3

1010 Words
Na manhã seguinte, a casa ainda parecia a mesma… mas nada ali estava igual. A chuva tinha parado, deixando apenas o peso úmido no ar e um silêncio estranho, como se o mundo tivesse esquecido de acordar completamente. Marta foi a primeira a subir. Ela bateu de leve na porta antes de entrar. — Luna? Quando abriu, encontrou a cena que já esperava… e ainda assim, a fez parar por um segundo. Luna estava sentada na cama com Theo no colo, protegendo ele como se o próprio corpo fosse um escudo. O menino ainda estava sonolento, os cabelos pretos e lisos levemente bagunçados, a respiração mais calma agora. Marta entrou com uma muda de roupa dobrada. — Trouxe pra vocês dois. Luna levantou o olhar devagar. — Obrigada… A voz saiu baixa. Cansada. Ainda em alerta. Marta deixou as roupas sobre a cadeira. — Tem banheiro ali. Água quente. Sem pressa. E saiu. Luna ficou alguns segundos só olhando a porta fechada. Depois suspirou. — Vem, filho… Theo mexeu o rosto contra ela. — Mama… onde estamos? A pergunta veio simples. Pequena. Mas acertou nela de um jeito forte. Luna passou a mão no cabelo dele, tentando manter a voz firme. — Tá tudo bem, meu amor. Fica quietinho, tá? Vê TV aqui um pouquinho. Mamãe vai tomar banho rápido. Ele não pareceu completamente convencido… mas assentiu. Ela o colocou no sofá do quarto com cuidado, ligou a televisão em volume baixo e entrou no banheiro. O som da água quente preencheu o ambiente. E pela primeira vez em dias… ela respirou sem tremor. --- Minutos depois, Luna saiu. O vestido simples que Marta tinha deixado caía perfeitamente nela — como se aquela casa soubesse exatamente o tipo de presença que ela tinha. Magra, elegante, delicada… mas com olhos que não tinham nada de fragilidade real. Ela secou os cabelos lisos, penteou com pressa controlada, ajeitou o menino no colo e desceu as escadas. E foi aí que tudo parou. Os cinco homens estavam na sala. Como sempre. Mas agora… ninguém estava encostado relaxado. Estavam olhando. Direto. Sem disfarçar. E quando Luna apareceu no último degrau, com Theo agarrado nela… o impacto foi imediato. Um deles soltou, baixo, sem pensar: — c*****o… Theo se assustou no mesmo instante e apertou o pescoço dela. — Mama… — ele murmurou, nervoso. Luna apertou ele contra o peito na hora. — Tá tudo bem… tá tudo bem, filho… Marta veio rápido da cozinha. — Luna, preparei leite pra ele. Ela assentiu. Mas antes de aceitar, fez algo que chamou atenção de todos: pegou o copo, cheirou discretamente, esperou alguns segundos… e só então ofereceu. Os cinco homens perceberam. Não era exagero. Era sobrevivência. Theo bebeu o leite aos poucos. Depois comeu alguns biscoitos, ainda agarrado nela como se soltar fosse perigoso demais. Luna comeu devagar também, observando tudo ao redor antes de qualquer movimento. Quando terminou, Marta falou: — Vem, senta aqui. A sala inteira parecia esperar isso. Os homens abriram espaço. — Senta — um deles repetiu, mais firme. Luna hesitou… mas sentou. Theo imediatamente começou a chorar. — Não… não… mama não… ela vai me bater! O som cortou a sala inteira. Silêncio pesado. Luna apertou ele, os olhos fechando por um segundo de dor contida. — Shh… shh… tá tudo bem, filho… ninguém vai te machucar aqui. Os cinco homens ficaram imóveis. E então… ela falou. — Bom… — a voz dela saiu mais estável do que ela se sentia. — Eu me chamo Luna Pires. Silêncio. — Ex-esposa do bilionário Lucas Lopes. Os olhos de Dorian mudaram levemente. Ela continuou. — Eu era modelo. Estou afastada há quase um ano. Ela respirou fundo. — Eu estava na chuva porque ele disse que não queria mais sustentar nem a mim nem o meu filho. Um dos homens soltou o ar pelo nariz, lento. Luna não parou. — Ele roubou todo o dinheiro que eu tinha e me colocou na rua. Theo se mexeu no colo dela, inquieto. — Eu não tenho documentos para provar tudo isso… mas podem pesquisar meu nome. Vai aparecer. Ela engoliu seco. — Eu estava em abrigo. Mas uma noite tentaram me atacar lá… então eu fugi com ele. Silêncio mais pesado ainda. — Fiquei nas ruas depois disso. Os dedos dela apertaram o tecido do vestido. — Tenho família… mas meus pais já tentaram me vender várias vezes por causa da minha aparência. Um dos homens mexeu a mandíbula, como se aquilo tivesse batido errado nele. — Se eu voltar… eles vão tentar vender meu filho também. E me vender de novo. Theo se agarrou mais forte. Luna respirou fundo. — Ele acabou de fazer quatro anos. Ele tem três anos… e não sabe o que é ser criança. A voz dela falhou um pouco agora. — O pai dele… nunca deixou ele brincar. Nunca deixou correr. Eu vi ele ser arrastada… eu vi ele apanhar. O silêncio na sala virou algo perigoso. — No abrigo… eu também fui atacada. E ele viu tudo. Ela passou a mão no cabelo dele, tremendo levemente. — Obrigada por terem me tirado da rua ontem. Ela olhou para os cinco homens, um por um. — Eu não quero problemas. Eu vou trabalhar, vou pagar vocês pela comida, pela roupa… só me deixem ir quando for seguro. Theo soluçou baixinho no colo dela. E então… o primeiro dos cinco se levantou. Lento. Controlado. O segundo também. Depois o terceiro. Dorian ficou parado por um segundo a mais que os outros. E foi ele quem falou primeiro. — Ninguém vai te colocar na rua de novo. A frase não foi gentil. Foi absoluta. Os outros dois assentiram. Um deles completou, mais baixo, com uma fúria contida que finalmente escapava: — Se o que você disse for verdade… alguém vai pagar por tudo isso. O ar mudou. A sala inteira pareceu ficar mais fria… não de medo. De decisão. E Luna percebeu, com um arrepio lento subindo pela coluna, que o perigo não tinha acabado. Ele só tinha mudado de lado.
Free reading for new users
Scan code to download app
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Writer
  • chap_listContents
  • likeADD