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1953 Words
📖 Capítulo 4 — Cibele narrando Eu sempre achei que algumas pessoas chegavam à nossa vida no momento em que a gente menos esperava. Não acreditava muito nessa história de destino, pelo menos não daquela forma bonita que as pessoas costumavam contar. Para mim, a vida era mais complicada. As coisas aconteciam porque tinham que acontecer, as pessoas se encontravam porque os caminhos se cruzavam e, muitas vezes, alguém precisava estar disposto a estender a mão quando o outro já não conseguia caminhar sozinho. Talvez por isso eu gostasse tanto de trabalhar no lar de crianças. Eu não conseguia mudar tudo o que havia acontecido com elas, por mais que desejasse. Não conseguia apagar as lembranças ruins, nem devolver uma infância que tinha sido roubada. Mas podia estar ali. Podia ouvir. Podia abraçar. Podia fazer uma criança acreditar, nem que fosse por algumas horas, que existia alguém disposto a protegê-la. Naquela manhã, cheguei cedo ao lar. Assim que entrei, ouvi as vozes das crianças vindo do corredor. Uma delas correu na minha direção e se jogou nos meus braços antes mesmo que eu conseguisse colocar a bolsa sobre a mesa. Eu ri e a abracei forte. — Bom dia, meu amor. — Você demorou! — Eu cheguei no horário. — Mas eu queria você antes. — Então da próxima vez eu vou dormir aqui. Ela abriu um sorriso enorme. — Promete? — Prometo. Outra criança apareceu logo depois, segurando um desenho nas mãos. — Cibele, olha o que eu fiz! Peguei o papel e me agachei para ficar na altura dela. — Meu Deus, que lindo! Foi você que desenhou? Ela assentiu toda orgulhosa. — Sou eu e você. Olhei para o desenho cheio de riscos coloridos e duas figuras de mãos dadas. — Então eu vou guardar. — De verdade? — De verdade. Ela sorriu e saiu correndo. Momentos como aquele faziam tudo valer a pena. Eu sabia que o lugar não era perfeito. Sabia que existiam problemas, faltavam recursos e que muitas vezes precisávamos pedir ajuda para conseguir coisas básicas. Mas as crianças precisavam de alguém que não desistisse delas. E eu não pretendia desistir. Passei a manhã ajudando com as atividades, organizando algumas coisas e conversando com a equipe. Também precisei resolver alguns assuntos que tinham ficado pendentes no dia anterior. Quando finalmente terminei, percebi que precisava passar em uma farmácia. Eu estava com uma pequena lista de medicamentos e alguns produtos que precisávamos no lar. Peguei minha bolsa e saí. Eu ainda estava pensando em uma das crianças quando entrei na farmácia. Foi então que percebi uma garota parada diante do balcão. Ela estava contando dinheiro. Uma nota. Depois outra. Algumas moedas. Contou novamente. A atendente esperava pacientemente, mas dava para perceber que a garota estava nervosa. Ela tinha os cabelos loiros presos de qualquer maneira, roupas largas e simples, e parecia ter vindo de algum lugar onde não havia sequer tempo para se preocupar com aparência. A primeira coisa que notei, porém, foi o jeito como ela segurava uma das pernas. Ela estava mancando. Parei alguns metros distante e observei. A garota contou o dinheiro mais uma vez. — É só isso? A atendente respondeu alguma coisa que não consegui ouvir direito. A garota baixou os olhos. — Quanto falta? Ela recebeu a resposta e começou a procurar moedas dentro do bolso. — Eu tenho mais essas. Colocou algumas moedas sobre o balcão. A atendente contou. Ainda faltava. A garota respirou fundo. — Eu posso levar só um? Fiquei olhando. Ela parecia tão constrangida que aquilo me apertou o peito. Aproximei-me. — Quanto falta? Ela virou o rosto rapidamente. Os olhos castanhos encontraram os meus. E