Ciclo infinito
É errado desejar a morte só porque o meu despertador toca?
Todas as manhãs, tenho vontade de jogar essa porcaria contra a parede, mas contenho a minha raiva porque é ela que me acorda e para trazer sustento para a casa.
Levanto da cama e sinto uma dor aguda no peito.
Ontem, meu pai bebeu um pouco demais, como sempre. Chegou em casa bravo por perder uma aposta e descontou em mim.
Aguentei tudo, todos os insultos e tapas, até que ele desmaiou bêbado no sofá e eu me arrastei para o meu quarto, segurando as lágrimas.
Agora olho-me no espelho e vejo o enorme hematoma no meu abdômen e nas costelas.
Respiro fundo, enojada com a minha fraqueza, por me submeter a isso sem reagir.
Entro no chuveiro e lavo o meu cabelo castanho, que cai como uma cortina sobre as minhas costas e peito.
Quando saio do chuveiro, simplesmente penteio o cabelo e visto o meu uniforme do hotel.
Trabalho como recepcionista no King Palace. Comecei lá como aprendiz e, no próximo mês, serei promovida a coordenadora de recepção.
Também estou quase concluindo a faculdade de Direito, que comecei cedo por ordem judicial.
Tenho orgulho disso, de poder controlar pelo menos uma coisa na minha vida.
Desço para a sala e encontro meu pai ainda caído no sofá. Sinto o cheiro da bebida dele de longe, assim como sinto o cheiro de vômito perto do sofá.
Fecho a mão em punho e saio de casa, batendo a porta da entrada com força.
Que se dane ele.
A caminhada até o trabalho é tranquila; sempre chego meia hora mais cedo para verificar o sistema de informações de hóspedes.
Assim que assumo meu lugar na recepção, Jorge, o gerente, se aproxima com seu sorriso de sempre.
"Bom dia, Lily", diz ele, encostado no balcão vazio.
Jorge sempre foi legal comigo, não porque seja assim por natureza, mas porque quer me levar para a cama como já fez com metade das garotas do hotel.
"Bom dia", respondo com o mesmo carinho que ele me oferece.
"Então, quais são seus planos para o fim de semana?", pergunta ele, esperando uma chance.
"Tenho um trabalho da faculdade para terminar", a mentira escapa facilmente da minha boca.
"Que pena, eu estava pensando em te convidar para uma boate nova que abriu no centro da cidade." Jorge sempre tem lugares novos para me levar.
O convite mais estranho que ele já me fez foi quando me convidou para ir ao zoológico com ele e a mãe.
"Na próxima vez", digo com um sorriso triste.
"Como em todos os outros encontros, Jorge, ou você ainda não percebeu que ela não quer sair com você?", pergunta Andreia, aproximando-se de nós.
Andy é minha melhor amiga e tem uma boca do tamanho do mundo. Ela é o tipo de pessoa que fala sem pensar ou que simplesmente não se importa.
"Andy, não fale assim", digo, fazendo uma careta para ela antes de me virar para Jorge novamente. "Jorge, não é nada disso, eu realmente preciso terminar isso neste fim de semana."
Andy bufa atrás de mim, e eu piso forte em seu pé.
"Tudo bem", responde Jorge desconcertado e nos deixa.
Quando Jorge se afasta, noto um leve sorriso em Andy e reviro os olhos.
"Ajudaria se eu pedisse para você pelo menos pensar antes de falar ou guardar as suas opiniões para si mesma?", pergunto, mesmo já sabendo a resposta.
"Você sabe que não, Lily", diz ela com um sorriso irônico.
"Vamos trabalhar", digo, sabendo que é uma batalha perdida.
O dia de trabalho é exaustivo; meu turno é das seis da manhã às seis da noite.
Hoje tivemos um evento no hotel, o que significa mais trabalho para mim. Só me resta meia hora de turno e ainda há dez hóspedes para serem direcionados até os seus quartos.
"Senhor, preciso da sua identidade", digo ao homem elegante de terno à minha frente.
Ele parece ter quase 2,00 m de altura, os músculos dos braços praticamente saltando do tecido do terno.
Eu poderia passar o dia inteiro olhando para o rosto dele, para o formato da barba bem cuidada ou passando as mãos pelos cabelos dele.
Foco, Lilian, foco.
Ele me entrega sua identidade, e eu leio seu nome enquanto preencho as informações no sistema.
Leonardo Bianchi.
Contenho o tremor em minhas mãos para que ele não perceba que me intimida.
Todos na cidade conhecem a reputação de Leonardo; afinal, ele é dono da maior parte das terras aqui, assim como dos negócios e das pessoas.
