Tom
Era por volta de 10h quando Tom resolveu que deveria ligar para Elis naquele domingo. Ele pegou o telefone de Elis com sua mãe na noite anterior, assim que voltou depois de deixá-la em casa. Então bem cedo no domingo, ele acordou e começou a mexer no carro dela e descobriu que realmente o problema era a mecatrônica. Ainda bem que ele tinha uma lá, que um antigo cliente desistiu de usar em seu carro, assim ele não teria que encomendar. Agora ele estava com o celular na mão, olhando para o número de Elis, pronto para ligar e pensando na noite anterior.
Foi estranho, pra dizer o mínimo. A princípio, ele não gostou de Elis. Ele achou que a amiga de sua mãe, era tudo o que ele não gostava numa pessoa. Metida a intelectual e arrogante. Ao longo da noite, a opinião de Tom foi mudando. Era interessante ver como Elis parecia se preocupar com Lucas, como ela falou com carinho do irmão que morreu e de Dionne. E como ela pareceu não se curvar ao preconceito do pai. Então ele passou boa parte do jantar tentando evitar Elis, para não soar tão na cara que estava impressionado, mas aparentemente Elis levou aquilo como uma prova do que provavelmente já achava de Tom: que ele era um b****a.
Então o carro de Elis morreu e foi a oportunidade perfeita para Tom mostrar que a possível primeira impressão que Elis teve dele, estava errada. Ele não sabia porque precisava provar alguma coisa, mas precisava. Talvez fosse porque ele ficou fascinado pelos olhos de Elis naquele tom louco de azul, talvez fosse porque ele odiava que as pessoas pensassem que ele era algo que não era… Mas no fim da noite, as coisas pareciam estar mais amenas. O que era bom.
Sem perder mais tempo, ele ligou. Demorou apenas alguns segundos para ele ouvir a voz de Elis do outro lado da linha.
_ Alô?
_ Elis?
_ Sim, quem é?
_ É o Tom. Minha mãe me deu o seu número.
_ Ah, oi Tom_ Elis disse e Tom pôde ouvir um barulho de televisão no fundo_ Como vai?
_ Bem, bem. E você? Está ocupada?
_ Não.
_ Bom, eu estava mexendo no seu carro…
_ Em pleno domingo?_ Elis o interrompeu.
_ Não é como se eu tivesse alguma coisa pra fazer… Todo dia é domingo pra mim, estou de férias.
_ Ok. E qual é o problema?_ Tom pôde sentir a impaciência dela do outro lado da linha.
_ Como eu disse, a mecatrônica.
_ Certo… Você fez um orçamento?
_ Prefiro que você venha aqui e a gente conversa sobre isso_ Tom sugeriu_ Como eu sei que você não confia muito em mim…
_ Eu nunca disse isso_ Elis o interrompeu mais uma vez, mas seu tom era monótono_ Eu nem conheço você para pensar algo assim.
Tom revirou os olhos e respirou fundo.
_ Bom, de qualquer forma, eu prefiro que você acompanhe o serviço. Sei que é domingo e que você provavelmente tem outros planos, mas não acho que você vai ter tempo outro dia. A não ser que você queira esperar até o próximo final de semana.
_ Impossível. Preciso do meu carro para levar Lucas pra escola…
“Eu posso ir de ônibus.” Lucas disse bem no fundo da ligação.
_ … e para ir trabalhar_ Elis continuou como se Lucas não tivesse dito nada.
_ Olha, se você quiser eu troco essa d***a e você vem buscar o carro a tarde então_ Tom resmungou, perdendo um pouco da paciência.
Houve um silêncio do outro lado da linha e Tom soube que Elis estava pensando.
_ Ok, eu vou acompanhar o serviço_ Elis disse com um suspiro.
_ Como eu disse, você não confia em mim_ Tom concluiu.
Mais silêncio.
_ Só me dê um tempo, estarei aí por volta das 11h_ Elis disse, ignorando o comentário de Tom.
_ Ok, te mando o endereço por mensagem. Até mais.
_ Até.
