A governanta cumpre sua promessa e me acorda na hora marcada.
No tempo livre que eu tinha antes de ela me arrastar para um tour pela casa, consegui escovar os dentes e arrumar o cabelo.
Carmen me apresentou a todos e me mostrou os lugares onde eu podia e não podia ir.
A única tarefa que Carmen me designou foi limpar o escritório de Leonardo.
Eu sei que ele tem influência nessas tarefas, mas não reclamo. Se o plano dele era me deixar nervosa por estar em seu escritório, não funcionou.
Ter acesso ao escritório dele facilitará minha fuga e me dará informações que posso usar contra ele.
"Senhorita Zenatti, sua reunião com o Sr. Bianchi começará em cinco minutos", anuncia Carmen, me tirando do meu devaneio.
Estou sentada na cozinha descascando batatas para o almoço, perdida em pensamentos.
Hoje é domingo, eu estaria fazendo algo com Andy, mas agora nem telefone eu tenho.
"Certo", respondo e vou lavar as mãos.
Meu corpo dói, minha cabeça lateja e sinto como se minhas costelas estivessem em chamas.
Caminho lentamente até o escritório, sabendo que meu atraso só o irritará ainda mais.
Bato na porta e ouço sua breve autorização. Ao entrar na sala, vejo o mesmo homem de ontem sentado em frente à mesa de Leonardo.
“Senhorita Zenatti, é um prazer conhecê-la. Meu nome é Marco”, apresenta-se o homem formalmente.
Olho para sua mão estendida e a ignoro.
“Não precisamos de formalidades. Você é o capacho de Leonardo e eu sou sua prisioneira, então tenho certeza de que nos veremos muitas vezes para nos tratarmos assim”, digo em tom impassível.
Marco sorri para mim e então se vira para Leonardo, que nos observa com divertimento.
“Gosto dela”, diz Marco, e reviro os olhos.
Como se eu precisasse da aprovação dele. Idiot@.
“Lilian, precisamos estabelecer algumas regras”, começa Leonardo, sério. “Sente-se.”
Marco é um cavalheiro; puxa uma cadeira para mim e se senta também.
“Essas regras servirão tanto para sua proteção quanto para a convivência nesta casa”, começa Leonardo, e então me olha friamente. “Lembre-se de que estou sendo caridoso ao deixá-la aqui até que se recupere completamente.”
Não consigo conter o riso que escapa da minha boca.
“Caridoso?”, pergunto, enxugando uma lágrima que escorre pelo meu rosto de tanto rir.
Marco me encara e depois olha para Leonardo; parece surpreso que alguém tenha coragem suficiente para desafiá-lo.
Bem, se eu sobreviver a este momento, eles terão que se acostumar.
“Por favor, me diga, Sr. Bianchi, onde foi parar sua caridade quando me arrastou de casa e me levou para uma boate?”, pergunto, cínica.
“Você teria preferido ficar com aquele alcoólatra e abusador de merda?” Leonardo me pergunta friamente, apoiando os braços na mesa para se aproximar de mim.
Engulo em seco, sentindo o impacto de suas palavras.
“Você sabia que ele chegou a oferecer a sua virgindade em mesas de jogo?” Leonardo diz com uma voz sombria. “Imagine, ser acordada no meio da noite porque seu pai vendeu o corpo da filha só para comprar mais bebida.”
Minha compostura se desfaz, aquele velho maldito.
“Então, passarinho, entenda minha caridade para com você e seja grata por estar aqui”, suas palavras são como um soco no estômago. “Agora escute com atenção o que Marco tem a dizer.”
Me viro para o amigo de Leonardo, e ele começa a me dar uma série de regras sem importância, principalmente sobre não interferir na administração da casa ou dos negócios.
“Agora posso ir?” pergunto, atônita.
Meu pai estava prestes a me prostituir, a me destruir da pior maneira possível.
Ele alguma vez me considerou sua filha?
