Capítulo 08
Narradora: Isadora
O silêncio de uma casa rica é diferente. Na comunidade, o silêncio nunca existe de verdade; há sempre o som de um rádio distante, o grito de uma vizinha, o motor de uma moto ou o barulho da vida acontecendo nos becos. Aqui, o silêncio é pesado, denso, como se as paredes estivessem prendendo a respiração, vigiando cada passo meu.
Clara finalmente tinha pegado no sono após o almoço. A energia daquela menina era inesgotável, mas o cansaço do "dia de princesa" que ela inventou para nós duas a venceu. Aproveitei a trégua para tentar entender o labirinto onde eu estava presa. Fúria não me deu um orientaçao, não me deu regras detalhadas, apenas me jogou ali como um objeto decorativo que deveria ser útil.
Subi as escadas de mármore, meus dedos deslizando pelo corrimão frio. Eu precisava saber onde as coisas ficavam. Se eu ia limpar aquela fortaleza, precisava conhecer cada canto. Passei pela porta do quarto da Clara e segui pelo corredor largo. No final dele, uma porta de madeira escura se destacava. Era imponente, exalando uma aura de autoridade que só podia pertencer ao dono do morro.
Meu coração martelou contra as costelas. Curiosidade? Talvez. Ou talvez apenas o desejo instintivo de conhecer o terreno do inimigo. Aproximei-me devagar. O cheiro dele — aquele perfume amadeirado e seco — parecia emanar da madeira. Estendi a mão, hesitante. Meus dedos tocaram a maçaneta de metal gelado.
Eu só queria espiar. Ver se o quarto de um monstro tinha correntes ou se era apenas um quarto. No momento em que a maçaneta começou a girar sob o peso da minha mão, o ar atrás de mim pareceu congelar.
— Se você entrar nesse quarto, você antecipa a ida da sua mãe para o inferno.
A voz veio como um trovão, ruidosa e carregada de uma fúria tão genuína que meu corpo inteiro deu um solavanco. Travei no lugar, minha mão ainda presa ao metal, sentindo o sangue fugir do meu rosto. Eu não precisei olhar para trás para saber que ele estava ali, a poucos centímetros de mim, exalando perigo.
— E eu ainda mando você junto, para deixar de ser intrometida — ele completou, as palavras saindo por entre dentes cerrados.
Fiquei imóvel, uma estátua de carne e osso, sentindo o calor do corpo dele nas minhas costas. O medo era paralisante, mas a injustiça daquela ameaça começou a borbulhar no meu peito.
— Você está surda, garota? — ele rosnou, a voz mais baixa agora, o que era ainda mais assustador. — Solta essa maçaneta. Agora!
Soltei o metal como se ele estivesse em brasas. Lentamente, girei o corpo para encará-lo. Fúria parecia maior naquele corredor estreito. Os olhos dele eram duas brasas escuras, me perfurando com um desprezo que doía.
— Eu... eu não sabia que não podia entrar — consegui dizer, minha voz saindo mais firme do que eu esperava. — Eu ia limpar. Você não me disse nada sobre onde eu podia ou não entrar. Não sou adivinha.
— Limpar? — Ele deu um passo à frente, invadindo meu espaço pessoal. — Ninguém entra ali. Nem para limpar, nem para olhar, nem para respirar o mesmo ar. Sua obrigação é cuidar da minha filha. Falando nisso... cadê ela?
— Está cochilando — respondi, indicando com a cabeça a porta entreaberta do quarto ao lado.
Fúria não desviou os olhos de mim por um segundo sequer, mas inclinou o corpo o suficiente para espiar o quarto da Clara. Ao ver a pequena adormecida, a tensão nos ombros dele pareceu diminuir um milímetro, mas o rosto continuou uma máscara de gelo.
— Já fez o almoço? — ele perguntou, voltando a atenção para mim.
— Sim. Está pronto há meia hora.
— E o que você está esperando para me servir? Acha que eu sou visita na minha própria casa?
Não respondi. Não valia a pena. Saí da frente da porta do quarto dele, sentindo o peso do seu olhar nas minhas costas enquanto eu descia as escadas. Eu sentia os passos dele logo atrás, ritmados, pesados, como um predador seguindo sua presa até o local da refeição.
Cheguei à cozinha e o cheiro da comida caseira ainda pairava no ar. Fúria passou por mim sem esbarrar, mas a proximidade fez os pelos do meu braço se arrepiarem. Ele sentou-se à mesa da ilha central, cruzando os braços e me observando com aquela paciência irritante de quem sabe que é o dono do tempo de todo mundo.
