Paula Narrando
A vida nunca é perfeita pra ninguém. O ser humano nunca tá totalmente satisfeito com nada. Se tá frio, a gente reclama do frio. Se tá calor, reclama do calor. Se tem dinheiro, reclama que não tem amor. Se é pobre, reclama que não tem dinheiro pra fazer as coisas.
Vai entender o ser humano, né?
Tem rico reclamando que não encontra felicidade… e tem pobre dizendo que preferia ter pelo menos uma alegria passageira, mas com dinheiro no bolso.
No fim das contas, cada um carrega sua própria falta de alguma coisa.
Eu, Paula Pinheiro, tenho 25 anos e desde os 16 trabalho como modelo de vitrine. Não sou modelo de passarela dessas gigantes não. Meu trabalho é outro. Eu visto as roupas das lojas, faço divulgação, sessão de fotos, campanha de coleção… essas paradas.
E pra manter isso tudo, tem muito trabalho por trás.
Academia, alimentação regrada, cuidado com o corpo, agenda cheia… porque nesse ramo, se você descuidar um pouco, aparece dez prontas pra ocupar seu lugar.
Tem dia que eu acordo e penso: será que vale a pena toda essa loucura? Mas aí eu vejo meu trabalho, vejo meu nome nas campanhas, e lembro que tudo isso é fruto do meu esforço.
Mas eu gosto do que faço.
Pra mim nunca foi só trabalho… sempre foi meio que um hobby também. Ainda mais pra quem nasceu e cresceu dentro de comunidade.
Quem diria que uma mina do Turano ia conseguir isso, penso às vezes, olhando minha trajetória. E olha que eu nem terminei a faculdade ainda.
Quando recebi a primeira proposta, fiquei meio assim. Não sabia se ia dar certo. Quem mais me incentivou foi minha mãe.
Ela sempre dizia: vai, filha. Aproveita as oportunidades que aparecerem.
Minha mãe sempre foi minha maior torcida. Mesmo sem entender direito o mundo da moda, ela confiou em mim.
Aqui no Turano, muita menina da mesma idade que eu tinha quando comecei, só quer saber de baile, pagode, festa e pegação. Nada contra, cada um vive do jeito que quer… mas muitas acabam largando estudo cedo.
Não só na minha época como também agora, tem menina que para de estudar pra viver de patrocínio de cria do morro. Outras acham bonito depender de homem pra tudo.
Não julgo. Cada uma faz suas escolhas. Mas eu sempre quis mais.
Minha mãe sempre foi diferente.
Ela nunca me proibiu de nada… mas sempre me ensinou a pensar.
A escolher.
A ter responsabilidade.
E talvez por isso eu tenha seguido outro caminho.
Meu primeiro namorado foi o Vitor.
E ele foi diferente de muitos caras daqui. Ele me respeitou. Respeitou minha idade, meu tempo, minhas escolhas. Foi ele que começou a me levar pras sessões de foto, me buscar depois.
E foi assim… sem nem perceber… que a gente foi se aproximando cada vez mais.
E hoje? Hoje ele é meu homem. Meu parceiro. Meu amor. Mas também minha dor de cabeça.
Deixa eu me apresentar direito.
Tenho 1,70 de altura, pele morena clara, cabelo preto cacheado que bate abaixo da cintura. Cintura fina, peito médio, b***a empinada e pernas grossas. Tenho altura… mas não tenho corpo de modelo de passarela. Meu estilo é outro.
Comecei faculdade de Design Gráfico e depois fui puxando também coisas ligadas à moda. E como meu trabalho não me impede de estudar, eu sigo fazendo cursos sempre que posso.
Eu gosto de aprender.
Gosto de evoluir.
Só que tem uma coisa que vem virando discussão lá em casa.
Filho.
Já tem uns três anos que o Vitor colocou na cabeça que quer ser pai.
No ano em que ele começou a falar disso, eu estava no meio de uma campanha enorme. Agenda lotada praticamente o ano inteiro.
Eu expliquei pra ele que naquele momento não tinha como engravidar.
Mas ele nunca desistiu da ideia.
Ele vive falando que, se eu engravidar, ainda posso trabalhar como modelo grávida, fazer campanha, divulgação… que até renderia mais.
Ele acha que tudo se resolve. Na cabeça dele, engravidar é simples. Não vê os contratos, os prazos, as responsabilidades.
Só que ele vê as coisas do jeito dele.
E às vezes esquece que minha vida profissional também exige planejamento.
Eu nunca disse que não quero ter filho.
Só acho que ainda não é a hora certa.
Quando ele chegou da boca mais cedo, eu tava entrando no banheiro pra tomar banho antes de descer pro pagode.
Ele entrou atrás.
E aí… já viu.
Banho virou bagunça.
Beijo, provocação, risada… aquela i********e de quem já se conhece de verdade.
Mesmo brigada, mesmo com raiva, a gente ainda se atrai como no primeiro dia.
Depois fomos pra cama e transamos como se o mundo fosse acabar no dia seguinte.
Só que, no último momento… ele tocou no assunto de novo. Ele voltou no mesmo assunto, no assunto do bebê.
Respirei fundo.
Lá vem ele de novo, pensei, sentindo o clima mudar. Por que ele não entende que não é agora?
Expliquei pra ele mais uma vez que talvez no próximo ano fosse possível. Eu já tinha renovado contrato, fechado campanha… não queria quebrar compromisso com ninguém.
Mas parece que ele só ouviu metade da conversa.
Ele ficou bolado. Muito bolado.
Quase saiu pro pagode na frente, me deixando pra trás.
E agora? Como é que a gente resolve isso sem brigar de novo?
Quando cheguei no pagode, fui direto pra mesa onde as meninas estavam.
A primeira pessoa que me viu foi Amanda, enfermeira da UPA do Turano e minha amiga desde a adolescência.
Assim que sentei, ela já arregalou os olhos.
— Ih… o que foi isso? — Amanda perguntou, me analisando de cima a baixo.
Peguei a garrafa de água da mesa e dei um gole antes de responder.
— Preciso respirar primeiro. — falei, sentindo o peso do dia nos ombros.
Ela franziu a testa.
— Tu chegou sentando. Nem chegou dançando. Alguma coisa tá errada. — Amanda insistiu, porque me conhece desde os 15 anos e sabe quando eu tô com problema.
Suspirei fundo.
— O Vitor. — falei, e só o nome já dizia tudo.
Ela soltou uma risada curta.
— Ah não… vai me dizer que é o mesmo assunto de sempre. — Amanda revirou os olhos, já sabendo do que se tratava.
Balancei a cabeça.
— O mesmo assunto de sempre. — confirmei, pegando a cerveja que ela me oferecia.
Ela apoiou o queixo na mão.
— Bebê? — Amanda perguntou, mesmo já sabendo a resposta.
— Bebê. — respondi, sentindo o peso da palavra.
Continua...