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📖 Capítulo 1 — Elisa narrando
Eu não sabia dizer exatamente quando tinha me acostumado com aquela vida. Talvez eu nunca tivesse me acostumado de verdade. Talvez apenas tivesse aprendido a não reclamar, porque reclamar nunca colocou comida dentro de casa, nunca consertou uma parede, nunca fez meu pai mudar de ideia e muito menos fez o mundo olhar para a gente com mais piedade. Eu tinha vinte anos e, mesmo sendo tão nova, às vezes sentia como se tivesse passado a vida inteira tentando sobreviver a um dia que nunca terminava. Morávamos em uma das partes mais esquecidas do Complexo do Alemão, onde as casas se apertavam umas contra as outras, as vielas eram estreitas e algumas paredes pareciam estar de pé apenas porque ainda não tinham recebido um motivo forte o suficiente para cair. Ali, ninguém precisava explicar que a vida era difícil. Bastava olhar ao redor. Eu acordava todos os dias com barulho de gente passando, cachorro latindo, televisão ligada na casa do vizinho e, quando o movimento aumentava, vozes subindo e descendo pelas vielas. A nossa casa ficava numa parte ainda mais afastada, onde quase ninguém que tivesse escolha gostava de passar. Era pequena, com duas divisões, uma cozinha improvisada e um banheiro que precisava de conserto fazia tanto tempo que eu já nem lembrava mais quando meu pai tinha prometido que arrumaria. A janela do meu quarto não fechava direito. Quando chovia forte, eu precisava colocar um balde no chão porque a água entrava por uma fresta do teto. A cama era um colchão velho sobre uma estrutura improvisada, mas eu gostava dela mesmo assim. Era o meu canto. Eu tinha poucas coisas. Algumas roupas, um pente, um sabonete, um celular antigo e uma fotografia da minha mãe que eu guardava dentro de uma caixa pequena. Eu não tinha muitas lembranças dela. Na verdade, quase nenhuma. Meu pai dizia que ela tinha ido embora quando eu era pequena demais para lembrar e que não valia a pena ficar falando sobre aquilo. Durante muito tempo, aceitei. Meu pai era a única família que eu tinha conhecido de verdade. Então eu acreditava nele. Acreditava porque precisava acreditar. Naquela manhã, como em praticamente todas as outras, acordei antes do sol aparecer completamente. Fiquei alguns segundos deitada, olhando para o teto escurecido, tentando ouvir algum movimento vindo da sala. Meu pai normalmente acordava antes de mim. Era ele quem fazia o café, quando havia café. Quando não havia, colocava água para ferver e dizia que era melhor comer alguma coisa antes de sair. Pisquei algumas vezes e me levantei devagar. Meus pés tocaram o chão frio e eu procurei minhas sandálias perto da cama. Vesti uma calça larga que já tinha sido de outra pessoa e uma camiseta grande demais para o meu corpo. Eu gostava de roupas largas. Meu pai gostava ainda mais. Dizia que era melhor assim, que eu não precisava ficar chamando atenção de ninguém. Eu nunca tinha entendido muito aquela preocupação, mas também nunca questionei. Prendi meus cabelos loiros em um r**o de cavalo simples, usando um elástico que já estava quase arrebentando. Passei as mãos pelos fios para ajeitá-los e me olhei rapidamente no pequeno espelho rachado que ficava pendurado perto da porta. Não havia nada de especial para ver. Eu estava acostumada comigo mesma. Não percebia o formato do meu rosto, nem meus olhos castanhos grandes, nem o corpo que as roupas largas escondiam completamente. Nunca tive o hábito de me arrumar. Não sabia como. Para mim, banho, roupa limpa quando possível e cabelo preso já eram suficientes. Eu não tinha maquiagem. Nunca tinha ido a um salão. Nunca tinha escolhido uma roupa pensando se ficaria bonita. Aquilo parecia pertencer à vida de outras mulheres, não à minha. Saí do quarto e encontrei meu pai sentado na mesa, segurando uma caneca vazia. Ele estava quieto. Quieto demais. Parei perto da porta da cozinha e observei por alguns segundos. Ele parecia cansado. Tinha os olhos fundos e a barba por fazer.
— Bom dia, pai.
Ele levantou os olhos para mim.
— Bom dia.
— Dormiu bem?
— Dormi.
A resposta veio curta.
Fui até o fogão e olhei para a panela.
