Capítulo 2 Trapaça

2892 Words
Hendrick Eu tenho um segredo. Um segredo sobre o lugar de onde vim, da família ao qual não pertenço. Um lugar que não existe, mas que se encontra em todos os mapas dos poderosos. O Lar feliz das crianças sem sorte. O raio de sol atravessando a cortina me tira do devaneio quando paira nos meus olhos Levanto da cama e me preparo para o dia, o fatídico dia. Vou até Endriave o herdeiro Silverstone e o acordo com suavidade, ele me afasta com o braço e faz sinal para que seus empregados o arrumem para o desjejum. ​Apesar de eu não desfrutar de todo o luxo e facilidades que Endriave tem dentro de casa, do lado de fora sou tratado como segundo na linha de sucessão da herança da família. Não pode haver suspeitas de que a família Silverstone adotou alguém nem de que faz distinção de filhos; Isso era malvisto pela alta sociedade. E deve ser por isso que foram pouquíssimas às vezes em que coloquei o pé para fora de casa sem a companhia de Endriave. Mas, como hoje, vou entrar para a última etapa do Colégio de Herdeiros, estarei sozinho, não voltarei com tanta frequência para essa casa, o que significa que vou ter um pouco mais de conforto, pelo menos por um tempo. ​Depois do banho de Endriave, ajudo-o a colocar seu uniforme impecável e bem-passado; coloco seus óculos, que escondem por completo a deformidade nos olhos, e o direciono até a sala de jantar, onde a família se reúne para o desjejum. ​— Bom dia, Sr. Silverstone e Sra. Silverstone — digo, fazendo uma reverência com a mão no coração. ​Enquanto o Sr. Silverstone me lança um sorriso, a senhora parece estremecer um pouco de raiva. Guio Endriave pela mão até seus pais, que o abraçam e o cumprimentam. Puxo a cadeira para que ele se sente. Quando ele se acomoda, faço outra reverência e me retiro da presença deles, que ignoram o fato de eu sequer ter estado ali. ​Após o banho, visto o uniforme que também foi separado para mim; ele se encaixa perfeitamente, provavelmente feito pelo alfaiate da família, que sabe todas as nossas medidas. Penteio meus cabelos castanhos para trás, assim como o código de aparência e vestimenta da família mandam. Dou uma boa checada no espelho e vejo que não tem nada fora do lugar. Fui instruído a usar dois anéis de safiras azuis: um no dedo anelar direito e o outro no mindinho esquerdo, além da fragrância da família: sândalo e limão para mim, cedro e hortelã para Endriave. ​Sei que estou indo cumprir com o meu dever, mas não deixo de estar levemente aliviado por sair um pouco dessa casa. Tomo meu café no quartinho que fica escondido atrás da prateleira do enorme quarto de Endriave; nem mesmo os criados sabem que vim de um orfanato de elite, só sabem que sou extremamente zeloso e cuidadoso com meu irmão e não gosto muito de interações familiares. ​Desço até a sala de jantar, onde eles já terminaram de comer. Quando acabo de descer as escadas, não deixo de observar certo espanto no rosto do casal, que não desgruda os olhos de mim desde o primeiro degrau. Sinea, a mãe de Endriave, faz um sinal para que eu me aproxime. Ajudo Endriave a sair do seu assento e o direciono até sua mãe. ​— Querido filho, você é o futuro líder da família; parabéns pela sua formatura e ingresso nos negócios— ela diz e coloca o broche no seu terno. ​— Hendrick, você é um pilar importante para nossa família. Você cuidará para que seu líder sempre esteja seguro e tenha tudo o que precisa; siga a sua missão, cumpra o seu dever — o Sr. Silverstone diz e, depois, coloca o broche com o brasão da família em mim. Seus olhos, fixos em meu rosto, reforçam mais uma vez a seriedade do meu papel. ​Manter o herdeiro seguro. ​Após as despedidas de Endriave, o encaminho para fora, onde o motorista da família o aguarda. Ajudo Endriave a entrar no carro e passo o cinto de segurança, prendendo-o no banco; depois, dou a volta e me sento ao seu lado. Endriave não costuma mostrar muitas reações, incômodos ou