Íris narrando
Um ano que a minha vida recomeçou.
E de várias maneiras.
Eu recebi vida de diversas maneiras, recebi a medula óssea que eu precisava para viver, recebi alegria, esperança, e uma amizade linda que mexe com o meu coração.
Não posso n e g a r e me enganar, quero muito mais com o Murilo.
Murilo é aquele ser que exala uma coisa louca. Uma mistura de perigo, adrenalina, euforia, intensidade, não é a toa que o apelido dele, ou melhor, vulgo, é Hellboy.. Tudo o que eu sempre quis na minha vida chata e monótona de quarto de hospital.
Eu sei, eu também já me perguntei se eu me interessei por ele, só porque ele parece aqueles lindos 'garotos problemas' de filme adolescente. Mas não. Porque o Murilo tem um lado lindo que eu sei que é muito reservado.
Levou quase um ano pro Murilo abrir a vida dele tão abertamente para mim.
Enquanto eu não tinha nada pra contar, pois grande parte da minha vida foi estudando a distância, dentro de hospital, tive poucas amigas e no fim me distanciei de quase todas e as que eu fiz no hospital, algumas, infelizmente, se foram, mas Murilo, mesmo com dezoito anos, como eu, tinha muita história para contar.
Sua ocupação perigosa, essa ficha levou um tempo pra cair na minha cabeça, o que não demorou nada foi eu perceber que isso não fazia diferença alguma para mim, eu ainda queria ele. Ele bem que tentou me persuadir a conhecer um mauricinho qualquer, como ele mesmo disse, mas eu via os ombros dele tensos, a mandíbula travada, as mãos em punho, ou seja, ele queria isso tanto quanto eu, nenhum pouco.
Ele também já viveu um amor, isso aperta o meu p e i t o. 'Sou ciumenta', eu penso fazendo biquinho enquanto me olho no espelho, me arrumando para o jantar que o Murilo me convidou.
Eu sei que ele sofreu uma desilusão amorosa, com a Clara. Apesar do meu ciúmes, eu já passei da fase de me sentir chateada com ela por ter tido ele primeiro, não que ele seja meu agora, não do jeito que eu realmente quero pelo menos, mas eu tô nessa missão aí, e por ter feito ele sofrer. Ela mesmo já conversou comigo sobre e eu entendi.
Como eu já fui na Rocinha algumas vezes com o Murilo e eles são todos próximos, ela achou prudente me contar antes que eu soubesse de outra forma. O Murilo já tinha resumido o assunto, mas foi bom a conversa com ela, além disso, tenho o apoio das meninas em relação a ele.
Só ele mesmo que continua a resistir, r i d i c u l o.
Volto a me olhar no espelho, eu continuo bem magra, mas aos poucos tô definindo, a minha imunidade é uma merda, tô fazendo alguns exercícios, quando eu não passo m a l. Sei que tudo é um processo, mas eu não vejo a hora de ficar melhor e melhor e viver plenamente. Já que eu tive essa segunda chance de viver, eu quero aproveita-la muito bem.
Quem parecer não querer que eu aproveite é a minha mãe.
As vezes eu me pergunto se ela achava melhor eu no hospital em tempo integral, onde ela podia controlar até a minha respiração.
Eu não posso sair sozinha, ela controla todos os meus horários, ela não pode sonhar que eu vou no morro. Ela odeia o Murilo de todas as formas, isso que ele salvou a minha vida.
Ela não queria de jeito nenhum que eu conhecesse o doador da minha medula, segundo ela por medo de eu me apegar a pessoa, mas eu insisti e tinha acabado de completar a maioridade, além de que o doutor ser praticamente meu amigo, ele assim, como o Murilo, fazia tudo o que eu queria durante as minhas internações.
Quando ela conheceu o Murilo eu vi a olhada que ela deu nele dos pés a cabeça, eu sei porque eu também olhei. Mas enquanto eu ficava pensando 'que deuso é esse Senhor e eu acabada desse jeito na frente dele, sem cabelo', acho que na cabeça dela passou algo mais como 'esse marginal vai querer me extorquir'.
M a l sabe ela que ele tem bem mais dinheiro do que ela.
'Sujo!', ela diria rapidamente sobre isso.