eu não sei explicar por quê, mas aquela expressão me marcou. Ela estava assustada. Não era apenas vergonha por não ter dinheiro. Era medo. Um medo que parecia morar dentro dela. — Nada — respondeu baixinho. — Eu ouvi que está faltando dinheiro. — Eu consigo. — Quanto falta? Ela ficou em silêncio. A atendente respondeu por ela. Olhei para o medicamento. Era algo simples para dor e inflamação. — Pode colocar junto com as minhas coisas. A garota imediatamente balançou a cabeça. — Não. — Não o quê? — Eu posso pagar. — Você acabou de dizer que não tem dinheiro suficiente. Ela apertou as notas entre os dedos. — Eu vou conseguir. — Não precisa. — Precisa, sim. — Não precisa. Ela parecia ainda mais desconfortável. — Eu não quero dar trabalho. Aquela frase me chamou atenção. Eu sorri de leve. — Você não está dando trabalho. Ela não respondeu. Olhei para o pé dela. — Está machucado? Ela rapidamente puxou a calça para esconder um pouco. — Não. — Você está mancando. — Eu tô bem. — Não está. Ela ficou em silêncio. Peguei o medicamento e coloquei junto das minhas compras. — Pronto. Ela me olhou. — Quanto eu te devo? — Nada. — Mas… — Não tem mas. Ela abaixou a cabeça. — Obrigada. — De nada. Peguei minha bolsa, mas não consegui simplesmente ir embora. Havia alguma coisa naquela garota que me deixava inquieta. Talvez fosse o jeito de falar. Talvez fosse a maneira como ela parecia pedir desculpas até quando não tinha feito nada. Ou talvez fosse o fato de eu reconhecer aquele tipo de olhar. Era o olhar de alguém que tinha aprendido a sobreviver sem esperar ajuda de ninguém. — Qual seu nome? Ela hesitou. — Elisa. — Elisa, eu sou Cibele. Ela fez um pequeno movimento com a cabeça. — Prazer. — Você mora por aqui? — Moro. — Com sua família? Ela demorou. — Com meu pai. — E ele está onde? O olhar dela caiu para o chão. — Eu não sei. Franzi a testa. — Como assim? — Ele saiu. — Quando? — Ontem. — E não voltou? Ela negou. Fiquei alguns segundos em silêncio. — Você procurou por ele? — Procurei. — Alguém sabe onde ele está? — Não. — Você tem algum outro familiar? Ela balançou a cabeça. — Não. A resposta foi tão simples que doeu. — Então você está sozinha? Ela apertou o remédio entre as mãos. — Eu acho que sim. Aquela frase me fez sentir um aperto no peito. Eu tinha vinte anos e sabia que era jovem, mas Elisa também tinha a minha idade. E, mesmo assim, parecia carregar uma vida inteira nas costas. Eu olhei novamente para suas roupas largas, para o rosto sem maquiagem, para os cabelos presos de qualquer jeito. Ela era bonita. Muito bonita, na verdade. Só que parecia não fazer a menor ideia disso. Havia uma delicadeza no rosto dela que contrastava com as mãos machucadas e com a sujeira nas roupas. Ela não parecia alguém acostumada a receber elogios. Muito menos atenção. — Quantos anos você tem? — Vinte. Arregalei os olhos. — Vinte? Ela assentiu. — Eu também. Ela me olhou rapidamente. — É? — É. Um pequeno sorriso apareceu no rosto dela. Foi tão discreto que quase passou despercebido. — Você trabalha? Ela abaixou os olhos. — No lixão. Eu fiquei alguns segundos sem saber o que responder. — Sozinha? — Com meu pai. — E hoje? — Hoje fui sozinha. — Por causa do pé? Ela ficou quieta. Entendi. — Você foi trabalhar machucada? — Eu precisava. — Por quê? Ela me olhou como se a pergunta fosse óbvia. — Se eu não trabalhar, não tenho dinheiro. Aquilo me atingiu. Eu sabia que a comunidade tinha pessoas vivendo em situações muito difíceis. Conhecia a pobreza de perto. Mas havia uma diferença entre saber que existia e olhar nos olhos de alguém que estava vivendo aquilo. — Você comeu hoje? Ela ficou em silêncio. A resposta estava ali. — Elisa. — Um