quaisquer outras emoções; parece frio e alheio a tudo o que o rodeia, mas hoje não consigo parar de reparar que ele parece inquieto ​Olho para seu perfil; as sobrancelhas estão levemente enrugadas. Ele é praticamente a versão masculina de sua mãe: os cabelos ruivos caem levemente na testa, meio ondulados, e as sardas salpicam todo o seu rosto. Tirando o fato de ser bem alto, algo que acredito ele ter puxado do pai, eu poderia dizer que ele e a mãe são cópias equivalentes. Durante todo o percurso, ele permanece quieto e distante. E eu não tenho permissão para falar com ele até ele falar primeiro; e, francamente, não estou disposto a ouvir nada nem nenhuma reclamação do herdeiro rico. ​Hoje completo 20 anos. Não deixo de pensar que, se eu nunca tivesse sido adotado, a essa altura eu já estaria livre e bem longe daqui. Afasto esses pensamentos; já aprendi faz tempo que pensar em como o passado poderia ser diferente é desperdício de tempo de vida, e nós, humanos, não vivemos muito para nos dar esse luxo. ​Observo a paisagem cinza pela janela do carro. Jakarta é uma cidade que manteve as raízes; ela não virou um centro tecnológico como outras partes do mundo. Ainda temos muitas árvores, casas tradicionais em alvenaria, não há prédios, e até as pistas de hipervelocidade não estão espalhadas aos montes, apenas em locais estratégicos e vias longas. Por isso, a ida até sede Silverstone se estendeu por 37 km sem atalhos. Quando chegamos a portaria da empresa, ​O motorista estaciona em frente ao prédio azul. De perto, posso ver os entalhes dourados e o nome da família ao centro com letras bem extravagantes. Prédio extravagante para uma família extravagante. Guio Endriave até o elevador e aperto o botão da cobertura, onde fica seu escritório. Assim que as portas se fecham, curiosamente, Endriave aperta o botão de parada sem errar. Endriave ajusta a postura; ele não se vira, mas sabe exatamente onde estou. ​— Você está ansioso? — diz. ​— Não me sinto diferente do normal — respondo. ​Ele inclina levemente a cabeça, como se analisasse o som da minha voz. ​— Meu pai costuma dizer que você é... eficiente. Uma palavra curiosa para se usar com pessoas. ​Permaneço em silêncio, aonde ele quer chegar? ​— Ontem à noite — continua ele —, ouvi meu nome ser repetido várias vezes. E o seu logo depois. — Ele respira com irritação e continua — Importância. Confiança. Continuidade. Termos grandes demais para alguém sem sangue. Ele está testando minha reação? Suprimo qualquer inquietação e mantenho a calma ​— Você entende por que está aqui, Hendrick? — pergunta. — Não falo do colégio. Falo da família. ​— Entendo, senhor. ​Ele sorri. Sutil, sarcástico. ​— Você existe para garantir que eu continue intacto. Para servir, observar, antecipar. Nada, além disso. ​— Sim. ​Novamente, ele aperta o botão de parada para que o elevador volte a subir. Olho desconfiado para ele; Mesmo sem a visão ele sempre foi ágil, mas hoje ele está ainda mais. ​— Minha mãe acredita que tudo pode ser controlado — diz ele, com um leve desprezo. — Pessoas, reputações, riscos. Ela acredita que você é um risco. ​Ele dá um passo na minha direção. Para a uma distância precisa demais para alguém que não enxerga. ​— Mas controle cria dependência — continua ele. — E dependência cria fraqueza. E isso é a única coisa em que discordo dela: você é insignificante demais para ser considerado alguém que precise de controle. ​Insignificante é exatamente o preciso ser para permanecer nessa família. ​— Não confunda proximidade com ascensão — diz. — Nem função com direito. Você não herdará nada; até o pouco que você tem é meu por direito. ​— Nunca considerei herança, senhor. ​Isso o faz parar. ​— Não? — pergunta, com o tom de voz irônico. ​— Isso é algo que não me diz respeito. ​Ele franze levemente a testa. ​— Tudo aqui diz respeito à herança. — Ele agita os braços para evidenciar o elevador espaçoso e luxuoso. ​— Para a sua família, sim. Mas