“Você vai sair com a gente agora. Tenho algumas coisas para resolver e vou te deixar no centro com o Marco para vocês irem às compras”, Leonardo me informa.
Olho para os dois e me remexo desconfortavelmente.
“Quanto isso vai custar?” Nada nesta vida é de graça, especialmente quando se está lidando com o próprio di@bo.
“Acho que você ainda não entendeu a sua posição aqui, passarinho”, diz Leonardo, e eu o encaro confusa.
“Então me explique, Sr. Bianchi”, digo irritada.
Odeio ser a última a saber das coisas, não entender o quadro completo ou ser feita de idiot@, que é como me sinto nesse exato momento.
“A dívida do seu pai foi paga. Ele me deu você e, em troca, eu quitei a dívida dele”, ele explica simplesmente. “Então você não me deve nada. Tudo o que eu faço ou te dou é porque me pertence.”
Suas palavras chegam aos meus ouvidos, e levo um instante para ter certeza de que entendi perfeitamente.
"Você está me dizendo que não tenho mais controle sobre mim mesma, que você pode fazer o que quiser comigo, com o meu corpo, e eu não vou poder reclamar?", pergunto um pouco rápido demais.
Leonardo se recosta na cadeira e cruza os braços.
"Exatamente, você é minha para eu destruir ou venerar como quiser", diz ele, sombriamente.
"Vai se f0der", digo e me levanto.
Marco, que está ao meu lado, fica surpreso com a minha explosão, ao contrário de Leonardo, que acha engraçado.
E isso me irrita ainda mais.
"Eu sou uma pessoa, tenho uma vida, uma faculdade, um emprego e amigos", grito, precisando tirar isso do meu peito. "Você não tem o direito de tirar isso de mim, de roubar a minha vida."
O olhar zombeteiro de Leonardo enquanto ele ouve só me faz ferver ainda mais.
"Se você pensa que vai me fazer sua escrava, está enganado. Eu te mato, Leonardo Bianchi, juro por Deus que te mato antes de me submeter aos seus joguinhos", grito para ele com raiva.
Me viro para sair, dou alguns passos e toco na maçaneta antes que uma mão feche em meu pulso.
Leonardo diminui a distância entre nós rapidamente, me puxa para si e agarra meu queixo com força.
"Repita isso, passarinho", diz ele, olhando diretamente nos meus olhos.
Vejo raiva nele, mas misturada com desejo, e não me surpreenderia se visse o mesmo nos meus olhos agora.
"Eu juro que te mato se você ousar pensar que tem algum poder sobre mim ou que sou obrigada a fazer alguma coisa só porque você acha que me possui", digo com voz fria.
Leonardo examina meu rosto antes de me pressionar contra a parede de seu escritório. Sua mão, que estava em meu queixo, desce até meu pescoço.
Ele se aproxima lentamente do meu ouvido.
"Não teste minha paciência, passarinho", sussurra ele. "Posso te mostrar um lado meu que você não vai gostar."
Eu rio de suas palavras e aproximo minha boca de seu ouvido.
"E quem disse que eu gosto dessa sua versão atual?", respondo no mesmo tom.
Sua mão em meu pescoço aperta, e sinto minha respiração falhar.
"Devo te lembrar do quarto que preparei para você no porão?", diz ele, e eu estremeço.
Minha visão fica turva pela falta de ar, e arranho as mãos de Leonardo, ofegando.
"Te lembrar que eu posso simplesmente te matar porque ninguém mais neste mundo se importa com você?" Suas palavras atingem o alvo desejado.
Lágrimas brotam em meus olhos, e deixo minhas mãos caírem.
Se eu morrer, como ele disse, ninguém vai se importar.
Leonardo percebe o que estou fazendo e me solta. Caio de joelhos no chão, ofegando desesperadamente.
Ele se agacha na minha frente, seus olhos frios me encarando.
"Desrespeite-me de novo, passarinho, e eu lhe darei um motivo de verdade para desejar a morte." Sua ameaça me faz estremecer; ele não está mentindo.