Capítulo 1
Capítulo 1
AYANA NARRANDO
Hoje eu completo dezoito anos.
Era pra eu estar acordando com mensagem das minhas amigas, escolhendo roupa, pensando em bolo, presente, festa ou qualquer uma dessas coisas que uma garota normal pensa quando finalmente chega aos dezoito.
Mas eu acordei olhando para duas malas fechadas no canto do meu quarto.
Porque, pra mim, fazer dezoito anos nunca significou liberdade.
Significou que o prazo acabou.
Fiquei alguns segundos parada na porta, olhando para tudo que ainda estava no lugar. Minha cama arrumada. Os livros na prateleira. As fotos com minhas amigas. O espelho onde eu me arrumei tantas vezes sem poder ir muito longe depois.
Meu quarto.
Minha casa.
Minha vida inteira cabendo, de repente, em duas malas.
Soltei o ar devagar.
Eu sempre soube que esse dia chegaria.
Meus pais nunca esconderam de mim.
Talvez esconder tivesse sido mais fácil. Eu teria crescido como qualquer outra menina, acreditando que poderia escolher faculdade, namorado, casamento, cidade, vida.
Mas meu pai nunca quis que eu fosse pega de surpresa.
Desde pequena eu sabia que existia uma promessa.
Só fui entendendo o tamanho dela conforme cresci.
Dezoito anos atrás, meu pai ainda era conhecido como Calibre.
Leandro para minha mãe.
Calibre para todo mundo que conhecia a vida que ele levava.
Ele era o braço direito do Rogério, o Carrasco, dono do Morro do Horizonte naquela época. Mas chamar os dois apenas de chefe e braço direito seria pouco.
Eles eram irmãos.
Não de sangue.
Daqueles que a vida junta.
Meu pai confiava a própria vida ao Carrasco, e o Carrasco confiava a dele ao meu pai.
Até o crime cobrar um preço que meu pai não estava mais disposto a pagar.
Minha mãe foi sequestrada.
Eu conheço essa história porque cresci ouvindo apenas o necessário. Nunca perguntei os detalhes. Nunca tive coragem.
Sei que machucaram minha mãe por causa da vida que o meu pai levava.
Sei que, quando meu pai conseguiu ter minha mãe de volta, alguma coisa dentro dele mudou.
Ele quis sair.
Quis abandonar o morro, o dinheiro, o poder, as armas, o nome que tinha construído.
Queria uma vida longe de tudo aquilo.
Só que ninguém simplesmente decide que cansou do crime e vai embora.
Principalmente quando sabe tanto quanto meu pai sabia.
Foi aí que a promessa aconteceu.
Minha vida foi colocada no meio de uma decisão tomada antes mesmo de eu nascer.
Eu seria criada longe do morro.
Teria estudo.
Educação.
Aprenderia a cuidar de mim, de uma casa, de dinheiro. Meu pai fez questão de me dar tudo que podia. Estudei em escolas boas, aprendi idiomas, fiz cursos de culinária, administração e até um pouco de contabilidade.
Mas havia uma condição que acompanhava todas as outras.
Eu seria criada para ser a fiel do filho do Carrasco.
Anderson.
Ou melhor...
Chacal.
Ele já existia quando meu destino foi decidido.
Tinha por volta de dois anos.
Eu nem tinha nascido. E se eu não fosse menina?
E, ainda assim, alguém já sabia com quem eu deveria passar o resto da minha vida.
Parece absurdo.
Talvez seja.
Só que eu cresci dentro desse absurdo.
Por isso não houve uma grande revelação quando fiz quinze anos.
Nenhuma bomba quando fiz dezesseis.
Nenhuma conversa desesperada ontem à noite.
Eu sabia.
Sempre soube.
E poderia ter passado os últimos anos gritando que era injusto.
Poderia ter culpado meu pai.
Minha mãe.
Carrasco.
Até o Chacal, mesmo sabendo que ele também não escolheu isso.
Não fiz.
Por eles.
Principalmente pelos meus pais.
Minha mãe carregou durante anos marcas de uma vida que nunca foi dela.
Meu pai abandonou tudo e construiu outra vida para que eu pudesse crescer longe do que quase destruiu nossa família.
Eles me deram dezoito anos bons.
Dezoito anos de amor.
De proteçãö.
De cuidado.
Então, se chegou a hora de a promessa ser cobrada...
Eu vou.
Não porque acho certo.
Não porque sonho em ser mulher de traficante.