eu não faço parte dela. ​Minha resposta é calma, neutra. Mas espero que isso tire qualquer suspeita que ele possa ter de mim. Eu preciso estar fora do radar. O elevador desacelera. ​— Lembre-se do seu lugar — diz Endriave, agora com frieza explícita. — O mundo funciona melhor quando cada um sabe o que é. ​As portas se abrem. Dou Um passo à frente, seguro seu braço com firmeza e o guio para fora. ​— Eu sei exatamente o meu papel — respondo. — E cumpro isso com excelência. ​Caminhamos pelo corredor. É claro que, por fora, sou leal. Não desejo nada do que eles protegem com tanto medo. Tenho meus próprios métodos para sair vitorioso dessa batalha sem nem mesmo lutar nas linhas de frente. Mas não me importaria de usá-los de degraus e depois destruir a escada Enquanto Endriave se agarra à ideia de sangue como se fosse seu destino, eu já compreendi algo que ele jamais vai ver: impérios não são ameaçados por quem quer entrar, mas por quem não precisa deles para construir um. O deixo dentro do seu escritório e me despeço ​Vejo-o dar um sorriso de vitória enquanto fecho as portas. É interessante ver o quão assustado ele está. Agora eu preciso saber do que os pais dele estavam conversando sobre mim a ponto de ele ter ficado tão preocupado. Quando saio do prédio o motorista estende a miniatura de uma Bugatti azul e diz que não poderá me levar. Assinto com a cabeça enquanto aciono o carro. Pego minha mala do porta malas do motorista e logo o vejo desaparecer. O vento gelado da manhã despenteia meu cabel me tirando do transe. Estou completamente livre sem nem mesmo um funcionário para me vigiar. Eu poderia ir para qualquer lugar. Aperto o volante até os nós dos meus dedos ficarem brancos. Direciono a rota para o Colégio Herdeiros e logo em seguida pego a pista de hipervelocidade. Vejo os papéis que estavam soltos no banco levitando, enquanto o horizonte se torna luzes coloridas embaçadas. Após alguns segundos, pego a pista de desaceleração. Minha mente cheia sempre fica vazia na hipervelocidade o que certamente é aliviante certas vezes Quando chego perto do Colégio me surpreendo com o quão sombrio é o lugar. Me lembra até o Lar Feliz das Crianças Sem Sorte, pedra sobre pedras cinzas, sem cores, jardins, fontes de água... nada que tire o foco daquela visão nublada do castelo que abrigaria os alunos. As únicas cores que podem ser observadas de longe, assim que passo pelo portal, são as portas de elevadores: um vinho ao canto esquerdo da construção e, muito mais à direita, uma azul. ​As maiores e mais importantes famílias e impérios do mundo: os Marverichs e os Silverstones. ​De longe, observo que o elevador azul está preso na cobertura, mas o elevador dos Marverich continua disponível. Pego a mala e encolho o carro. Me encaminho até o elevador vinho e aperto o botão para que ele abra, bem no momento em que vejo um Porsche vinho, da cor exata do elevador, estacionando bem à frente. As portas do elevador se fecham. O ar preso aos meus pulmões sai Escolho o andar da cobertura, mas, mesmo após apertar o botão, nada acontece. Aperto novamente e uma mensagem brilha no painel: "Digital não correspondente. Acesso não autorizado". ​Quanto zelo por esses herdeiros! Nós, pobres empregados, não temos nenhum direito sobre o que é deles. Ah, depois da conversa mais cedo com Endriave, isso não podia ser mais irônico. A porta do elevador se abre e o cheiro de rosas entra quente e suave no meu nariz. Mas aquele cabelo preto radiante é o que faz meu coração acelerar; é ela? Qual a chance de encontrá-la aqui. E se ela está usando esse colarinho vinho quer dizer Um calafrio percorre minha espinha… … Marverich Eu pude ter a permissão de vir um dia antes do calendário, mas é claro que a família mais poderosa do mundo também teria esse direito. ​Eu não posso deixar que ela descubra quem eu sou; não até eu ter me livrado completamente daquela família. Vejo-a respirando fundo ao sentir meu perfume, que