Servi o prato dele. Arroz soltinho, feijão com caldo grosso, um bife acebolado no ponto e batatas fritas crocantes. Coloquei o prato na frente dele, junto com um copo de suco de laranja.
Fúria olhou para a comida. O vapor subia, levando o aroma temperado até ele. Por um breve segundo, vi as narinas dele dilatarem.
— O cheiro está muito bom — ele comentou, pegando o garfo. — Se o gosto estiver igual, pelo menos cozinhar você sabe.
— Bom proveito — respondi seca, já me virando para sair da cozinha.
— Aonde você pensa que vai? — A pergunta veio antes mesmo que eu desse o terceiro passo.
Olhei para trás, encontrando-o com um pedaço de bife no garfo.
— Vou terminar de limpar o restante da casa — expliquei. — O andar de baixo ainda está pela metade.
— Você faz isso depois — ele sentenciou, apontando para o canto da cozinha. — Agora você vai ficar ali, esperando eu terminar de comer.
Senti o sangue subir para o meu rosto. Aquilo era humilhação gratuita. Ele queria que eu ficasse ali, em pé, como uma serva dos tempos antigos, observando-o mastigar.
— Se eu ficar parada aqui, não vou ter tempo de terminar a limpeza antes da Clara acordar — argumentei, tentando manter a voz racional. — E quando ela acorda, você sabe, ela exige atenção total.
Fúria levou a comida à boca, mastigou devagar, apreciando o sabor que, claramente, estava do agrado dele, embora ele jamais fosse elogiar em voz alta. Ele engoliu e me encarou com um tédio mortal.
— Isso não é problema meu, Isadora. O tempo é meu. Você é minha. Se eu quero que você fique aí parada olhando para a parede enquanto eu almoço, é isso que você vai fazer.
Encarei-o com a pior cara que consegui fazer. Meus olhos deviam estar soltando faíscas de puro ódio. Eu queria gritar que ele era um tirano, um homem amargo que precisava de plateia para se sentir poderoso. Mas a imagem da minha mãe, vulnerável em algum canto daquele morro, me calou.
Recostei-me na parede oposta, cruzei os braços e fixei o olhar em um ponto qualquer acima da cabeça dele. O silêncio da cozinha agora era preenchido apenas pelo som dos talheres dele batendo no prato. Era uma tortura psicológica. Ele comia com calma, quase como se quisesse prolongar o tempo em que me mantinha ali, imóvel e submissa.
Eu era o café horrível, a cuidadora intrometida e a empregada doméstica. Mas, enquanto eu o observava comer a comida que eu preparei com tanto cuidado, percebi que, por trás de toda aquela agressividade, o Fúria tinha medo de uma única coisa: de perder o controle. E ele sabia que, de algum jeito, a minha presença ali estava começando a bagunçar as regras do jogo dele.
O silêncio na cozinha era tão denso que eu conseguia ouvir o som da mastigação dele, um lembrete constante de que eu era apenas uma espectadora da minha própria servidão. Fúria comia com uma calma desesperante, limpando o prato com uma eficiência que contradizia qualquer desprezo. Quando o último pedaço de bife desapareceu, ele largou o garfo com um estalo metálico que me fez saltar internamente.
Ele tomou um longo gole do suco, limpou os lábios com o guardanapo de pano e me encarou. Seus olhos não tinham um pingo de gratidão; eram duas pedras frias me pesando.
— Satisfeito? — a pergunta escapou dos meus lábios antes que eu pudesse frear.
— Longe disso — ele respondeu, a voz arrastada, carregada de um desdém que eu sentia na pele. — Essa comida estava horrível. Sem tempero, sem sal. Só terminei de comer porque estou morto de fome e não tenho tempo a perder esperando você tentar de novo.
Senti o sangue ferver. Eu sabia que era mentira; vi o modo como ele saboreou cada garfada, mas o prazer dele vinha de me diminuir.
— Escuta bem, Isadora — ele continuou, levantando-se e caminhando em minha direção até que sua sombra me cobrisse inteira. — É bom você melhorar o nível. Na cozinha, na limpeza e na língua. Se você não aprender a ser útil de verdade, não vai servir para nada aqui dentro. E eu não mantenho peso morto na minha casa. Se você falhar, eu mando você e aquela viciada da sua mãe direto para o inferno, sem escala. Entendeu?
Ele não esperou minha resposta. Passou por mim, deixando o rastro daquele perfume amadeirado misturado ao cheiro de perigo. Fiquei ali, sozinha na cozinha, as mãos tremendo de raiva e o prato vazio sobre a mesa sendo a única prova de que, naquela guerra de poder, ele mentiria até para o próprio estômago só para me manter sob seu pé.