A porta de ferro se fechou atrás dos guardas.
CLANG.
Agora restavam apenas os dois dentro da sala.
Aurora sentada de um lado da mesa.
Dante Moretti do outro.
O silêncio entre eles era pesado.
Ele se recostou lentamente na cadeira, como se estivesse completamente à vontade naquele lugar. As correntes presas aos pulsos faziam um pequeno barulho quando ele se mexia.
Mas mesmo algemado… havia algo nele que parecia perigosamente livre.
Aurora abriu a pasta com calma.
— Vamos começar — disse ela com a voz tranquila.
Dante não respondeu.
Ele apenas observava.
Os olhos escuros percorriam cada detalhe dela.
Do cabelo loiro.
Ao vestido rosa que aparecia sob o jaleco branco.
Ao movimento das mãos dela organizando os papéis.
Aurora percebeu.
— Termina de me analisar ou quer começar a sessão?
Um canto da boca dele subiu.
— Eu estou analisando.
Ela levantou os olhos.
— Isso é meu trabalho.
Dante inclinou a cabeça levemente.
— Não hoje.
Ele se inclinou um pouco sobre a mesa.
A voz dele saiu baixa.
— Hoje eu quero entender por que colocaram uma mulher como você para cuidar de mim.
Aurora cruzou as pernas com calma.
— E como eu sou?
Dante a encarou por alguns segundos antes de responder.
— Inteligente.
Corajosa demais para o próprio bem.
Ele fez uma pequena pausa.
— E completamente fora de lugar aqui dentro.
Aurora fechou a pasta devagar.
— Engraçado… — ela disse.
— Todos disseram que você tenta manipular as pessoas.
Dante soltou uma pequena risada rouca.
— Eu não manipulo.
Ele se inclinou mais perto da mesa.
— Eu apenas digo verdades que as pessoas não gostam de ouvir.
Aurora apoiou os cotovelos na mesa.
— Então diga uma.
Os olhos dele escureceram um pouco.
— Você está com medo.
Aurora ergueu uma sobrancelha.
— Não estou.
Ele respondeu imediatamente.
— Seu coração acelerou quando eu entrei.
O silêncio caiu entre eles.
Aurora tentou manter a expressão neutra.
— Isso se chama adrenalina. Ambiente hostil.
Dante se inclinou um pouco mais.
Agora eles estavam mais próximos.
— Não.
A voz dele ficou quase um sussurro.
— Isso se chama curiosidade.
Aurora segurou o olhar dele sem piscar.
— Curiosidade sobre o quê?
O olhar de Dante desceu lentamente pelo rosto dela.
— Sobre mim.
Aurora respirou fundo.
— Você é um criminoso perigoso.
— Supostamente — ele respondeu.
Ela estreitou levemente os olhos.
— Você está dizendo que é inocente?
Dante se recostou novamente na cadeira.
— Eu estou dizendo que você ainda não sabe a verdade.
Aurora pegou a caneta.
— Então conte.
Ele ficou em silêncio.
Apenas olhando para ela.
— Não.
Ela franziu a testa.
— Por quê?
Um sorriso lento apareceu no rosto dele.
— Porque você ainda não confia em mim.
Aurora respondeu imediatamente:
— Eu não confio em criminosos.
Dante inclinou a cabeça.
— Mesmo quando eles podem estar sendo usados como bode expiatório?
Ela parou de escrever.
Por um segundo.
Foi rápido.
Mas ele percebeu.
Claro que percebeu.
O sorriso dele aumentou um pouco.
— Viu?
Aurora voltou a escrever.
— Isso é manipulação.
— Não — ele respondeu calmamente.
— Isso é plantar dúvidas.
Ele se inclinou de novo para frente.
Os olhos dele estavam mais intensos agora.
— E você está cheia delas, doutora.
Aurora levantou os olhos.
Eles ficaram se encarando novamente.
O ar parecia mais pesado.
Mais quente.
Então Dante falou, com a voz baixa:
— Posso fazer uma pergunta agora?
— Não — respondeu Aurora.
— Já fez mesmo assim — ele disse.
Ela suspirou.
— Faça.
Dante apoiou os braços na mesa.
As correntes tilintaram levemente.
— Por que você aceitou trabalhar aqui?
Aurora respondeu rápido.
— Porque é meu trabalho.
Ele negou com a cabeça devagar.
— Não.
Os olhos dele estavam presos nos dela.
— Pessoas normais têm medo deste lugar.
Ele inclinou um pouco o corpo.
— Mas você entrou aqui… como se estivesse procurando alguma coisa.
Aurora ficou em silêncio.
Dante terminou a frase:
— O que você está tentando encontrar, Aurora?
Foi a primeira vez que ele disse o nome dela.
A voz dele saiu baixa.
Intensa.
Ela fechou a pasta devagar.
— Nossa sessão acabou por hoje.
Dante sorriu.
— Fugindo?
Ela se levantou.
— Observando.
Ele também se levantou, as correntes limitando o movimento.
Mesmo assim… ele parecia enorme.
Dominante.
Os dois ficaram se encarando por mais alguns segundos.
Então Dante disse:
— Você vai voltar.
Aurora respondeu calmamente:
— Faz parte do tratamento.
Ele inclinou a cabeça.
— Não.
Os olhos dele brilharam de um jeito perigoso.
— Você vai voltar… porque quer descobrir se eu sou um monstro.
Aurora pegou a pasta.
— E você é?
Dante chegou um pouco mais perto da mesa.
A voz dele saiu quase como um sussurro.
— Ainda não decidi… se quero que você descubra.
Os guardas abriram a porta.
Aurora saiu da sala.
Mas quando ela virou no corredor…
Sentiu o olhar dele ainda preso nela.
E pela primeira vez desde que chegou na prisão…
Aurora percebeu uma coisa.
Dante Moretti não era apenas perigoso.
Ele era um mistério que ela queria desesperadamente resolver.