Luísa Narrando
Era uma quinta-feira aparentemente normal, daquelas que eu gosto. Tarde de filme, pipoca, besteira espalhada pela mesa e muita risada com as minhas amigas. Nada muito grandioso, nada que chamasse atenção. Só nós três ali no meu quarto, comentando as cenas, rindo de coisas idiotas e fingindo que a vida é mais simples do que realmente é.
Mas a Yasmim e a Laura decidiram que hoje não podia ser assim.
Segundo elas, já estava mais do que na hora de a gente fazer alguma coisa diferente. Sair. Respirar um ar que não fosse o do meu quarto ou da sala da minha casa.
E sinceramente… sair nunca foi uma coisa que eu curtisse muito.
Não é nem pelo fato de eu estar em uma cadeira de rodas. Isso, por si só, já virou parte da minha vida faz tempo. O problema nunca foi a cadeira.
O problema são as pessoas. Os olhares.
Aqueles olhares que vêm carregados de pena. Eu odeio isso.
O jeito que algumas pessoas olham para mim como se eu fosse uma tragédia ambulante. Como se eu fosse frágil demais para existir no mesmo mundo que elas. Como se qualquer coisa que eu faça fosse uma superação extraordinária.
Como se eu fosse uma coitadinha. E eu não sou. Nunca fui.
Mas por mais que eu tente viver normalmente, por mais que eu tente agir como qualquer outra garota da minha idade, sempre tem alguém para lembrar que eu sou “diferente”.
Sempre tem alguém para falar mais devagar comigo. Para tentar empurrar minha cadeira sem perguntar. Para falar comigo naquele tom exageradamente doce, como se eu fosse quebrar a qualquer momento. Ou pior…
Quando me tratam como incapaz. Como se eu não pudesse fazer nada sozinha. Como se eu fosse depender de alguém para absolutamente tudo pelo resto da vida.
E isso me irrita mais do que qualquer coisa.
Porque a verdade é que, mesmo com todas as minhas limitações, eu sempre aprendi a me virar. Desde muito pequena.
Eu praticamente cresci nessa cadeira.
Desde que eu me entendo por gente, ela faz parte da minha vida.
Minhas primeiras memórias de infância sempre têm rodas nelas. Minha mãe me empurrando em corredores de hospital.
Consultórios cheios de cheiro de álcool e desinfetante. Médicos falando palavras difíceis enquanto meus pais fingiam entender. Fisioterapia. Muita fisioterapia. Mais do que qualquer criança deveria conhecer.
Teve época em que parecia que minha vida inteira era dividida entre casa, hospital e clínica de reabilitação.
Teve médicos otimistas. Teve médicos realistas.
E teve médicos que simplesmente olharam para meus exames e disseram a frase que eu ouvi mais vezes do que consigo contar.
“Ela provavelmente nunca vai andar.”
Provavelmente.
Essa palavra ficou gravada na minha cabeça durante anos.
No começo, quando eu ainda era pequena, meus pais se agarravam naquela pequena brecha escondida dentro dessa palavra.
Provavelmente não era certeza, certo? Então eles tentaram de tudo. Fisioterapeutas diferentes. Especialistas. Tratamentos. Consultas. Exames. Mais exames.
Eu cresci vendo meus pais tentando encontrar alguma resposta que mudasse aquele diagnóstico. Mas o tempo passa.
E com o tempo, até a esperança mais teimosa começa a se cansar.
Quando eu já tinha idade suficiente para entender as coisas, o diagnóstico já tinha se tornado uma realidade aceita dentro da minha casa.
Eu nunca perguntei muito. E meus pais também nunca me trataram como se eu fosse feita de vidro. Pelo contrário.
Minha mãe sempre disse uma coisa que ficou marcada na minha cabeça:
— A cadeira não define quem você é.
E eu levei isso comigo. Então eu estudei.
Aprendi a fazer as coisas do meu jeito. Aprendi a me movimentar sozinha.
Aprendi a cair e levantar — mesmo que “levantar” tivesse um significado diferente para mim.
Aprendi a não esperar que o mundo fosse se adaptar às minhas limitações. Porque ele não vai. O mundo não muda por causa de ninguém.
Então eu aprendi a me adaptar a ele.
Mesmo assim, ainda existem momentos em que eu odeio sair.
Porque sempre tem alguém olhando. Sempre tem alguém cochichando. Sempre tem alguém tentando ser gentil demais. E eu sei que muitas vezes não é maldade. Mas mesmo assim… cansa.
Cansa ter que provar o tempo todo que você não é menos do que ninguém. Cansa ter que sorrir quando alguém diz que você é “inspiradora” só por existir.
Eu não quero ser inspiração. Eu só quero viver. Normalmente.
Talvez seja por isso que eu gosto tanto dos dias em que fico em casa com a Yasmim e a Laura.
Com elas, eu não sou “a cadeirante”.
Eu sou só a Luísa. A amiga que ri alto demais. A que faz piada sem graça. A que discute sobre filmes como se fosse crítica de cinema.
Elas não me tratam diferente. Nunca trataram. E talvez seja exatamente por isso que hoje elas estão insistindo tanto para a gente sair.
