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1238 Words
O silêncio na sala ficou mais pesado depois da pergunta dela. “Se quiser… sim.” A frase de Dorian não se repetia na mente de Luna como conforto. Ela girava, batia, voltava como um eco incompleto. Marta se aproximou devagar e ajustou a manta sobre o ombro de Theo, que ainda dormia profundamente, alheio a tudo. — Vou trazer comida — disse ela, simples. — E roupa seca. Luna não respondeu. Os homens continuavam espalhados pela sala, mas agora menos rígidos. Um encostado na parede, outro perto da lareira, como se já estivessem acostumados com aquela posição de vigia. Dorian saiu da sala sem avisar. Isso a deixou mais inquieta do que qualquer olhar. Minutos depois, Marta voltou com uma bandeja. Pão, sopa quente, uma garrafa térmica. O cheiro fez o estômago de Luna reagir imediatamente — dolorido, quase humilhante. — Come um pouco — Marta colocou a bandeja na mesa baixa. — Você não precisa confiar em ninguém aqui agora. Só precisa não desmaiar. Luna soltou uma risada curta, sem humor. — Fácil pra você falar. Marta não se ofendeu. Só sentou numa poltrona próxima. — Você acha que isso aqui é o quê? Luna apertou mais o menino contra si. — Eu não sei. — Justo. O silêncio voltou, mas dessa vez menos hostil. Luna olhou para a sopa. A mão tremia levemente. Ela não lembrava da última vez que tinha comido sem pressa. Sem medo. Sem olhar por cima do ombro. Quando levou a colher à boca, o calor quase a fez fechar os olhos. Quase. Mas não fechou. Porque alguma coisa dentro dela ainda gritava que aquilo era perigoso demais para relaxar. Do outro lado da sala, um dos homens falou baixo: — Ela tá com medo de nós. Outro respondeu: — Ela deveria. Luna ouviu. E o estômago dela afundou. Marta levantou o olhar na direção deles, cortante. — Não ajuda. A frase foi simples, mas encerrou a conversa. Nesse momento, a porta da sala voltou a abrir. Dorian entrou. Molhado na ponta do casaco, como se tivesse saído na chuva de novo. Os olhos dele foram direto para Luna. Depois para o menino. E então para a sopa quase intocada. — Comeu pouco — ele observou. — Eu não tô aqui pra passar avaliação — Luna respondeu mais rápido do que deveria. O ar na sala ficou mais tenso. Dorian não se ofendeu. Só deu mais um passo para dentro. — Ninguém tá te avaliando. Ele parou a alguns metros dela. — Eu fui olhar o perímetro. Essa casa não é fácil de achar… mas não é impossível. A palavra “perímetro” fez Luna apertar ainda mais a manta. — Por que eu estaria em perigo? — ela perguntou. Dorian demorou um segundo. — Porque alguém pode estar te procurando. O mundo dela pareceu perder o eixo por meio segundo. — Eu não tenho ninguém — ela respondeu, imediata. Mas a resposta saiu mais defensiva do que verdadeira. Dorian percebeu. E não insistiu. — Então melhor ainda — ele disse, num tom baixo. — Aqui ninguém vai te achar por acidente. A frase deveria tranquilizar. Mas fez o contrário. Luna segurou o menino com mais força. Theo se mexeu um pouco, resmungando no sono, e virou o rosto contra o peito dela. E foi nesse gesto pequeno que Dorian mudou o foco totalmente. A expressão dele ficou mais fechada. Mais… controlada. — Ele vai dormir em um quarto — disse. Luna levantou o olhar na hora. — Não. Simples. Instintivo. Marta se levantou um pouco, como se já esperasse essa reação. Dorian não avançou. — Ele precisa de calor de verdade, cama, descanso. — Ele tem isso comigo — a voz dela endureceu. — Ele fica comigo. Silêncio. Os homens na sala trocaram olhares rápidos, mas ninguém falou. Dorian respirou devagar. — Tá. Só isso. Sem discussão. Sem pressão. Mas antes de virar o rosto, ele completou: — Pelo menos… fica aqui essa noite. Nós não vamos te separar dele. Essa última frase não soou como promessa. Soou como regra que ele estava escolhendo obedecer por algum motivo. E isso foi ainda mais inquietante. Luna olhou ao redor da casa mais uma vez. Quente demais. Segura demais. Organizada demais. E, no fundo dela, uma certeza incômoda começou a nascer: Ela não tinha sido levada por acaso. E aquela “segurança” podia ter um preço que ainda não tinha sido dito. Marta subiu na frente, iluminando o corredor com uma luz baixa que vinha das arandelas na parede. — Aqui — ela abriu uma porta no fim do corredor. O quarto era simples, mas quente. Cama grande, lençóis claros, uma poltrona perto da janela e uma luz suave no teto. Não parecia um quarto improvisado… parecia um lugar preparado. Luna entrou devagar, ainda com Theo no colo. Marta observou em silêncio por um instante. — Quer que eu traga mais coberta? — Não — Luna respondeu rápido. — Tá bom assim. Marta assentiu. — Qualquer coisa, me chama. Ela saiu e fechou a porta sem trancar. Esse detalhe não passou despercebido por Luna. Ela sentou na beira da cama, ajustando Theo contra o peito. O menino resmungou baixinho, mas não acordou. Ela passou a mão no cabelo dele com cuidado, como se aquilo fosse a única coisa real naquele lugar inteiro. Enquanto isso, lá embaixo… A sala parecia menor agora. Os cinco homens estavam distribuídos como antes, mas a atmosfera tinha mudado. Menos foco nela… mais entre eles. Um deles, encostado no sofá, falou primeiro: — Aquela mulher… não me é estranha. Outro respondeu sem tirar os olhos da lareira: — Não é “não me é estranha”. É pior. Dorian permaneceu em silêncio por alguns segundos. Depois falou, baixo: — Eu também senti. Um terceiro franziu o cenho. — Sentiu o quê? Dorian finalmente olhou para eles. — Que a gente já viu ela antes. O silêncio ficou mais pesado. Um dos homens soltou uma risada curta, sem humor. — Isso não faz sentido. Se a gente tivesse visto, a gente lembraria. — Eu lembro — Dorian respondeu. Isso fez o ambiente endurecer. Outro homem cruzou os braços. — Fala logo. Dorian passou a mão na mandíbula, como se estivesse tentando puxar uma memória antiga, enterrada. — Não dela… exatamente. Do menino. Silêncio total. Ele continuou: — O rosto dele… eu tenho certeza que já vi. Um dos outros se inclinou levemente. — Onde? Dorian hesitou. — Isso é o problema. Não é uma lembrança clara. É… institucional. Arquivo. Relatório. Alguma coisa antiga. A palavra “institucional” fez o clima mudar de novo. Marta, que estava no canto da sala, estreitou o olhar. — Vocês estão me dizendo que trouxeram uma mulher com uma criança pra dentro dessa casa sem saber quem ela é? — Não — Dorian respondeu. — Eu tô dizendo que não foi coincidência. O silêncio voltou, agora mais denso. Lá em cima, Luna ajeitava Theo na cama pela primeira vez. E lá embaixo, alguém completou, num tom baixo demais: — Ou alguém nos trouxe até ela. Dorian não respondeu. Mas a forma como os olhos dele ficaram fixos na escada dizia tudo. Porque agora já não era só sobre proteger uma mulher desconhecida. Era sobre lembrar por que, no fundo, todos eles sentiram o mesmo desconforto ao vê-la na rua. Como se aquela noite… tivesse sido preparada muito antes da chuva começar.
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