que tão sempre em cima querendo atenção. Mas minha cabeça… p***a, minha cabeça não sai daquela ligação. Pego o celular do bolso e fico encarando a tela preta como se ela fosse me dar alguma resposta. A voz dela ainda ecoa aqui dentro. O jeito que ela falou, firme, sem medo, respondendo minhas grosseria na mesma moeda. Aquilo me pegou. Não foi só o papo reto, foi a forma como ela me tratou igual — sem se sentir menor, sem se sentir coitada. — "Que mina do caralhø" — penso, balançando a cabeça devagar. — "Ela não sabe quem eu sou, não sabe o que eu represento, e ainda assim me deu um perdido na cara dura." Passei a tarde toda na boca. Nandinho foi lá no quiosque e trouxe um rancho: misto quente, coquinho gelado e aquela batata que eu gosto. Comi sem nem sentir gosto, só pra ocupar a boca enquanto o olho ficava perdido no movimento da rua. Até pensei em meter o pé e descer pra praia. Sério. Pegar a moto, cortar o asfalto e chegar lá do nada, igual da outra vez. Ver se ela tava. Ver se aquele olhar ia se repetir. Mas aí o rádio chiou. — Chefe, o Caveira subiu o morro. Falou que precisa trocar uma ideia. Putä que pariu. Caveira é dos antigo. Não dá pra simplesmente ignorar. Homem quando quer conversa é porque tem motivo. E se tem motivo, eu tenho que ouvir. Chefia não é só dar ordem — é saber escutar quando precisa. — Manda ele ir chegando — respondi pelo rádio, já resignado. Mas antes, tirei o celular do bolso e liguei pro Cyber. Moleque novo, mas esperto. Sabe de tudo que rola na Zona Sul. — Cyber, fala. — Fala, chefe. — Tô passando uma missão pra tu. — Pode crer. — Vai pra praia. Copacabana, altura do posto 5, onde tem aquele quiosque azul. Fica de olho numa mina. — Nome? — Luísa. Cadeirante. Cabelo cacheado, olho puxado, difícil de não reparar. Silêncio do outro lado. — Tá me zuando, chefe? — Tô parecendo comédia pra tu? — Não, chefe. Já tô indo. — Quero informação em tempo real. Tudo que acontecer. Se ela chegar, se ela ficar, se alguém chegar nela. Tudo. — Tá na mão. Desliguei e encostei na parede. — "O que cê tá fazendo, Magnata?" — pensei, passando a mão no rosto. — "Nunca fiz isso por mina nenhuma." Mas já era tarde. O bagulho tava em movimento. Caveira chegou uns minutos depois. Sentamos, começamos a trocar ideia sobre umas parada de abastecimento que tava precisando alinhar. Eu ouvia, respondia, dava as diretrizes, mas meu olho… meu olho vivia indo pro iPad que eu coloquei em cima da mesa. Nunca saio de casa com esse troço. Mas hoje saí. Porque nele tava a tela dividida entre as câmeras da boca e as mensagens que o Cyber ia mandando. — "Ela chegou" — veio a primeira notificação. Peguei o iPad, virei de lado pro Caveira não ver, e abri. Cyber mandou foto. Ela tava chegando com as amigas, as duas mesmas da outra noite. Cabelo solto, vestido leve, os cachos balançando no vento. Eu olhei praquela imagem e travei. — "O que essa mina tem?" — pensei, franzindo a testa. — "Por que ela mexe comigo desse jeito?" Ela parecia procurar alguém. O pescoço esticado, os olhos passeando. Eu sabia que era eu que ela tava procurando. — "Cê não veio, grandão" — imaginei ela pensando. — "Mas eu tô aqui." Deixei o iPad ligado, com as notificações do Cyber chegando, e fui tomar um banho. Precisava espairecer. Ajeitar a mente. Quando voltei, Caveira já tava sentado, esperando. — E aí, chefe — ele falou. — Bora descer pro pagode hoje? — Bora. O pagode tava cheio quando cheguei. Os cria tudo na área, as mina disputando olhar, a cerveja gelada rodando. Sentei na mesa do fundo, a que tem visão privilegiada de tudo. Caveira do lado, alguns seguranças espalhados. A noite tava boa. Até a Talita chegar. Ela veio rebolando, com aquele sorriso que já conheço bem. Quando chegou perto, fez menção de sentar no meu colo. Empurrei ela. Ela abriu os