E depois disso, Elis desligou. Tom ficou ainda um tempo com o celular na orelha, porque a conversa acabou tão bruscamente…
O que Tom estava tentando fazer? Ele nunca tinha pedido que um cliente acompanhasse um serviço antes, então chamar Elis para fazer isso, era totalmente fora de propósito. Sim, ele tinha certeza que Elis não confiava nele, isso era óbvio. Ela deu provas disso na noite anterior quanto relutou em aceitar sua carona e deu provas agora quando decidiu sair de sua casa em pleno domingo para ver Tom mexendo em seu carro. Mas se Tom fosse sincero, esse não era o motivo pelo qual ele queria Elis ali. Ele podia dizer a si mesmo que no mínimo estava curioso.
E quando a mulher chegou às 11h em ponto, Tom tentou usar seu tom mais profissional para recebê-la.
_ A mecatrônica é como se fosse o coração do carro, se ela não funciona, nada funciona_ Tom explicou quando já estavam na parte da oficina em que o carro de Elis estava.
_ Entendi_ Elis disse simplesmente_ Por quanto isso vai sair?
_ Podemos falar sobre isso no final do serviço.
_ Não mesmo… Se for muito caro, eu vou levar em outro lugar.
_ Bom, eu pensei em deixar essa por conta da casa.
Tom quase se arrependeu de ter dito aquilo, porque Elis o olhou como se ele tivesse xingado sua mãe ou algo do tipo.
_ Eu faço questão de pagar_ Elis falou num tom muito sério.
_ Eu tô dizendo, não precisa. Você é amiga da minha mãe…
_ Não entendo o que uma coisa tem a ver com a outra. Você deixa de cobrar todos os amigos da sua mãe?
“Só os com olhos profundamente azuis e que me tratam com desprezo” Tom pensou e riu internamente.
_ Cara, não vai me fazer falta…
_ E quanto as pessoas que trabalham aqui?
_ Não se preocupe. O salário deles está na conta todos os meses sem nada a menos.
_ Olhe, talvez você pense que precisamos de caridade…
_ Não seja boba_ Tom a interrompeu_ Não tem nada a ver com caridade. Só acho que não preciso cobrar de você, só isso.
_ Por quê?_ Elis cruzou os braços. Tom teve vontade de rir, porque Elis parecia muito como uma criança pirracenta agora.
_ Porque eu já disse, não vai me fazer falta… E olha, é uma peça cara, você acabou de se mudar, está se estabelecendo ainda, não tem nem um mês trabalhando… Não quero adicionar mais nada ao estresse que você já deve estar vivendo.
Aquilo pareceu mexer um pouco com Elis, Tom percebeu. A expressão dela pareceu relaxar um pouco e ela descruzou os braços e colocou as mãos nos bolsos do casaco que usava. Ela parecia sim menos tensa, mas ainda tinha a mesma postura defensiva de antes.
_ Eu não sei…_ ela continuou.
_ Vamos fazer assim, se te ofende tanto, eu te dou um desconto. O que acha?
Eles acordaram então um valor, que Tom nunca diria a Elis que era bem mais baixo do que o valor original da peça e do serviço. Assim, Tom começou a desmontar a peça velha para colocar a nova, enquanto Elis observava.
Tom tentou se concentrar. Se fizesse alguma besteira no carro de Elis, aí é que ela não confiaria mesmo nele. Mas era difícil quando ele sentia aqueles olhos azuis em cima dele quase o perfurando. Ok, ele era um homem adulto, não um adolescente, ele podia lidar com aquilo. Quando ele pensou em abrir a boca pra dizer alguma coisa, o celular de Elis tocou.
_ Oi, Dionne_ Elis disse_ O quê? Hum, não, não sabia que ele não gostava ou nunca me atentei…_ Elis aumentou o tom de voz_ Então faça outra coisa… Ou pede algo diferente para ele comer, eu te pago depois.
A voz de Elis foi ficando cada vez mais irritada e Tom parou o que estava fazendo para olhá-la.
_ Bom, Dionne, eu sempre pergunto a ele o que ele quer comer e macarrão nunca fez parte das respostas dele, eu sinceramente nunca parei para pensar… Não, em três meses acho que nunca comemos macarrão… Você pode, por favor, pedir algo diferente para ele comer? Obrigada.