Porque, segundo a Yasmim, eu preciso parar de me esconder do mundo. Palavras dela. Ainda lembrando da roda da cadeira presa, me fez lembrar delas tentando me convencer que era o certo a se fazer.
Flashback On
— Luísa, você tem vinte e três anos e age como se tivesse oitenta — ela disse agora há pouco, cruzando os braços enquanto me encarava.
Revirei os olhos.
— Eu não ajo como se tivesse oitenta.
Laura riu do outro lado da cama.
— Amiga… você acabou de dizer que prefere ficar em casa vendo filme numa quinta-feira à noite.
Suspirei.
— E qual exatamente é o problema nisso?
As duas trocaram um olhar cúmplice. E foi aí que eu percebi que tinha alguma coisa errada. Muito errada.
Porque quando essas duas ficam com essa cara… significa que alguma ideia maluca já está pronta.
Yasmim abriu um sorriso largo.
Aquele sorriso que sempre significa problema.
— Porque hoje… — ela disse, pegando minha bolsa que estava pendurada na cadeira — nós vamos sair.
— Sair pra onde? — perguntei, desconfiada.
— Surpresa. — Laura falou se levantando da cama.
— Eu não gosto de surpresa. — Falei estreitando os olhos.
— A gente sabe — Yasmim respondeu. — Mas você vai gostar dessa.
Eu olhei para as duas. Depois olhei para minha cadeira. Depois voltei a olhar para elas. Alguma coisa dentro de mim dizia que aquela noite não ia terminar do jeito que começou. E, sinceramente…
Eu ainda não sabia se isso era uma coisa boa ou uma péssima ideia.
Flashback Off
Por um momento eu fiquei quieta demais.
As meninas continuavam conversando sobre os últimos acontecimentos, rindo de alguma coisa que tinha acontecido na água, mas eu m*l prestava atenção. Eu estou aqui na praia, mas a minha cabeça estava lá atrás antes de sair de casa., mais especificamente naquele momento estranho que tinha acontecido horas antes. Eu mesma não sabia explicar direito por que aquilo estava voltando à minha mente tantas vezes. Foi só um encontro rápido com um desconhecido. Nada demais. Mesmo assim, a lembrança parecia insistir em ficar ali, como se tivesse alguma coisa naquele momento que eu ainda não tinha conseguido entender.
Passei a mão pelos cabelos, soltando um suspiro baixo enquanto tentava afastar aquela sensação.
Talvez fosse porque tudo aconteceu rápido demais. Ou talvez fosse porque ele era impossível de ignorar.
Sorri com a imagem dele voltando na minha cabeça quase sem que eu percebesse. Alto. Muito alto. Eu tive que erguer bastante o rosto para olhar para ele quando se aproximou da cadeira. O corpo grande ocupava espaço de um jeito natural, daqueles que fazem qualquer pessoa notar quando alguém chega perto. Os braços fortes estavam cobertos por tatuagens escuras que subiam pela pele como desenhos que carregavam histórias que eu jamais saberia. Mesmo lembrando só de alguns segundos daquele encontro, era impossível negar que ele chamava atenção.
Mas não foi só isso que ficou na minha memória.
Na minha mente só tava preso o jeito que ele me segurou e o cheiro dele.
Um perfume masculino misturado com o cheiro salgado da maresia da praia. Era um cheiro forte, mas ao mesmo tempo limpo, marcante sem ser exagerado. Estranhamente agradável. Era o tipo de detalhe que a gente não espera notar quando encontra alguém por tão pouco tempo, mas que simplesmente fica guardado na memória.
Fechei os olhos por um instante, tentando organizar meus próprios pensamentos. E então lembrei dos olhos dele. Escuros. Profundos. Intensos de um jeito difícil de explicar. Mas o que mais tinha me marcado não era a aparência dele, nem o tamanho, nem as tatuagens.
Era o jeito que ele tinha me olhado. Não tinha pena. Não tinha aquele olhar cuidadoso demais que algumas pessoas usam comigo, como se estivessem com medo de me tratar como uma pessoa normal. Também não tinha curiosidade exagerada ou aquele tipo de atenção desconfortável que às vezes as pessoas lançam quando veem minha cadeira de rodas.
O olhar dele era diferente. Direto. Calmo. Como se ele estivesse simplesmente me observando para entender quem eu era, sem me diminuir, sem me tratar como frágil.
E aquilo… era raro. Muito raro.
— Luísa? — A voz da Raíssa me puxou de volta para o presente.
Pisguei algumas vezes antes de perceber que as três estavam me olhando com aquela expressão curiosa que eu já conhecia bem.
— Vai contar pra gente ou não vai? — ela perguntou, cruzando os braços enquanto inclinava a cabeça.
— Contar o quê? — perguntei franzindo a testa.
Yasmim soltou uma risada curta, cheia de malícia, como se já soubesse exatamente o que estava passando pela minha cabeça.
— Ah, para, Luísa. Não se faz de desentendida. — Yasmin fala mudando o tom de voz.
— Eu realmente não sei do que vocês estão falando.
— Não sabe mesmo? — Laura fala dando uma gargalhada.
Continua...