— Tem alguma coisa para comer?
— Depois a gente vê isso.
Assenti.
Eu não gostava de insistir quando ele respondia daquele jeito. Aprendi a perceber quando meu pai estava de mau humor. Na maioria das vezes, era melhor ficar quieta.
Peguei o saco grande que usávamos para juntar os materiais e coloquei perto da porta. Antes de sair, voltei para a cozinha.
— Vamos?
Ele demorou alguns segundos para responder.
— Vai na frente.
Franzi a testa.
— Você não vai?
— Tenho uma coisa para resolver.
— Que coisa?
Ele me olhou.
— Elisa, vai trabalhar. Eu encontro você depois.
Baixei os olhos.
— Tá bom.
Era comum meu pai mandar que eu não fizesse perguntas. E eu obedecia. Sempre obedeci. Desde pequena, ele dizia que eu precisava aprender a ficar no meu lugar. Nunca entendi exatamente qual era o meu lugar, mas sabia que perguntar demais não fazia parte dele. Saí de casa carregando o saco vazio nas costas e comecei a caminhar pelas vielas. O Complexo já estava acordando. Pessoas abriam portas, crianças corriam, mulheres varriam as calçadas, homens saíam para trabalhar. Eu conhecia quase todo mundo daquela região pelo rosto, embora não tivesse i********e com quase ninguém. Meu pai não gostava que eu ficasse conversando. Dizia que amizade não colocava comida na mesa e que gente curiosa só trazia problema. Por isso eu cresci aprendendo a passar pelos lugares sem chamar atenção. Quando alguém falava comigo, eu respondia. Quando perguntavam alguma coisa, eu era educada. Mas raramente começava uma conversa. Talvez por isso eu tivesse tão poucas palavras. Eu não sabia que podia ser diferente. O caminho até o lixão era conhecido pelos meus pés. Eu poderia fazê-lo de olhos fechados. Quando cheguei, o cheiro forte me atingiu como sempre. No começo da minha infância eu chorava por causa do odor e das moscas. Depois parei. A gente se acostuma com coisas que deveria achar insuportáveis quando precisa delas para sobreviver. Coloquei o saco no chão e comecei a procurar. Plástico. Papelão. Latas. Garrafas. Qualquer coisa que pudesse ser separada e vendida. Eu aprendi a reconhecer o que tinha algum valor. Às vezes encontrava roupas ainda boas. Outras vezes, utensílios que podiam ser limpos e usados em casa. Quando achava alguma coisa realmente útil, guardava com cuidado. Não porque tivesse apego às coisas, mas porque sabia que comprar uma nova poderia ser impossível. Passei a manhã trabalhando quase sem parar. O sol foi ficando forte, o suor começou a escorrer pela minha testa e minha camiseta ficou ainda mais suja. Em determinado momento, parei para beber água. Sentei em um pedaço de madeira e olhei para as minhas mãos. Estavam machucadas. Havia pequenos cortes nos dedos e sujeira impregnada nas unhas. Eu esfreguei uma mão na outra. Às vezes imaginava como seria ter mãos bonitas. Mãos de alguém que trabalhasse em um escritório, talvez. Uma mulher que usasse anéis, esmalte e carregasse uma bolsa. Eu nem sabia por que aquele pensamento apareceu. Talvez porque, naquele momento, eu tenha visto uma menina passando do outro lado da rua com uma mochila nas costas. Ela devia ter uns quinze ou dezesseis anos. Estava indo estudar. Eu acompanhei com os olhos até ela desaparecer. Eu nunca tinha estudado direito. Meu pai me ensinou a ler algumas coisas quando eu era criança, mas nunca permitiu que eu frequentasse uma escola por muito tempo. Dizia que eu precisava ajudá-lo. Depois, quando perguntei novamente, ele disse que eu já tinha idade para trabalhar e que estudo não colocaria comida em casa. Então parei de perguntar. Eu não sabia exatamente o que tinha perdido. Talvez fosse justamente esse o problema. Eu não sabia o que existia para querer outra coisa. No começo da tarde, finalmente consegui juntar uma quantidade razoável de material. Amarrei o saco e sentei novamente. Meu pai ainda não tinha aparecido. Olhei para o celular. Nenhuma mensagem. Liguei para ele. Chamou