A sala de interrogatório parecia menor naquele dia.
Aurora entrou segurando a pasta contra o peito.
Ela fechou a porta atrás de si e caminhou até a mesa.
Tentava manter a mesma postura profissional de sempre.
Mas algo estava diferente.
Desde a sessão anterior… ela pensava nele mais do que deveria.
Ela colocou a pasta sobre a mesa e se sentou.
Alguns segundos depois…
A porta abriu.
Dante entrou escoltado por dois guardas.
As correntes presas aos pulsos fizeram um som metálico quando ele se moveu.
Mas não era isso que chamava atenção.
Era o olhar dele.
Intenso.
Escuro.
Preso nela.
Os guardas o sentaram na cadeira.
— Dez minutos — disse um deles antes de sair.
A porta fechou.
Silêncio.
Aurora abriu a pasta.
— Vamos continuar nossa sessão.
Dante não respondeu.
Ele apenas a observava.
Os olhos dele percorriam cada detalhe.
O cabelo loiro preso de um lado.
Os olhos azuis concentrados.
Os lábios que ela mordia levemente enquanto organizava os papéis.
Aurora percebeu.
— Vai passar a sessão inteira me encarando?
A voz dele saiu calma.
— Talvez.
Ela levantou os olhos.
— Por quê?
Dante inclinou um pouco a cabeça.
— Porque você não deveria estar aqui.
Aurora suspirou.
— Já tivemos essa conversa.
— Não — ele disse.
A voz dele estava mais séria agora.
— Hoje é diferente.
Aurora franziu a testa.
— Diferente como?
Dante ficou alguns segundos em silêncio.
Então falou:
— Você virou assunto no pátio.
Ela parou de escrever.
— O que quer dizer?
Os olhos dele escureceram.
— Alguns homens começaram a falar de você.
Aurora já imaginava.
Infelizmente não era surpresa.
— Isso acontece.
Dante se inclinou sobre a mesa.
As correntes tilintaram.
— Não comigo.
Ela ergueu uma sobrancelha.
— Você não controla o que as pessoas falam.
Ele respondeu baixo:
— Controlei ontem.
Aurora o observou com atenção.
— O que você fez?
Dante deu de ombros.
— Um deles aprendeu a manter a boca fechada.
Aurora fechou a pasta devagar.
— Você agrediu um preso por causa disso?
Dante não negou.
— Eu avisei ele.
O silêncio caiu entre eles.
Aurora apoiou as mãos na mesa.
— Eu não preciso que você me proteja.
Dante se inclinou um pouco mais.
Agora os dois estavam mais perto.
— Precisa.
— Não.
— Precisa.
A voz dele ficou mais baixa.
— Porque esse lugar não foi feito pra mulheres como você.
Aurora sustentou o olhar dele.
— E homens como você foram feitos pra esse lugar?
Ele respondeu sem hesitar:
— Sim.
A resposta foi tão direta que ela ficou em silêncio por um momento.
Então disse:
— Você realmente acredita nisso?
Dante se recostou na cadeira.
— Eu sei quem eu sou.
Aurora inclinou a cabeça.
— E quem é você?
Ele a encarou profundamente.
— Um homem perigoso.
Ela respondeu imediatamente:
— Eu já conheci homens perigosos.
Dante sorriu de leve.
— Não como eu.
Aurora pegou a caneta novamente.
— Então me mostre.
Ele franziu levemente a testa.
— O quê?
— Quem você realmente é.
Dante ficou em silêncio.
Os olhos dele analisavam cada expressão dela.
Então ele disse:
— Você não tem medo de mim.
Aurora respondeu calmamente:
— Ainda não vi motivo.
Ele se inclinou lentamente para frente.
A voz dele saiu mais baixa.
— Isso pode mudar.
Aurora não se moveu.
Não desviou o olhar.
— Talvez.
O silêncio entre eles ficou pesado.
Intenso.
Os dois estavam tão próximos agora que podiam ouvir a respiração um do outro.
Então Dante disse, quase como um sussurro:
— Por que você me olha assim?
Aurora piscou devagar.
— Assim como?
Ele respondeu sem quebrar o contato visual.
— Como se estivesse tentando me entender.
Ela respirou fundo.
— Porque é exatamente isso que eu estou fazendo.
Dante ficou alguns segundos em silêncio.
Então falou algo inesperado:
— Você é diferente.
Aurora franziu levemente a testa.
— Diferente de quem?
— De todo mundo que já sentou nessa cadeira.
Ele inclinou a cabeça.
— Você não me vê como um monstro.
Aurora respondeu com calma:
— Eu vejo um homem.
Dante travou o maxilar.
— Isso é um erro.
Ela respondeu baixinho:
— Talvez.
Os dois ficaram se encarando de novo.
O ar parecia quente.
Carregado.
Então Dante perguntou:
— Você sempre usa esse perfume?
Aurora ficou surpresa.
— O quê?
Ele respondeu sem desviar os olhos.
— É o mesmo de ontem.
Ela tentou manter o controle.
— Isso não tem nada a ver com a sessão.
Dante sorriu de lado.
— Tem tudo a ver.
Ele se inclinou mais um pouco.
Agora a distância entre eles era mínima.
— Porque toda vez que você entra aqui…
A voz dele ficou rouca.
— Eu consigo sentir você antes mesmo de olhar.
Aurora sentiu o coração acelerar.
Mas manteve a postura firme.
— A sessão acabou.
Dante ainda a observava.
— Já?
Ela fechou a pasta.
— Sim.
Ele se levantou devagar quando os guardas abriram a porta.
Antes de sair…
Ele parou ao lado da mesa.
E murmurou baixo, apenas para ela ouvir:
— Aurora…
Ela levantou os olhos.
— Fique longe do pátio.
Ela franziu a testa.
— Por quê?
Os olhos dele ficaram perigosamente sérios.
— Porque eu não posso proteger você em todos os lugares.
Então ele saiu escoltado pelos guardas.
Aurora ficou parada na sala.
O coração ainda acelerado.
E uma única coisa ecoava na cabeça dela.
Por que Dante Moretti parecia se preocupar tanto com ela?