A Segunda Sessão

919 Words
A sala de interrogatório parecia menor naquele dia. Aurora entrou segurando a pasta contra o peito. Ela fechou a porta atrás de si e caminhou até a mesa. Tentava manter a mesma postura profissional de sempre. Mas algo estava diferente. Desde a sessão anterior… ela pensava nele mais do que deveria. Ela colocou a pasta sobre a mesa e se sentou. Alguns segundos depois… A porta abriu. Dante entrou escoltado por dois guardas. As correntes presas aos pulsos fizeram um som metálico quando ele se moveu. Mas não era isso que chamava atenção. Era o olhar dele. Intenso. Escuro. Preso nela. Os guardas o sentaram na cadeira. — Dez minutos — disse um deles antes de sair. A porta fechou. Silêncio. Aurora abriu a pasta. — Vamos continuar nossa sessão. Dante não respondeu. Ele apenas a observava. Os olhos dele percorriam cada detalhe. O cabelo loiro preso de um lado. Os olhos azuis concentrados. Os lábios que ela mordia levemente enquanto organizava os papéis. Aurora percebeu. — Vai passar a sessão inteira me encarando? A voz dele saiu calma. — Talvez. Ela levantou os olhos. — Por quê? Dante inclinou um pouco a cabeça. — Porque você não deveria estar aqui. Aurora suspirou. — Já tivemos essa conversa. — Não — ele disse. A voz dele estava mais séria agora. — Hoje é diferente. Aurora franziu a testa. — Diferente como? Dante ficou alguns segundos em silêncio. Então falou: — Você virou assunto no pátio. Ela parou de escrever. — O que quer dizer? Os olhos dele escureceram. — Alguns homens começaram a falar de você. Aurora já imaginava. Infelizmente não era surpresa. — Isso acontece. Dante se inclinou sobre a mesa. As correntes tilintaram. — Não comigo. Ela ergueu uma sobrancelha. — Você não controla o que as pessoas falam. Ele respondeu baixo: — Controlei ontem. Aurora o observou com atenção. — O que você fez? Dante deu de ombros. — Um deles aprendeu a manter a boca fechada. Aurora fechou a pasta devagar. — Você agrediu um preso por causa disso? Dante não negou. — Eu avisei ele. O silêncio caiu entre eles. Aurora apoiou as mãos na mesa. — Eu não preciso que você me proteja. Dante se inclinou um pouco mais. Agora os dois estavam mais perto. — Precisa. — Não. — Precisa. A voz dele ficou mais baixa. — Porque esse lugar não foi feito pra mulheres como você. Aurora sustentou o olhar dele. — E homens como você foram feitos pra esse lugar? Ele respondeu sem hesitar: — Sim. A resposta foi tão direta que ela ficou em silêncio por um momento. Então disse: — Você realmente acredita nisso? Dante se recostou na cadeira. — Eu sei quem eu sou. Aurora inclinou a cabeça. — E quem é você? Ele a encarou profundamente. — Um homem perigoso. Ela respondeu imediatamente: — Eu já conheci homens perigosos. Dante sorriu de leve. — Não como eu. Aurora pegou a caneta novamente. — Então me mostre. Ele franziu levemente a testa. — O quê? — Quem você realmente é. Dante ficou em silêncio. Os olhos dele analisavam cada expressão dela. Então ele disse: — Você não tem medo de mim. Aurora respondeu calmamente: — Ainda não vi motivo. Ele se inclinou lentamente para frente. A voz dele saiu mais baixa. — Isso pode mudar. Aurora não se moveu. Não desviou o olhar. — Talvez. O silêncio entre eles ficou pesado. Intenso. Os dois estavam tão próximos agora que podiam ouvir a respiração um do outro. Então Dante disse, quase como um sussurro: — Por que você me olha assim? Aurora piscou devagar. — Assim como? Ele respondeu sem quebrar o contato visual. — Como se estivesse tentando me entender. Ela respirou fundo. — Porque é exatamente isso que eu estou fazendo. Dante ficou alguns segundos em silêncio. Então falou algo inesperado: — Você é diferente. Aurora franziu levemente a testa. — Diferente de quem? — De todo mundo que já sentou nessa cadeira. Ele inclinou a cabeça. — Você não me vê como um monstro. Aurora respondeu com calma: — Eu vejo um homem. Dante travou o maxilar. — Isso é um erro. Ela respondeu baixinho: — Talvez. Os dois ficaram se encarando de novo. O ar parecia quente. Carregado. Então Dante perguntou: — Você sempre usa esse perfume? Aurora ficou surpresa. — O quê? Ele respondeu sem desviar os olhos. — É o mesmo de ontem. Ela tentou manter o controle. — Isso não tem nada a ver com a sessão. Dante sorriu de lado. — Tem tudo a ver. Ele se inclinou mais um pouco. Agora a distância entre eles era mínima. — Porque toda vez que você entra aqui… A voz dele ficou rouca. — Eu consigo sentir você antes mesmo de olhar. Aurora sentiu o coração acelerar. Mas manteve a postura firme. — A sessão acabou. Dante ainda a observava. — Já? Ela fechou a pasta. — Sim. Ele se levantou devagar quando os guardas abriram a porta. Antes de sair… Ele parou ao lado da mesa. E murmurou baixo, apenas para ela ouvir: — Aurora… Ela levantou os olhos. — Fique longe do pátio. Ela franziu a testa. — Por quê? Os olhos dele ficaram perigosamente sérios. — Porque eu não posso proteger você em todos os lugares. Então ele saiu escoltado pelos guardas. Aurora ficou parada na sala. O coração ainda acelerado. E uma única coisa ecoava na cabeça dela. Por que Dante Moretti parecia se preocupar tanto com ela?
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