Meu pai fazia um trajeto completamente desconhecido para mim, desde que acordei ele não me Perguntou nada sobre o que houve, sabia que eu diria nada para ele e nem para ninguém além do que já contei, esperar por justiça para aqueles miseráveis era algo completamente fora de cogitação, naqueles tempos não existia mais justiça para a qual recorrer era mais fácil o mundo acabar de vez.
Decidida a não falar nada para ninguém nem mesmo sobre Aníbal ser o pivô daquilo, papai estava sendo condescendente comigo na medida do possível procurava ter paciência e não hesitava em me agradar de todas as formas possíveis, eu sentia pena dele.
Quando vi que ele passou direto do beco onde morávamos eu olhei para ele e pressionei o seu braço.
__ Não se preocupe, vamos para casa, mas não mais aquela.
Casa, que outra casa tínhamos fora aquela ? sem entender o que ele queria dizer permaneci calada em meu canto a espera, se ele diz é por que sabe o que diz.
O carro parou em uma área mais nobre do subúrbio, ainda era favela mas não mais de submundo como a outra, uma casa toda rosa nos esperava, tinha até um jardim algumas pessoas esperavam na frente.
Fiquei confusa com aquela aglomeração na porta da casa, algumas daquelas pessoas eu reconheci tinha algumas vizinhas da antiga casa, os pais de Aníbal ao vê-lo sondo o lugar à procura dele mas ele não está lá, ao menos isso.
Meu pai como se adivinhasse o que eu estava pensando abre a porta do carro para mim dizendo
__ Todos tem nos ajudado muito minha filha, ganhamos essa casa com a ajuda do hospital eles cuidaram de tudo para que tivéssemos um lugar melhor, essas pessoas nos ajudaram com outras coisas, comida e móveis, graças a Deus e a eles não iremos precisar nos preocupar por um bom tempo até que você esteja bem.
Finjo que não escuto ele falar sobre Deus, sei que ele não tem nada a ver com aquilo e sim algumas pessoas de bom coração que se apiedaram da minha situação, desço do carro de cabeça erguida não tenho porque me envergonhar do que me aconteceu e nem vou aliás eu nem sei se essas pessoas sabem o que aconteceu de fato comigo não me preocupei em perguntar ao meu pai.
Todos me cumprimentam e desejam melhoras e saúde, não vejo nenhum com cara de nojo ou de pena ou muito menos me julgando então talvez não saibam da verdade afinal, entramos na casa e eu gosto do que vejo, a casa era pequena , maior que a outra e mais bem ajeitada também e bonita, Meu pai abre o pequeno portão de entrada que dá acesso é um Jardim com flores de boa noite, algumas espadas de São Jorge e outras plantas que não lembro bem o nome, um lugar bonito a outra eu teria adorado aquele lugar com certeza, a porta era de aço e pesada talvez meu pai achasse que eu precisava de mais segurança depois desse ataque, Lá dentro um sofá vermelho confortável estava colocado na sala, a sua frente um instante com alguns livros com algumas das minhas coisas da universidade e uma TV não tínhamos televisão na outra casa não podíamos comprar uma, tudo era novinho estava muito bem arrumado tinha também um tapete no chão o que dava um ar de elegância e conforto ao lugar as paredes estavam bem pintadas e não sujas e caindo os pedaços, uma pequena parede separava a sala da cozinha, uma mesa improvisada estava no meio dela feita de ferro retorcido como uma escultura medieval era bonito e grotesco ao mesmo tempo, duas bancadas pendiam dos lados da mesa, um armário embutido na parede parecia estar cheio de mantimentos e uma geladeira estreita estava do outro lado mais um item que não tínhamos antes, talvez o que me aconteceu tenha tido enfim algum sentido, é como dizem que há males que vem para o bem.
Tinham dois quartos, os dois tinham o mesmo tamanho, possuíam um guarda roupa embutido também e uma cama que parecia ser confortável, o banheiro era limpinho de cerâmica tinha um chuveiro nós não tínhamos chuveiro na outra casa tomávamos banho de bacia.