Já eu não ligo pra nada disso. O que eu gosto é da forma carinhosa que ele me trata, a atenção que ele me dá e que não me trata como uma inválida completa. Ele cuida muito de mim, conhece de cor as minhas limitações, os indícios de quando não estou bem, até as minhas medicações e horários e claro, o grande gostoso que ele é.
Tem noção do que é ficar babando um ano inteiro?
Um. Ano. Inteiro.
Sem tirar nenhuma grande casquinha.
Já tirei uma soneca deitada do ladinho dele, já fui carregada no colo dele, mas essas foram as maiores casquinhas que eu consegui.
Ele vem resistindo veementemente. E tô quase pulando do barco, hoje é minha última tentativa.
Já que eu não morri virgem porque ele me salvou com a doação, essa fase tem que andar na minha vida.
Já vi ele sem camisa demais, não dá.
Quando eu aguento, eu treino igual uma condenada pra ficar bem p e l a d a, porque tenho a noção que ele só pega gostosas, coisa que não gosto de lembrar.
Mas nesse um ano eu também atrapalhei muito a vida dele, os esquemas dele.
* lembrança on
Íris: - Se eu não posso ir para o baile, tu não devia ir também.
Murilo: - Por que? - ele fala com a sobrancelha erguida - Me tira desse b.o. aí.
Íris: - Pra começar, solidariedade comigo, Murilo. - ele começa a cabeça
Murilo: - C a r a l h o Íris, eu não tenho essa opção, não. Tem coisa que eu tenho que ir.
Íris: - Você é o chefe do morro né, ou sei pai. - eu aperto lá olhos para ele e ele olha me bolado sem confirmar nada, mas eu já saquei tudo - Ta bom, você não pode me contar... Ainda. Mas então você não ficar com ninguém. - falo sorrindo
Murilo: - Como assim? Por que?
Íris: - Porque, se eu precisar de outra doação? - penso rápido numa boa desculpa - Se eu precisar de algo? Não pode ficar se esfregando por aí com qualquer uma, de repente pega uma doença. - eu falo com nojo
Murilo: - Eu sempre uso camisinha.
Íris: - Eca. Me poupe dos detalhes. - eu reviro os olhos e ele ri
Cruzo os braços e fico emburrada, com bico.
Murilo: - Tá bom mandada, não vou pegar ninguém hoje. Tá bom assim? - ele vem até mim e faz um carinho na minha bochecha. - tô no hospital de novo e ele só vem aqui tarde, fora do horário de visitas, o doutor libera, sabe e concorda que ele faz bem pra mim, ele não tá vindo mais cedo mais por causa da minha mãe e porque diz que é complicado de dia
Íris: - Promete?
Murilo: - Prometo! - abraço ele e respiro fundo o seu perfume gostoso, amadeirado, engulo o choro pra ele não brigar comigo, mas queria sair daqui, queria fazer as coisas e principalmente, queria estar com ele
* lembrança off *
Eu sei que ele não tá um monge nesse um ano, mas quando eu posso brecar ele, eu sou meus pulos, nem que eu tenha que aprontar algumas coisa pra fazer ele correr até mim.
Suspirando, desisto de me olhar no espelho pensando se tá bom ou não. Optei por um all star branco, um vestido preto liso, gola alta, comprido, com f***a nas laterais, e uma camisa social branca risca de giz por cima, quase como um blazer. Um colar estilo gravata e uma bolsa branca. Rímel, blush e gloss, sou muito básica na maquiagem.
A porta do meu quarto é aberta e dona Iara, minha mãe, vem sorrindo.
Iara: - Vai sair que linda e cheirosa. - sorrio de volta animada concordando com a cabeça - Com quem? - sei tom ganha um timbre desconfiada
Se eu falar que é com o Murilo ela vai causar comigo e eu não tô com saco no momento. Tô bem hoje e quero aproveitar.
Íris: - Pessoal do t. i. - dou de ombros e ela sorri amarelo, certamente desconfiada, mas vai engolir a desculpa mesmo assim
Não sei se acreditou ou se não gosta que eu faço t. i. também.
Mas esse curso é uma mão na roda, porque me tira de casa, eu gosto de computador, tem uns meninos, eu sei que no fundo irrita o Murilo e é minha desculpa pra tudo quando a minha mãe vem com investigações. Coloco tudo na conta do t. i. kkkkkkk.
Dou um beijo nela e saio do quarto quando vejo uma mensagem do Murilo dizendo que chegou.