Capítulo 5 Intromissão

1223 Words
Lizzebeth ​A temperatura do meu corpo cai drasticamente quando chego perto do elevador; o ar já está rarefeito na Hora do Leviatã (17h). Em Jakarta, a temperatura só baixa na Hora da Rã (21h). O quão debilitada esta cidade está? ​Subo depressa até o meu apartamento, segurando o livro com força na mão; este livro é, com certeza, um segredo e uma chave. E uma forma de barganha. ​Tiro o colar do pescoço e aperto o pingente que revela uma chave. Abro uma caixa invisível para não portadores da chave e guardo o livro. Ele deve estar sempre ao meu alcance. Corto o meu dedo com a chave até que o sangue o preencha por completo. Agora está selado com o meu DNA. Recolho a chave para dentro do pingente e a caixa desaparece. ​Quando passo pela porta do apartamento vinho designado a mim, as minhas aias já prosseguem com a preparação. O jantar de aceite do noivado será daqui a alguns instantes, e não devo estar abaixo da perfeição. Só espero que o segundo filho não seja tão ousado quanto o herdeiro, e que me pareça mais confiável do que aquela raposa astuta. ​Quando finalmente estou pronta para me vestir, vejo Margareth, minha primeira aia, no closet. ​— Senhorita Lizzebeth... isto chegou junto com os documentos do casamento. Pediram para que fosse entregue apenas quando estivesse sozinha. ​Meu estômago contrai-se. Abro a caixa com cuidado. Dentro, repousa um colar. Não de rubi, mas de safira. Como ousam fazer uma Marverich usar azul? Azul, a cor dos Silverstone. ​Meu coração para por um segundo. No interior da caixa, há um cartão com uma gravação em letras douradas: "Um gesto da nossa aliança de impérios... Silverstone." ​O mundo gira lentamente. O cheiro de limão e sândalo invade minha memória como uma sentença. Aquela família de raposas. Jogo a caixa no chão e leio o contrato minuciosamente. Meus pais nunca aceitariam isso. ​Após o casamento, eu me mudaria para a mansão Silverstone, minha cor passaria a ser azul, e eu passaria a operar duas Sampolos: a minha e a dele? Olho com desdém para a caixa; como são arrogantes. Não se fazem exigências quando seu nível está abaixo do lugar em que você quer entrar. ​Escaneio o contrato e envio-o para os meus pais. Minha mãe liga-me assim que o recebe. ​— Filha, não se preocupe. Já mandamos nosso próprio contrato para o noivo e ele aceitou sem ressalvas — minha mãe fala com a voz tranquila. ​— Mas e esta caixa azul e o contrato? ​— Devem ter esquecido de cancelar, visto que nos antecipamos no envio do contrato e eles já assinaram; esse não é mais válido. ​— Ma... mamãe — gaguejo — eu posso ver o contrato? ​— Lizze, não tem com o que se preocupar, eu estou cuidando de tudo para você! ​— Mas eu queria ler pelo menos um pouco... ​— Concentre-se nos seus estudos por enquanto, Lizzebeth. Tudo ao seu tempo; a mamãe cuida de tudo. ​— É claro, mamãe — minha voz afina. ​Ela desliga. E eu afundo no sofá do closet. O que está escrito no contrato para que ele seja tão secreto? Todo o malabarismo para me deixar perfeita arrasta-se enquanto penso em tudo o que aconteceu. Pelo menos não será Hendrick que vou ter que encarar hoje à noite. Se preciso de sorte para abrir o livro, encontrá-lo foi um mau presságio. ​Após todos os preparativos feitos, e com todo o empenho que Margareth deu para equilibrar toda a extensão do meu cabelo em um coque, estou pronta. Ela borrifa o perfume da família na minha pele e nos meus cabelos. ​Vou até o closet e finalmente consigo dar uma boa olhada no vestido. Sorrio ao perceber todo o esforço da mamãe; isto não é só um vestido. É a demonstração clara de status. Ele é cravejado de rubis. Visto o vestido, longo e justo. A cada passo que dou, o tecido parece mudar, alternando entre o brilho contido dos rubis sob a baixa luz e o vermelho intenso que é projetado quando a iluminação cai sobre ele. ​Sorrio ao pensar que aquele vestido transparece tudo aquilo que fui ensinada a ser: nobre, inalcançável. Coloco brincos, pulseira e o colar, todos de rubis. Descartadas todas as possibilidades de usar qualquer elemento que fosse azul, o colar de safiras foi parar no fundo da gaveta. ​— Isto caiu bem. ​Encaminho-me até o elevador após receber o aviso de que o carro dos meus pais já havia chegado ao estacionamento. Acho estranho as luzes do elevador estarem apagadas; mesmo assim, entro ao ver o visor brilhando. Antes de as portas fecharem, sinto um vulto passar por mim. O elevador continua parado, mesmo eu tendo acionado o botão do térreo. ​Analiso o painel novamente e percebo que o botão de paragem foi acionado. O cheiro agressivo de cedro e hortelã desorienta-me por alguns segundos. Uma mão suave passa pelo meu rosto, o que me faz encolher. Ao perceber minha reação, a mão segura meu queixo com força. ​— Udarach Marverich — diz uma voz grossa e firme. Sinto sua respiração da ponta do meu nariz até os meus lábios, molhados pelo batom carmesim. ​— O que você quer? — digo fria, após me recuperar da surpresa. ​— Ora, não se assuste — diz ele, com os lábios no meu ouvido. ​Eu o empurro com força e ele desequilibra-se. ​— Eu só estou te dando as boas-vindas à família. — Ele empurra-me contra a parede do elevador e puxa meu braço, segurando-me pelo punho. ​O segundo filho? Meu noivo? Luto para me livrar do aperto, mas decido não usar minha força; nada que possa denunciar meu nível para um estranho. Coloco minha outra mão no seu peito e estico o braço, forçando uma distância entre nós. ​Ele belisca meu punho com os dentes. O meu pulso, que está preso sob a mão do homem estranho, começa a arder com fisgadas. Desgraçado, está atrás do meu sangue? ​Reúno minhas forças e dou uma joelhada no meio de suas pernas; ele cai com tudo no chão. Ajeito minha postura, aperto o botão de paragem que brilhava no painel e o elevador começa a descer rapidamente. Piso na mão do agressor com meu salto alto e fico satisfeita com os gemidos de dor que ele solta. ​O tubo com o meu sangue escapa da mão dele e eu o apanho. O elevador chega ao térreo e, antes de sair, olho para a criatura estirada no chão. ​— Udarach Marverich. Dona do império que pode destruir o seu. — Dou um passo para fora. — Aproveite enquanto ele ainda existe. ​Saio do elevador escuro e vou até o carro dos meus pais. Está bem claro o tipo de pessoas que vou encontrar na família Silverstone. Está na hora de inverter os papéis; já chega de ser uma "boa menina". ​Quebro o frasco com meu sangue e ele evapora quando aumento a temperatura do meu corpo, concentrando-o como calor nas minhas mãos. Felizmente... olho para trás e vejo-o ainda imóvel no elevador... É infelizmente para ele.
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