E dizendo isso, Elis desligou o telefone e passou a mão pelos cabelos. Ela respirou fundo como se buscasse paciência e Tom continuava a observando.
_ Algum problema?_ Tom perguntou.
_ Deixei Lucas com o Dionne… E parece que Lucas se recusou a comer a macarronada que Dionne fez para o almoço.
_ Por quê?
_ Não faço ideia.
Elis suspirou.
Tom sabia que iniciar uma conversa amigável com Elis poderia ser algo difícil, mas resolveu tentar mesmo assim. O máximo que poderia acontecer era Elis dizer “não” para qualquer tópico que Tom tentasse, e isso Tom já esperava.
_ Você quer uma cerveja?_ ele perguntou repentinamente. Toda conversa era sempre mais descontraída, quando tinha cerveja no meio.
Elis fez que sim com a cabeça e alguns minutos depois, Tom voltou do escritório da oficina com duas garrafinhas long neck.
Tom se encostou no Ford Fiesta de Elis e a olhou.
_ Então, qual a história do Lucas?
_ Como assim?
_ Ontem você me disse que era um assunto delicado quando começou a falar sobre a adoção dele e a gente combinou de falar sobre, lembra?
_ Não lembro de termos combinado nada_ Elis respondeu, ainda na defensiva e Tom respirou fundo.
Ok, aquela era uma mulher difícil.
_ Certo, não combinamos, mas você pode falar mesmo assim… m*l não pode fazer_ Tom deu um gole em sua cerveja.
Elis o encarou por um tempo, depois olhou para sua garrafa de cerveja como se pensasse se deveria ou não falar alguma coisa. Tom esperou pacientemente, coisa que não era típica dele. Então Elis voltou a olhá-lo.
_ Tem muita coisa sobre o Lucas, que eu não sei… Ele era filho da minha melhor amiga, mas eu não tinha contato com ela desde antes dele nascer.
_ E como ele acabou com você?
_ Carla morreu… Câncer na vesícula. Quando ela descobriu já estava em estado terminal_ Tom percebeu a voz de Elis tremer um pouco_ Bom, ela deixou tudo pronto para que eu ficasse com a guarda de Lucas quando ela morresse… Então um dia eu era uma mulher que só precisava se preocupar em ser uma garçonete e no outro, eu era uma mãe… E não está sendo fácil.
_ E o pai biológico do Lucas?
Nesse momento, Elis se mexeu desconfortavelmente de onde estava sentada em uma cadeira perto da parede.
_ Bom, eu não tenho certeza… Mas acho que é meu irmão, Nico.
_ Então Lucas é seu sobrinho?_ Tom arregalou os olhos.
_ Eu acho que sim… Carla teve um relacionamento com Nico por alguns anos… Era uma história bem conturbada, a história dos dois.
Elis então contou a Tom como na época da escola, Carla era apaixonada por Nico. Ela dedicava seu tempo a tentar fazê-lo notá-la. Não deu certo no começo, mas a medida que ela foi crescendo e que outros garotos repararam nisso, Nico também reparou e embora ele fosse um galinha incorrigível, eles iniciaram um estranho e sofrido namoro. Sofrido para Carla, pelo menos. Porque Nico a traía com quase todas as garotas que cruzavam a frente dele. E Carla fingia não ver.