Muito menos porque estou apaixonada pelo homem que me espera.
Eu nem conheço o Chacal pessoalmente.
Conheço o que todo mundo conhece.
A internet ajuda bastante nisso.
Peguei meu celular em cima da cama e desbloqueei a tela.
Nem precisei pesquisar.
O perfil dele ainda estava entre os últimos que eu tinha visitado.
Entrei.
Chacal não parecia fazer questão nenhuma de esconder a vida que levava.
Fotos em festas.
Bebidas caras.
Viagens.
Carros.
Correntes.
Mulheres.
Principalmente mulheres.
Revirei os olhos quando passei por uma foto dele abraçado com uma morena.
Na seguinte, era uma loira.
— Pelo menos variedade não falta — murmurei.
Quase ri.
Quase.
Porque era fácil fazer piada olhando para uma tela.
Difícil era lembrar que, em algumas horas, eu estaria dentro da casa desse homem.
Além das próprias redes sociais, existiam as páginas de fofoca do morro.
E essas eram piores.
Chacal não aparecia apenas por causa das mulheres.
Aparecia porque era temido.
Porque tinha assumido o lugar do pai.
Porque, apesar de ter apenas vinte anos, ninguém parecia tratar ele como um garoto.
Os comentários sobre ele sempre carregavam as mesmas palavras.
Frio.
Crüel.
Impiedoso.
Perigoso.
Eu não sabia quanto disso era verdade e quanto era exagero de internet.
Mas sabia quem era o pai dele.
E sabia qual posição Chacal ocupava agora.
Isso já era suficiente.
Desliguei a tela.
— Ayana?
A voz da minha mãe veio do corredor.
— Tô aqui.
Ela apareceu na porta.
Os olhos estavam inchados.
De novo.
— Mãe...
— Não começa.
— Eu nem falei nada.
— Mas ia falar.
Ela entrou e olhou para as malas.
O queixo dela tremeu.
Eu levantei antes que começasse a chorar.
— Não.
— Eu não tô fazendo nada.
— Tá sim.
— Ayana...
— Se a senhora chorar, eu vou chorar. Se eu chorar, meu pai vai chorar escondido no banheiro de novo e nós três vamos ficar parecendo três condenados.
Ela soltou uma risada no meio do choro.
— Seu pai não chorou no banheiro.
— Claro que não.
— Ele só...
— Foi lavar o rosto por vinte minutos?
Minha mãe me abraçou.
Dessa vez eu não consegui brincar.
Passei os braços em volta dela e fechei os olhos.
— Me perdoa — ela sussurrou.
Meu peito apertou.
— Não fala isso.
— Eu queria que sua vida fosse diferente.
— Minha vida foi boa.
Ela se afastou só o suficiente para olhar meu rosto.
— Ayana...
— Foi, mãe. — Segurei as mãos dela. — Vocês fizeram tudo por mim.
— Menos te dar o direito de escolher isso.
Isso doeu.
— Talvez vocês não tivessem escolha também.
Ela baixou os olhos.
Antes que eu pudesse continuar, ouvi um carro parando do lado de fora.
Minha mãe ficou imóvel.
Eu também.
Não precisei perguntar quem era.
Meu pai apareceu no corredor segundos depois.
E bastou olhar para o rosto dele.
Calibre tinha sumido há muitos anos.
Na minha frente estava meu pai.
Leandro.
Mas, nesse instante, alguma coisa do homem que ele tinha sido voltou para os olhos dele.
— Chegou — falou.
Meu coração bateu mais forte.
— Chacal?
Meu pai balançou a cabeça.
— Não.
Houve uma pausa.
— Carrasco.
Olhei para minha mãe.
Então para as malas.
Eu sabia que esse dia chegaria.
Sabia desde criança.
Mesmo assim, quando ouvi as batidas firmes na porta da frente, minhas pernas ficaram pesadas.
Meu pai respirou fundo e foi atender.
Eu fiquei parada.
Ouvi a porta abrir.
Silêncio.
Depois uma voz masculina, grave, que eu conhecia apenas das poucas vezes em que meu pai tinha falado dele ao longo dos anos.
— Quanto tempo, Calibre.
Meu pai demorou alguns segundos para responder.
— Dezoito anos não foram suficientes pra tu esquecer essa porrä, né?
A resposta veio sem alteração nenhuma no tom.
— Tu me conhece melhor que isso.
Meu estômago virou.
Minha mãe apertou minha mão.
Carrasco tinha vindo me buscar.