A Primeira Sessão

862 Words
A porta de ferro se fechou atrás dos guardas. CLANG. Agora restavam apenas os dois dentro da sala. Aurora sentada de um lado da mesa. Dante Moretti do outro. O silêncio entre eles era pesado. Ele se recostou lentamente na cadeira, como se estivesse completamente à vontade naquele lugar. As correntes presas aos pulsos faziam um pequeno barulho quando ele se mexia. Mas mesmo algemado… havia algo nele que parecia perigosamente livre. Aurora abriu a pasta com calma. — Vamos começar — disse ela com a voz tranquila. Dante não respondeu. Ele apenas observava. Os olhos escuros percorriam cada detalhe dela. Do cabelo loiro. Ao vestido rosa que aparecia sob o jaleco branco. Ao movimento das mãos dela organizando os papéis. Aurora percebeu. — Termina de me analisar ou quer começar a sessão? Um canto da boca dele subiu. — Eu estou analisando. Ela levantou os olhos. — Isso é meu trabalho. Dante inclinou a cabeça levemente. — Não hoje. Ele se inclinou um pouco sobre a mesa. A voz dele saiu baixa. — Hoje eu quero entender por que colocaram uma mulher como você para cuidar de mim. Aurora cruzou as pernas com calma. — E como eu sou? Dante a encarou por alguns segundos antes de responder. — Inteligente. Corajosa demais para o próprio bem. Ele fez uma pequena pausa. — E completamente fora de lugar aqui dentro. Aurora fechou a pasta devagar. — Engraçado… — ela disse. — Todos disseram que você tenta manipular as pessoas. Dante soltou uma pequena risada rouca. — Eu não manipulo. Ele se inclinou mais perto da mesa. — Eu apenas digo verdades que as pessoas não gostam de ouvir. Aurora apoiou os cotovelos na mesa. — Então diga uma. Os olhos dele escureceram um pouco. — Você está com medo. Aurora ergueu uma sobrancelha. — Não estou. Ele respondeu imediatamente. — Seu coração acelerou quando eu entrei. O silêncio caiu entre eles. Aurora tentou manter a expressão neutra. — Isso se chama adrenalina. Ambiente hostil. Dante se inclinou um pouco mais. Agora eles estavam mais próximos. — Não. A voz dele ficou quase um sussurro. — Isso se chama curiosidade. Aurora segurou o olhar dele sem piscar. — Curiosidade sobre o quê? O olhar de Dante desceu lentamente pelo rosto dela. — Sobre mim. Aurora respirou fundo. — Você é um criminoso perigoso. — Supostamente — ele respondeu. Ela estreitou levemente os olhos. — Você está dizendo que é inocente? Dante se recostou novamente na cadeira. — Eu estou dizendo que você ainda não sabe a verdade. Aurora pegou a caneta. — Então conte. Ele ficou em silêncio. Apenas olhando para ela. — Não. Ela franziu a testa. — Por quê? Um sorriso lento apareceu no rosto dele. — Porque você ainda não confia em mim. Aurora respondeu imediatamente: — Eu não confio em criminosos. Dante inclinou a cabeça. — Mesmo quando eles podem estar sendo usados como bode expiatório? Ela parou de escrever. Por um segundo. Foi rápido. Mas ele percebeu. Claro que percebeu. O sorriso dele aumentou um pouco. — Viu? Aurora voltou a escrever. — Isso é manipulação. — Não — ele respondeu calmamente. — Isso é plantar dúvidas. Ele se inclinou de novo para frente. Os olhos dele estavam mais intensos agora. — E você está cheia delas, doutora. Aurora levantou os olhos. Eles ficaram se encarando novamente. O ar parecia mais pesado. Mais quente. Então Dante falou, com a voz baixa: — Posso fazer uma pergunta agora? — Não — respondeu Aurora. — Já fez mesmo assim — ele disse. Ela suspirou. — Faça. Dante apoiou os braços na mesa. As correntes tilintaram levemente. — Por que você aceitou trabalhar aqui? Aurora respondeu rápido. — Porque é meu trabalho. Ele negou com a cabeça devagar. — Não. Os olhos dele estavam presos nos dela. — Pessoas normais têm medo deste lugar. Ele inclinou um pouco o corpo. — Mas você entrou aqui… como se estivesse procurando alguma coisa. Aurora ficou em silêncio. Dante terminou a frase: — O que você está tentando encontrar, Aurora? Foi a primeira vez que ele disse o nome dela. A voz dele saiu baixa. Intensa. Ela fechou a pasta devagar. — Nossa sessão acabou por hoje. Dante sorriu. — Fugindo? Ela se levantou. — Observando. Ele também se levantou, as correntes limitando o movimento. Mesmo assim… ele parecia enorme. Dominante. Os dois ficaram se encarando por mais alguns segundos. Então Dante disse: — Você vai voltar. Aurora respondeu calmamente: — Faz parte do tratamento. Ele inclinou a cabeça. — Não. Os olhos dele brilharam de um jeito perigoso. — Você vai voltar… porque quer descobrir se eu sou um monstro. Aurora pegou a pasta. — E você é? Dante chegou um pouco mais perto da mesa. A voz dele saiu quase como um sussurro. — Ainda não decidi… se quero que você descubra. Os guardas abriram a porta. Aurora saiu da sala. Mas quando ela virou no corredor… Sentiu o olhar dele ainda preso nela. E pela primeira vez desde que chegou na prisão… Aurora percebeu uma coisa. Dante Moretti não era apenas perigoso. Ele era um mistério que ela queria desesperadamente resolver.
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