_ Às vezes ela se cansava de fingir e os dois tinham brigas terríveis… A escola inteira comentava. Acho que comentavam tanto deles quanto comentavam do meu irmão gay_ Elis deu um sorriso amargo_ O que acontece é que Nico não era uma boa pessoa, ele a humilhava, a rebaixava e ela não conseguia sair daquela relação… Como em muitos relacionamentos abusivos… Em algum momento ele foi para a Califórnia trabalhar num dos hotéis da nossa família, porque ele não queria fazer faculdade, Carla acabou indo atrás dele, mas depois voltou. Às vezes nos falávamos por telefone, mas ela não me explicava muito o que estava acontecendo na vida dela… Tentamos nos encontrar algumas vezes ao longo dos quatro anos de faculdade, mas não deu muito certo… Até que um dia, minha irmã Anna disse que Carla tinha largado a faculdade faltando apenas um período para terminar e tinha ido embora de São Paulo e que rolava um boato de que ela estava grávida… E foi a última vez que soube dela_ Elis passou a mão nos cabelos_ Nessa época eu já não tinha quase contato algum com minha família, e não consegui falar com Nico sobre o que houve… Ele também já não trabalhava mais no hotel há tempos, já estava no Brasil de novo e estava envolvido com o tráfico ou algo assim…
Tom piscou algumas vezes um pouco atordoado.
_ Nossa, essa é uma história e tanto.
_ E sinto que não é nem a metade dela, entende?_ Elis comentou e parecia um pouco perdida_ Porque não faço ideia de porque Carla sumiu por tantos anos sem manter contato com ninguém, e principalmente não sei o que aconteceu no período em que ela e Nico reataram quando Lucas já estava crescido… E sinto que essa é a parte mais importante, que é a parte que vai me ajudar a entender o Lucas, porque eu não consigo… Ele… Ele é um garoto complicado… Sei que alguma coisa terrível aconteceu com ele nessa época, mas ele não diz e não sei como me aproximar.
Elis então arregalou um pouco os olhos e corou, e Tom soube que ela estava surpresa por ter baixado a guarda daquela forma. Tom também estava surpreso, mas satisfeito. Talvez Elis não fosse tão difícil assim.
_ Já pensou em procurar ajuda profissional pro Lucas? Talvez um especialista o ajude a se abrir.
_ Penso nisso o tempo todo.
_ Na época em que Carla foi embora, você tentou procurar por ela?_ Tom perguntou tentando não quebrar aquele momento em que Elis parecia tão vulnerável.
_ No começo sim… Mas muita coisa aconteceu. Problemas familiares, nos quais eu não queria, mas acabei me envolvendo… Minha mãe morreu e algum tempo depois meu irmão também… Era muita coisa pra lidar.
_ Eu entendo. Você tinha sua própria vida, seus próprios problemas.
_ Sim, não imaginei que depois de tantos anos, os problemas de Carla se tornariam meus também… Não que eu esteja dizendo que Lucas é um problema_ Elis disse rápido.
_ Eu entendi, Elis.
Os dois se encaram por alguns segundos, então Elis desviou o olhar.
_ E a história do macarrão?
_ Como eu disse, não sei… É outra coisa que vou ter que descobrir, aparentemente.
Tom assentiu e percebeu que o momento estava indo embora novamente. Ele tentou pensar em algo para prolongar a conversa, mas Elis foi mais rápida.
_ Ainda falta muito?
Tom suspirou e deu um último gole em sua cerveja.
_ Um pouco.
_ Mas talvez devêssemos fazer uma pausa pro almoço…?_ Elis sugeriu.
_ Tá me convidando pra almoçar com você?_ Tom sorriu.
Elis franziu a testa.
_ Na verdade, eu ia dizer que estava pensando em almoçar num restaurante que tem aqui perto, mas você pode ir se quiser.
_ Pedindo com tanto carinho, como eu vou recusar?_ Tom disse revirando os olhos.
_ Desculpe, não quis ser rude.
_ Sem problemas… Eu não tenho muita vergonha na cara, então eu vou com você. Só me dê 10 minutos, eu preciso de um banho_ Tom completou olhando os braços sujos de graxa.
_ Ok… Tom?_ Elis o chamou antes que Tom pudesse sair da oficina.
_ Sim?
_ Obrigado por me ouvir… Não deve ser muito agradável ficar ouvindo uma estranha falando dos seus problemas.
_ Bom, eu perguntei. E de qualquer forma, quando eu precisar falar dos meus problemas, já sei quem procurar. Assim ficamos quites.
Tom piscou para ela e antes de sair pelo corredor que levava para os vestiários da oficina, pôde ver Elis dar um sorriso tímido.
É, a segunda impressão talvez tenha sido melhor que a primeira.