Além de ser o Don da Máfia.
Sua reputação não é boa; contrariá-lo nunca é uma escolha sábia, a menos que você queira ir para o inferno mais cedo.
"Obrigada", respondo, devolvendo-lhe sua identidade.
Vejo um meio sorriso em seus lábios, assim como seu olhar em meu rosto.
"Obrigada, Lilian", ele responde.
Meu nome em seus lábios me causa um arrepio na espinha, que vai direto para a virilha.
Não consigo desviar o olhar enquanto ele caminha em direção ao elevador, e juro que, quando ele entra na caixa de metal, seus olhos estão fixos em mim.
Percebo que estava prendendo a respiração quando nosso contato visual se rompe e meu coração volta a bater normalmente.
"Achei que íamos morrer", diz Andy com um tom agudo de medo.
"Não foi você quem atendeu ele", respondo irritada.
"El diablo", diz Andy, tentando me assustar.
Apelido de Leonardo Bianchi, o próprio di@bo.
Meu turno finalmente termina e preciso correr para a faculdade.
A minha rotina se resume a trabalhar, estudar e aturar meu pai bêbado.
Já me perguntei inúmeras vezes por que ainda não fui embora? Por que simplesmente não o abandonei?
E todas as vezes a resposta é a mesma: Porque me recuso a ser como minha mãe.
Ela me abandonou quando eu tinha sete anos, saiu de casa um dia sem olhar para trás e começou uma nova família.
Desde aquele dia, ela não me ligou nem me procurou mais. Ela simplesmente me apagou da vida dela como uma praga e me deixou com meu pai.
Foi difícil no começo, mas meu pai tentou, até perder o emprego há cinco anos. Desde então, ele se endividou, bebeu e as agressões, os abusos verbais, os tapas e, em seguida, as surras começaram.
E no dia seguinte, ele sempre se desculpava e prometia mudar.
E eu acreditava nele; afinal, ele é meu pai.
Hoje em dia, deixá-lo seria como jogar a última pá de terra em seu caixão, e não quero isso na minha consciência.
A aula de direito penal é a minha favorita e a área que seguirei. Hoje, o professor nos deixou simular um julgamento, corrigindo nossos erros e nos instruindo durante a acusação e a defesa.
Quando chega a hora de ir embora, toda a minha empolgação desaparece. Ter que voltar para casa me deprime. Encontrar a casa em desordem e meu pai bêbado não é nada convidativo.
Assim que entro em casa, um copo explode na parede ao meu lado e sinto minha bochecha sendo arranhada.
"Sua vagabunda, onde você estava até agora?" A fala arrastada do meu pai sugere que ele já está bêbado.
"Eu estava trabalhando e depois fui para a faculdade", respondo, desviando dos cacos espalhados pelo chão.
"Trabalhando", ele zomba de mim, parado em frente à escada, bloqueando meu caminho. "Como você pode trabalhar tanto e não ter dinheiro?"
Fecho os punhos e cravo as unhas nas palmas.
"Ou você está gastando seu dinheiro com homens?" Desta vez, suas palavras saem mais raivosas. "Você é uma prostituta como sua mãe?"
Desta vez, perco a paciência.
"Não me compare a ela", grito para ele. "Na verdade, não me compare a nenhum de vocês."
Meu pai fica surpreso com o meu desabafo.
"E o que eu faço com o meu dinheiro é problema meu", grito para ele, empurrando-o para longe da escada.
Consigo subir os dois primeiros degraus antes que ele envolva os dedos nos meus cabelos e me puxe.
Bato as costas no chão, tirando todo o ar dos meus pulmões.
"Vou te ensinar a respeitar seu pai, te ensinar quem manda nesta casa", ele grita antes de me chutar.
Protejo a minha cabeça enquanto ele me bate. Não sei quanto tempo dura, mas quando acaba, minha boca está sangrando e meu corpo dói.
Meu pai me deixa sozinha no chão e sai de casa, provavelmente para voltar a beber.
Fico deitada no chão por um longo tempo, com lágrimas escorrendo pelo meu rosto, e sinto-me exausta desta vida.
Subo as escadas lentamente para o meu quarto, as minhas costelas doendo tanto que acho que estão quebradas.
Deito-me na cama, sem conseguir tomar banho, com um soluço escapando dos meus lábios enquanto olho para a foto na cômoda ao lado da cama.
Odeio essa foto; não suporto o fato de que tudo nela seja mentira.
O casal sorridente, a filha que parece estar rindo, mas, acima de tudo, odeio que eles eram uma família feliz.
Tudo sempre foi uma mentira, especialmente o amor deles por mim.