Capítulo XV - Datas, dedicação e desilusões

495 Words
O calendário do nosso relacionamento sempre parecia conspirar contra mim. Junho: aniversário de namoro. Julho: aniversário dele. Agosto: meu aniversário. E, claro, Dia dos Namorados, Natal… tudo se acumulava em sequência, exigindo atenção, planejamento, cuidado. Eu sempre fui daquelas que acreditava que cada data especial merecia ser celebrada com amor e intensidade. No início do ano, eu já fazia planos: comprar algo para o Dia dos Namorados, pensar no presente do aniversário dele, preparar algo especial para o nosso aniversário de namoro, e, claro, meu próprio aniversário. Eu queria que cada momento fosse inesquecível. Não era só sobre presentes. Eu me lembrava do que ele gostava: bolo de ginguba, bolo de banana, bolinhos que ele adorava. Mesmo em dias comuns, levava algo para ele, para surpreender, para manter o amor aceso. Eu sabia que gestos pequenos mantêm viva a chama de um relacionamento. Dádiva (pensando): “Mesmo que seja só uma fatia de bolo ou um bilhetinho… ele vai perceber que eu penso nele, que me importo com ele, que o nosso amor merece ser cuidado.” Mas os anos passaram, e comecei a notar algo que me doeu profundamente. Samuel nunca fazia o mesmo por mim. Nunca lembrava de mim com gestos espontâneos, nunca preparava surpresas, nunca mostrava que pensava nos detalhes que eu adorava. Ele gostava de mim, eu sabia disso, mas o amor dele parecia sempre limitado ao desejo físico, ao beijo quente, ao sexo… nunca ao cuidado, à atenção constante. Samuel: Dádiva… — ele dizia às vezes, quase como desculpa — eu gosto de ti… mas sabes como sou. Dádiva: Eu sei, Samuel… — eu respondia, tentando não mostrar a decepção — mas eu preciso de mais do que palavras e beijos. Eu comecei a perceber que não conseguiria viver um amor intenso com alguém que não tinha intensidade em gestos, em atenção, em dedicação. Eu precisava de alguém que compartilhasse meu esforço, alguém que pensasse em mim como eu pensava nele, alguém que valorizasse as datas, os pequenos detalhes, que se importasse com o amor tanto quanto eu. Dádiva (pensando): “Eu sou intensa demais para quem só sabe desejar… Não posso me contentar com quase amor, quase atenção, quase cuidado. Eu mereço intensidade verdadeira.” E foi nesse processo de perceber a desigualdade entre o que eu dava e o que recebia que comecei a acordar para a realidade. O meu coração ainda queria amar, ainda queria aquela paixão, ainda queria o Samuel dos primeiros anos. Mas minha mente, mais madura, começava a perceber que amor só de desejo não é suficiente. A partir desse momento, comecei a olhar para ele de outra forma. Cada data não celebrada, cada gesto que não aconteceu, cada pequeno esquecimento era uma bandeira vermelha. E embora eu ainda amasse o Samuel, comecei a sentir que o relacionamento não estava mais equilibrado, que o esforço só vinha de um lado… e que, se continuasse assim, eu acabaria me perdendo no meio de tanto descompromisso.
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