Quem projetou aquele lugar o fez pensando em mim com certeza, conhecia os meus gostos e sabia perfeitamente como eu imaginava um lugar para mim e meu pai, Papai não sabia desses meus gostos eu não conversava muito com ele sobre isso a única pessoa com quem falei era ele o traidor, o Judas que me beijou e me entregou para morrer Aníbal, passo não gostar daquele lugar assim que tenho aquele pensamento , Mas tudo bem eu não iria passar muito tempo ali assim que eu me recuperasse iria embora daquele maldito lugar.
__ Você viu minha querida, todos vieram te ver estavam preocupados com você, cada um nos deu um pouquinho do que tinha e agora você vai ficar em segurança aqui.
Escrevo obrigada no papel e mostro a papai para que ele repasse minha mensagem aos outros, a mãe de Aníbal diz
__ Ela não fala mesmo Antônio, nadinha de nada?
__ Nada, os médicos dizem que é psicológico devido ao trauma que ela passou e que logo ela vai voltar a falar quando se sentir segura novamente.
Ela olha para mim dessa vez com pena como se estivesse olhando para uma pessoa moribunda ou semi morta coisa que eu já não estava, escrevo no papel que vou para o meu quarto porque estou cansada ele disse isso para eles que se despedem e vão embora, fico aliviada não quero estar cercada de tanta gente assim, preciso ficar em paz e pensar.
__ Eva querida você está com fome?
Balança a cabeça negativamente e me dirijo para o quarto que ele apontou como sendo meu, minhas coisas já estão guardadas dentro do guarda roupa não são muitas afinal, noto alguns envelopes e apostilas que não me lembro de ter visto antes, papai então olha aí diz
__ Chegaram essas coisas para você do seu trabalho e de lá da sua escola, não se preocupe eles entenderam o que aconteceu e prometeram que assim que vocês tivessem bem dariam o seu trabalho de volta e quanto a escola também prometeram que você teria oportunidade de continuar estudando lá.
Olha para ele pensar como assim eu ainda tenho um trabalho e uma faculdade? Então nem tudo estava perdido afinal? Uma pontada de Esperança cresce dentro do meu peito, se eu ainda tenho um trabalho e uma faculdade aí as oportunidades de me vingar crescem junto com elas.
Pego os envelopes e leio um a um são todos e-mails e cartas do pessoal da faculdade e da empresa me desejando melhoras e me incentivando a não parar e a continuar.
Escrevo em um papel perguntando ao papai se todos sabem do que aconteceu comigo
__ Não minha filha, apenas Aníbal e os pais dele e os médicos lá no hospital, mas ninguém sabe o que aconteceu pode ser que desconfiem porque sabem muito bem o que as gangues fazem com as moças aqui nas comunidades, Mas não se preocupe minha filha, ninguém vai fazer m*l a você e nem apontar o dedo para você e dizer que você é uma moça desonrada e de uma família todos a conhecem muito bem não se preocupe.
Minha preocupação não era aquela, era que tentassem encontrar aqueles canalhas e que eu não pudesse me vingar, quanto a Aníbal eu queria perguntar ao meu pai porque ele não está por aqui, com certeza ele não contou que fez.
Escrevo no caderno “ Aníbal, cadê? “, E papai faz uma cara estranha e diz
__ É claro você não deve se lembrar, você fica agitada sempre que ele chega perto ou algum outro homem que não seja eu ou algum dos médicos que cuidou de você então ele teve que se afastar para que você não se sentisse assim entende? Coitado liga todo instante e pergunta sempre de você está tão preocupado minha filha eu não sei como ele não foi atrás de quem fez isso com você e os matou com as próprias mãos.
Claro que ele está papai, preocupado comigo, penso com raiva, ele deve estar é preocupado que eu abra a boca e diga o que ele fez, mas ele que não se preocupe a hora dele vai chegar.
Escrevo novamente no papel” Ele está com os cobras? “
__ O que? Claro que não porque ele estaria com eles? Você ouviu alguma coisa minha filha quem fez isso com você queria atingir ele?