duas vezes e caiu na caixa postal. Liguei outra vez. Nada. Mordi o canto do lábio. Aquilo não era comum. Ele podia se atrasar, podia sair sem avisar, mas normalmente aparecia antes do final do dia. Tentei não pensar muito. Meu pai sempre dizia que eu me preocupava demais. Então voltei ao trabalho. Quando o céu começou a mudar de cor, eu já estava cansada. Coloquei o saco nas costas e comecei a voltar para casa. Aquele peso já fazia parte da minha rotina. Eu caminhava devagar, sentindo o corpo inteiro reclamar. Quando cheguei perto de casa, percebi que meu pai ainda não tinha voltado. Abri a porta e encontrei tudo exatamente como havia deixado. A caneca dele continuava sobre a mesa. Olhei para ela por alguns segundos. Não sei por que aquilo me incomodou tanto. Fui até o quarto dele. A cama estava desarrumada. O armário estava aberto. Algumas roupas continuavam ali. Não parecia que ele tinha ido embora de vez. Pelo menos foi o que eu quis acreditar. Passei a noite esperando. Fiz uma pequena refeição com o que ainda havia em casa e deixei uma parte separada para ele. Quando escureceu completamente, sentei perto da janela e fiquei olhando a rua. Cada barulho me fazia levantar a cabeça. Cada passo próximo da porta me fazia pensar que ele tinha voltado. Mas não voltou. Eu tentei ligar mais algumas vezes. Nada. Às vezes meu pai fazia coisas que eu não entendia, mas nunca imaginei que pudesse simplesmente desaparecer. Quando finalmente ouvi a chave na fechadura, levantei rápido. Meu coração bateu aliviado. Ele entrou. Mas alguma coisa estava diferente. Meu pai fechou a porta atrás de si e ficou parado por alguns segundos, olhando para mim. Eu sorri.
— Você demorou.
Ele não respondeu.
— Eu guardei comida para você.
Ele passou a mão pelo rosto.
— Não tô com fome.
— Aconteceu alguma coisa?
— Não.
Ele mentia m*l quando estava nervoso. Eu conhecia aquele jeito de evitar meus olhos. Mesmo assim, não insisti.
— Tá bom.
Ele caminhou até o quarto.
Fiquei observando.
— Pai?
Ele parou.
— O quê?
— Você vai trabalhar comigo amanhã?
Ele ficou em silêncio.
— Vou.
Sorri, aliviada.
— Tá.
Ele entrou no quarto e fechou a porta.
Eu permaneci alguns segundos parada no meio da sala.
Depois fui dormir.
Naquela noite, acordei uma vez com sede. A casa estava silenciosa. Fui até a cozinha e bebi água. Quando passei pela porta do quarto do meu pai, ouvi vozes baixas. Parei.
Não consegui entender tudo.
Mas ouvi meu nome.
Fiquei imóvel.
Aproximei um pouco o ouvido da porta.
Meu coração começou a bater mais rápido.
Meu pai estava falando com alguém ao telefone.
— Eu já falei que vou resolver.
Pausa.
— Não mete minha filha nisso.
Meu corpo inteiro ficou gelado.
Não entendi o que a outra pessoa dizia.
Meu pai respondeu ainda mais baixo.
— Ela não sabe de nada.
Fiquei parada no corredor, sem respirar direito.
Depois ouvi uma frase que não consegui compreender completamente, mas reconheci uma palavra.
Dívida.
Meu pai ficou alguns segundos em silêncio.
Então respondeu:
— Eu preciso de mais tempo.
A conversa terminou.
Eu voltei para o quarto antes que ele percebesse que eu estava ali.
Deitei novamente e puxei o lençol até o peito.
Fiquei olhando para o teto.
Eu queria acreditar que tinha entendido errado.
Queria acreditar que aquilo não tinha nada a ver comigo.
Meu pai era meu pai.
Ele tinha me criado.
Ele sempre dizia que estava fazendo tudo para me proteger.
Então eu fechei os olhos e tentei acreditar nele mais uma vez.
Só que, naquela mesma noite, enquanto eu dormia sem saber o que estava acontecendo, meu pai estava sentado sozinho no quarto, segurando o celular com força.
Sobre a cama havia uma pequena mochila.
Dentro dela, algumas roupas.
Dinheiro.
Um telefone.
E um endereço escrito em um pedaço de papel.
Ele olhou para a porta do meu quarto.
Depois para a mochila.
Respirou fundo.
— Me perdoa, filha.
E tomou a decisão que mudaria nossas vidas para sempre.