também exala dentro do elevador. Assim que as portas se fecham, eu digo com a voz mais aveludada que consigo neste momento: ​— Eu também adoro o cheiro de rosas — digo bem próximo ao seu ouvido e inspiro forte perto do seu pescoço. ​Ela se vira imediatamente para mim e olha nos meus olhos. Faço de tudo para manter a compostura; suprimo toda agitação que sinto e dou um sorriso de canto para ela que cambaleia para trás Sorrio satisfeito por ter causado impacto. Afinal, ela é o único motivo de eu hesitar tanto em sair de Jakarta; eu queria vê-la de novo e levá-la junto. ​Ela se recompõe e estende a mão para apertar o botão de emergência no elevador. Antes que eu pudesse controlar meu corpo, seguro o punho dela para impedi-la e não deixo de notar que ela tem na mão o mesmo anel que eu no indicador da mão direita, com a simples alteração de que é um rubi e não uma safira. ​Digo no seu ouvido mais uma vez: ​— Por favor, não faça isso. — Deixo minha mão escorregar do seu punho até seu braço, do seu braço até seu ombro e do seu ombro até o bolso do paletó do meu uniforme. — É meu primeiro dia, e meu elevador parece preso no último andar — digo, me afastando dela. — Achei que não teria problema usar o seu, já que você não tinha chegado ainda — concluo. ​Observo seus olhos mudarem de leve desprezo para uma leve indiferença. ​— Sou da família Silverstone. ​— Marverich — ela diz, com um tom monótono, mas percebo certo espanto em seus olhos. ​Não consigo deixar de sorrir quando ela finalmente encontra meus olhos após percorrer com os seus todo o meu corpo. ​— Qual andar? — ela pergunta, e a voz soa um pouco fina demais; logo após, ela finge uma tosse. ​— Cobertura. ​Ela aperta o botão e se posiciona no lado oposto do elevador. Em segundos, chegamos à cobertura, o que me faz pensar que o elevador do escritório de Endriave é bem mais lento; isso deve ser uma configuração para não o desnortear, o que parece exagero, visto que ele é muito mais capaz do que parece. Ela passa por mim e faz um breve aceno com a cabeça. Antes que entre no seu apartamento, corro e seguro sua mão. Ela me olha assustada, mas não recolhe a mão. ​— Muito obrigado, minha lady — digo e beijo lentamente sua mão. ​Ela se afasta rápido e bate a porta atrás de si. Sorrio para a porta; engraçado ver seu leve desespero ao lidar comigo. Ela era tão implacável. Quando se tornou tão submissa e recatada? ​Me apresso em chegar do outro lado do extenso corredor que liga os dois apartamentos. Meu aparelho de comunicação vibra no bolso e vejo uma mensagem com uma resolução familiar ​Houve uma aliança, vai ser realizado um jantar de noivado hoje à noite, uma união familiar. Endriave é o noivo, mas quem vai estar no jantar sou eu. A união é muito importante e, se os pais da noiva acharem que o pretendente não é digndevido ade sua deficiência, isso poderia prejudicar o casamento. Por mais que Endriave não seja uma pessoa sempre agradável, o fato de outra família achar que ele é incapaz me enche de raiva e nojo. Isso é muito c***l, mais c***l do que suas palavras no elevador. ​O plano é enganar a noiva e mudar o noivo no último segundo. Que artimanha mais nojenta! Mas no final, é assim que a elite funciona: seres humanos que perderam a humanidade. Endriave me liga, Rápido, bem rápido acredito que para falar da nova resolução. Não dou tempo para que ele fale, assim que atendo a chamada indago: ​— Você sabe o nome da família? ​— Marverich. ​Meu coração erra a batida. ​— Lembre-se que ela é minha, você só vai conhecer os pais dela — ele diz ríspido ​As palavras dele me atingem como um soco no estômago. Parece que vou ter que mudar todos os meus planos, porque não há nenhuma chance de que a Srta. Marverich se case com alguém além de mim, e não há a mínima chance de ela entrar para outra família na qual eu não esteja incluso. ​ Essa é um batalha a qual não posso perder
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