pouco. — O que você comeu? — Pão. Meu coração apertou. — Você tem comida em casa? Ela desviou o olhar. — Tem alguma coisa. Não tinha. Eu sabia. Ela sabia. Nós duas sabíamos. Respirei fundo. — Você vai voltar para casa agora? — Vou. — Sozinha? Ela assentiu. Olhei para o pé machucado. — Eu vou com você. Ela imediatamente negou. — Não precisa. — Precisa, sim. — Eu sei ir. — Eu não disse que você não sabe. — Então… — Então eu vou com você porque quero. Ela ficou em silêncio. — Não quero incomodar. — Você não incomoda. — Mas… — Elisa, eu só quero ter certeza de que você vai chegar bem. Ela me encarou por alguns segundos. Parecia estar tentando entender por que eu faria aquilo. Talvez ninguém tivesse feito algo simplesmente porque queria ajudá-la. Finalmente, ela assentiu. — Tá bom. Saímos juntas da farmácia. Caminhei no ritmo dela. Ela mancava discretamente, tentando esconder a dor. — Está doendo muito? — Um pouco. — Você caiu? Ela ficou quieta. — Foi alguma coisa no trabalho? — Mais ou menos. — Mais ou menos? Ela respirou fundo. — Eu fui atropelada. Parei de andar. — Você foi atropelada? Ela assentiu. — Quando? — Ontem. — E você não foi ao médico? — Não. — Nem procurou ajuda? — Não. — Elisa! Ela se assustou com o tom da minha voz. Eu suavizei imediatamente. — Desculpa. É que… você poderia ter se machucado muito. Ela baixou os olhos. — Eu sei. — Quem te atropelou? — Um homem de moto. — Ele ficou? — Ficou um pouco. — Te ajudou? Ela pensou. — Tentou. — E depois? — Foi embora. — Você sabe quem ele é? Ela negou. — Nunca tinha visto. Continuei andando ao lado dela. Eu ainda não sabia que aquela informação teria importância mais tarde. Não sabia que o homem que tinha atropelado Elisa era alguém que eu conhecia muito bem. Meu irmão. Carlos. Caveira. O homem que comandava o Complexo. Eu ainda não sabia de nada disso. Só sabia que havia uma garota de vinte anos caminhando ao meu lado, com o pé machucado, sem dinheiro, sem comida e sem saber onde o próprio pai estava. E, naquele momento, alguma coisa dentro de mim dizia que eu não deveria deixá-la sozinha. Enquanto caminhávamos, tentei puxar conversa. — Você sempre morou aqui? — Sim. — Nunca saiu daqui? Ela balançou a cabeça. — Quase nunca. — Nunca foi ao centro? À praia? Ao shopping? Ela me olhou como se eu tivesse perguntado algo absurdo. — Não. — Nenhum desses lugares? — Não. Eu fiquei surpresa. — Você nunca foi ao shopping? — Não. — Praia? — Não. — Cinema? Ela negou. Eu não consegui esconder a expressão de choque. Ela ficou sem graça. — É estranho? — Não. Sorri. — Só estou surpresa. Ela continuou andando. — Eu não tenho dinheiro para essas coisas. — Nem sempre precisa de dinheiro para tudo. Ela me olhou. — Precisa, sim. Eu queria dizer que não. Mas, olhando para ela, percebi que seria injusto. Para Elisa, dinheiro realmente era a diferença entre comer ou não comer. Entre ter remédio ou suportar a dor. Entre ter uma oportunidade ou continuar exatamente onde estava. Chegamos a uma parte da comunidade onde as casas ficavam cada vez mais simples. Eu olhei ao redor. Meu coração apertou. — Você mora aqui? Ela apontou para uma pequena casa mais à frente. — Ali. Olhei para a porta. Depois para ela. Ainda não sabia que, ao atravessá-la, eu descobriria uma realidade que me faria tomar uma decisão. Eu só sabia que Elisa precisava de ajuda. E, pela primeira vez desde que a conheci, tive certeza de uma coisa. Eu não iria simplesmente dar aquele remédio e ir embora. Eu queria saber quem ela era. E, principalmente, queria descobrir por que uma garota tão jovem parecia ter passado a vida inteira aprendendo a sobreviver sozinha.
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