Balanço a cabeça freneticamente de um lado para o outro com medo de que ele ligue os pontos, paro aquela conversa antes que eu fique mais nervosa e meu pai mais confuso ainda sento na cama,é macia diferente da minha antiga os lençóis estão limpinhos e com cheirinho de flores olho para o resto das papeladas e decido que vou olhá-las de uma vez.
Fico surpresa com o tanto de mensagens que recebi de força e desejo de melhoras, aquelas pessoas nem notavam que eu existia, outros envelopes eram conteúdos compactados enviados pelos professores para que eu estudasse e pudesse fazer a prova de aptidão, preciso correr atrás do tempo perdido, tenho que dar um jeito de recuperar minhas notas.
Uma caixa me chama atenção perto do guarda roupas, vou até ela e pego é pesada mas não muito, o que deve ser? tem a logo da faculdade e o carimbo do reitor Arantes.
Uma pequena mensagem escrita em um cartão dizia, " com nossos sinceros desejos de melhoras para a nossa mais aplicada aluna" . Abro a caixa e fico surpresa ao ver um notebook novo em folha dentro dele, não acredito que me deram isso, caramba quase chego a sorrir com aquela visão.
Abro a tampa do notebook e ligo, ele acende, faço as devidas configurações nele, conecto a minha antiga conta do Google e crio uma rede social para mim, assim será mais fácil encontrar meios para minha vingança.
Entro na página da faculdade e peço acesso para minhas matérias, uma notificação de boas vindas chega a minha tela, algumas mensagens e tutoriais de como utilizar a sala virtual foram abertas, em menos de dez minutos eu aprendo o funcionamento da pagina, mando uma mensagem para o senhor Arantes agradecendo o presente.
" Muito obrigada, o senhor não sabe como eu estava preocupada com o curso, não quero perder essa chance que me foi dada "
" Não se preocupe senhorita Eva, temos ciência de suas capacidades intelectuais e do seu esforço para estar sempre acima da média, é um prazer para nós dispor de suia presença em nosso campus, sentimos muito que tenha sofrido um assalto tão brutal, os tempos estão difíceis e entenderemos se optar por acabar seu curso de maneira virtual. "
" Fico muito grata senhor e darei o meu melhor para recuperar esses quatro meses perdidos, começarei agora mesmo a estudar e fazer as provas, e voltarei ao campus assim que me recuperar, o contato com outras pessoas me fará bem"
" Será um prazer recebe-la minha querida, quando voltar por favor me procure, apesar de sua pouca idade sua alma é de uma mulher sabia e madura"
Era impressão minha ou o reitor estava claramente dando em cima de mim ? já não era de hoje que eu percebia seus olhares, mas será que não era só coisa da minha imaginação?
Acabei adormecendo sem perceber despois de estudar algumas horas, as matérias eram fáceis e a maioria eu já conhecia bem sobre o assunto, então comecei a responder as provas, acho que parei na metade de uma.
Abro os olhos nervosa, está escuro e meu notebook sumiu, vejo uma sombra pairar sobre mim, é um homem, meu coração dispara e eu sinto medo, muito medo, fecho as mãos em torno do lençol e me preparo pra gritar, mas então ele acende a luz e eu vejo meu pai.
__ Filha, você está bem? Foi um pesadelo? tudo bem está segura aqui.
Aliviada percebo que apenas tive um momento de surto, aquilo vinha acontecendo com frequência, mas eu sempre me controlava.
__ Eu guardei suas coisas, fiquei com medo de quebrar fiz m*l?
balanço a cabeça negando e dou um sorriso mais falso que uma nota de 40 para ele. Volto a me deitar com a mesma roupa, o suor está grudado no meu corpo, mas não quero nem saber
__ Vou deixar acessa a luz tá certo? se precisar é só bater na parede duas vezes que eu venho.
Nunca vi meu pai tão sóbrio em toda minha vida, talvez o fato de quase me perder o tenha alertado que mamãe não era tudo e que ele ainda tinha algo com que se preocupar.
Adormeço sob a claridade da luz fraca, já não vejo mais uma sombra sob mim eu sou a própria sombra pronta para atacar e destruir qualquer coisa em meu caminho.