Capítulo 6

886 Words
  TESSA   “Se tivesse educação, não teria virado meu pai contra nós.” Levantei-me, a voz fria carregando anos de mágoa.   Por tantos anos, ele não me olhou como filha. Fui sempre uma estranha. Lembro-me de quando, ainda jovem, fui até ele implorar ajuda para pagar a escola — minha mãe não conseguia — e fui expulsa como um pedinte. E a facada mais profunda: ver Anna, que nem sua filha biológica é, viver uma vida de princesa com o dinheiro que nos faltou.   Naquele momento, na minha mente, ele deixou de existir como pai.   “Patrick, como ela ousa falar assim comigo?!” Cassie choramingou, dramática.   Meu pai ergueu-se como um raio. “Mostre respeito pela minha esposa!”, trovejou.   O golpe veio antes que eu pudesse reagir. Um tapa seco, estrondoso, que me fez perder o equilíbrio e cair no chão. A dor latejou no rosto, mas a surpresa doía mais.   “Isso já foi longe demais, Patrick!”, o tio Wilson interveio, colocando-se ao meu lado.   “Como ousa bater na minha filha?!”, a voz da minha mãe ecoou, cheia de um raro fogo.   “Ela mereceu.” A risadinha cortante de Anna atingiu-me como um chicote.   Foi como se um fusível arrebentasse dentro de mim. A raiva, cega e quente, tomou conta. Levantei-me, agarrei os pratos mais próximos da mesa e atirei. Em Patrick. Em Cassie. Em Anna. A comida manchou suas roupas impecáveis, e um sorriso selvagem e amargo curvou meus lábios ao ver a fúria impotente nos olhos deles.   “Sua malcriada…!”, Patrick avançou novamente, mas o tio Wilson o segurou com força.   “Chega!”   “Que tipo de filha ataca o próprio pai?!”, Cassie gritou, histérica.   “Você começou tudo isso! Não consegue passar uma noite sem criar caso?”, minha mãe retrucou, enquanto Eleanor me puxava para longe.   “Não acredito que tenho uma filha como você.” O desprezo no olhar de Patrick era total.   Revirei os olhos, o coração um nó de dor e frieza.   Nem eu acredito que tive um pai como você.   Uma satisfação vingativa e agressiva aqueceu-me ao vê-los desarrumados e furiosos. Mas, então, meu estômago embrulhou-se. Declan. Ele ainda estava lá, sentado, tendo testemunhado todo o espetáculo deplorável da minha família.   Um calor de pura vergonha subiu pelo meu pescoço. Desejei que o chão me engolisse. Não queria que ele, de todas as pessoas, visse essa miséria.   “Preciso ir”, sussurrei para minha mãe, e fugi do salão antes que as lágrimas que insistiam em brotar transpusessem minha barreira.   A brisa noturna gelada recebeu-me do lado de fora, um choque contra a pele quente. Cruzei os braços, caminhando sem rumo, tentando ao mesmo tempo conter o tremor e sinalizar para um táxi que não aparecia. Minha bochecha ardia, e as lágrimas, finalmente, rolaram — não de arrependimento, mas de uma tristeza profunda e antiga. Recusava-me a ser intimidada, mas isso não impedia a dor de existir. Desejava uma família diferente. Uma vida diferente.   O som de um motor suave aproximando-se fez-me erguer a cabeça. Um carro escuro e elegante parou ao meu lado. A janela desceu, revelando o perfil inconfundível de Declan.   “Entre”, ordenou, sem rodeios.   Entrar? Aqui não é o escritório.   “Não é fácil pegar táxi aqui”, insistiu ele, sua voz neutra.   Ignorei-o, acelerando o passo. Para meu espanto, o carro começou a seguir-me, em velocidade de réptil.   Sério? O problema dele é o quê?   “Você não anda assistindo às notícias, aparentemente.” Sua voz cortou o silêncio novamente. “Vários casos de agressão e desaparecimento nesta área recentemente. O pior é que o responsável parece… indetectável.”   Um frio súbito percorreu minha espinha. O medo, puro e simples, agarrou-me.   “Boa sorte voltando a pé.” E o carro começou a se afastar.   Porcaria! Meu orgulho vai me matar!   Parei, olhando em volta. A rua, antes comum, agora parecia repleta de sombras ameaçadoras. Mesmo com uma vida difícil, eu queria vivê-la.   O carro parou alguns metros à frente. Em seguida, deu ré e estacionou novamente ao meu lado. Dessa vez, ele nem precisou falar. Corri até o lado do passageiro, abri a porta e enfiei-me dentro, afivelando o cinto num movimento rápido. Evitei olhar para ele; podia sentir a expressão de autossuficiência sem precisar vê-la.   Disse meu endereço em monossílabos. Ele inseriu no GPS. O silêncio dentro do carro era opressivo, apenas cortado pelo leve ruído do motor. Toquei minha bochecha latejante, a lembrança do tapa ainda fresca.   Quando o carro parou em frente ao meu prédio, soltei-me do cinto.   “Obrigada, Sr. Hudson.”   “Não foi nada. Apenas evitei que uma funcionária encontrasse um destino desagradável, já que estava ao meu alcance impedir.” Sua voz era plana, mas as palavras, afiadas.   Meus dentes cerraram-se. Ele falava de morte com tanta leveza?   “Não se preocupe. Planejo viver até ficar velha e enrugada.” Desci do carro e fechei a porta com um baque que ecoou na calçada.   Antes que eu pudesse dizer mais nada, ele acelerou e desapareceu na noite.   Que necessidade há de ter um rosto daqueles se a personalidade é de pedra?, pensei, subindo os degraus com o coração ainda pesado e o rosto ainda ardendo.
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