braços, fingindo indignação. — Qual é, chefinho? Ontem mesmo, depois que eu saí da boca, você falou que hoje o pagode era nosso. Olhei pra ela sem expressão. — Ontem foi ontem. Hoje é hoje. Ela franziu a testa. — Como assim? — Não lembro nem o que eu comi ontem, quem dirá o que eu falei. Os cria ao redor soltaram uma gargalhada. Talita revirou os olhos, mas não desistiu. — Tá bom — ela disse, se virando. — Vou ali no bar, depois volto. Balancei a cabeça negativo. — Não precisa voltar não. Ela nem ligou. Foi até o bar, pegou uma bebida e colocou na minha mesa. — Vou dar um rolé, mas depois eu volto — falou, com aquele sorriso confiante. Nem respondi. Fiquei ali, bebendo, observando o movimento. Foi quando o Cabelo chegou junto. Cabelo é cria antigo, parceiro de confiança. Sentou do meu lado, pegou uma cerveja e me olhou de canto. — E aí, Magnata? O que que tá pegando? — Como assim? — Tô te observando faz tempo. O grande Magnata tá com problema? Soltei uma risada curta. — Já viu o Magnata ficar com problema por causa de mulher? — Não. Por isso que eu tô perguntando. — "E ele não tá errado" — pensei. — "Tô estranho até pra mim." Antes que eu respondesse, o iPad vibrou. Virei ele na mesa, deixando a tela de frente pra mim. Cyber mandou mensagem. "Ela tá indo embora, chefe." Abri a imagem. Ela tava no calçadão, com as amigas, olhando pra trás. Como se ainda procurasse. Mandei mensagem de volta. "Ela tá olhando pra quê?" Cyber respondeu na hora. "Parece que tá procurando alguém." — "Tô aqui, Luísa" — pensei, os olhos fixos na tela. — "Tô aqui, só não posso ir agora." Digitei rápido. "Acompanha ela até em casa. Qualquer coisa, me passa informação." "Ok, chefe." Desliguei o iPad e guardei de lado. Quando levantei a cabeça, Caveira tava me olhando estranho. — Fala — mandei. Ele deu um sorriso. — Nada não. É que eu tava aqui pensando… — Pensando o quê? — Minha irmã chega amanhã. Parei o copo no meio do caminho. — A Jéssica? — A própria. Esfreguei a mão na outra, soltando um riso baixo. — Não acredito. Caveira balançou a cabeça. — Pois é. Seis meses fora, estudando, e agora volta. Já vi que vai ser minha cunhada do chefe do comando, né? Olhei pra ele sério. — Ih, mano. Você sabe que eu respeito sua irmã. Ela não é p**a. Mas comigo não tem essa de preferência, de f**a fixa, de relacionamento. Cê sabe como eu sou. Ele deu de ombros. — Sei sim. Mas vamos esperar pra ver. Faz uns seis meses que você não vai nela, né? Mas recebi uma foto ontem… não é porque é minha irmã, não, mas tá linda pra c*****o. — "Linda" — pensei. — "Bonita. Mas não é ela." A imagem veio na cabeça sem eu chamar. Cabelo cacheado. Olhar curioso. O jeito que me enfrentou no telefone. — "Por que você tá na minha cabeça, Luísa?" Cabelo se aproximou de novo. — E aí, chefe? Vai querer mais uma? Balancei a cabeça. — Vou não. Foi quando senti um perfume perto. Talita voltou. Ela chegou por trás, inclinou o corpo e colocou a boca perto do meu ouvido. — Tá me evitando, chefe? A voz dela era baixa, quente. Virei o rosto devagar. Olhei nos olhos dela. Ela mordeu o canto da boca, confiante. Levantei a mão e segurei o pescoço dela, puxando pra perto. Ela ficou tensa por um segundo, depois relaxou, achando que tinha conseguido. Fiquei olhando pra ela. Bonita. Sem dúvida. Mas não era ela. Soltei o pescoço devagar. — Vaza. Ela piscou, confusa. — O quê? — Vaza. Já falei. Ela abriu a boca pra falar alguma coisa, mas eu já tinha virado o rosto. Peguei o iPad de novo. Abri a última mensagem do Cyber. "Ela chegou em casa, chefe. Tudo ok." Respirei fundo. — Tô perdendo a mão, Magnata — pensei. — E o pior: nem sei se quero parar. Continua...
Free reading for new users
Scan code to download app
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Writer
  • chap_listContents
  • likeADD