Capítulo 3

4089 Words
                                                                                              Elis _ Você está bem?_ Elis perguntou a Lucas, assim que os dois se acomodaram em seu Ford Fiesta aquele sábado para ir ao jantar oferecido por Sofia. _ Uhum_ Lucas respondeu simplesmente. Em seu colo, tinha uma torta de pêssego que os dois fizeram juntos naquela tarde para servir como sobremesa no jantar. Elis achou que era apropriado levar alguma coisa, já que Sofia foi tão gentil em convidá-los para jantar. Ela também achou que fazer a torta com Lucas, seria uma maneira criativa de aproximá-los. Mas o menino passou o tempo todo da tarefa muito quieto, apenas observando e seguindo as instruções que os dois encontraram na internet. A primeira semana de aula dos dois havia passado e Elis não conseguiu fazer Lucas falar muito sobre como estavam sendo os primeiros dias na escola. Sempre que Elis perguntava sobre como foi seu dia, o garoto respondia com monossílabos “Bom”, “Legal”, “Normal”… E não dava mais muitos detalhes, mesmo que Elis perguntasse. O máximo que ele disse a respeito foi “Algumas das outras crianças não são muito legais”. E quando Elis perguntou se não estavam sendo legais com ele, Lucas negou e não disse mais nada. O comportamento de Lucas era frustrante. Elis não sabia como se aproximar dele, não sabia como fazê-lo se abrir, nem confiar nela. Ela queria que o garoto se sentisse bem, se sentisse acolhido… Mas em vez disso Lucas trancava a porta do quarto todas as noites quando ia dormir, só ligava a TV se Elis dissesse que ele podia, só repetia as refeições depois de pedir permissão, entre outros comportamentos que mostravam que ele ainda não confiava em Elis ou que tinha medo de alguma coisa, não de Elis, mas de fazer alguma coisa errada. Agora mesmo, enquanto Elis dirigia para a casa de Sofia, o garoto tinha a mão direita agarrada firmemente à maçaneta da porta do passageiro, como se fosse pular do veículo a qualquer momento. E Elis não entendia, não entendia o que tinha acontecido nos anos antes do menino ir morar com ela. Lucas nunca falava a respeito. Às vezes ele falava sobre sua mãe, Carla, mas era sempre com amor. O que quer que tenha acontecido, Elis duvidava que fosse obra de Carla, o que o levava a pensar que foi Nico. Nico, que Elis sabia que tinha morado com Carla e Lucas durante um tempo depois que o menino já estava crescido. Mas essa parte da história de sua amiga e do garoto, era um pouco nebulosa. Lucas não falava de Nico, não falava sobre a convivência, nem sequer o mencionava. E Carla também não falou sobre ele na carta que lhe deixou. A única coisa que Elis sabia com certeza, era que Nico já não morava com Carla e Lucas, quando ela adoeceu. Quando o advogado de Carla entrou em contato com ela, falando sobre a morte de sua amiga e sobre a guarda de Lucas, Elis tentou saber mais detalhes. O que tinha acontecido? Por que Nico não era uma opção para ficar com o menino? Por que Lucas era tão estranho? O advogado apenas disse que não conhecia bem a história de Carla, que ela era muito reservada e quando ele mesmo perguntou sobre o pai do menino, Carla disse que o garoto não tinha pai. Na época, Elis pensou em procurar Nico, tentar saber o que tinha acontecido. Conseguiu com Anna a localização dele, mas pensou que se Carla quisesse Nico envolvido em algo que tivesse a ver com Lucas, ela teria deixado na carta, mas em vez disso, ela foi clara ao pedir que Elis cuidasse do menino, pois não havia mais ninguém em que ela pudesse confiar. Então ela desistiu de procurar o irmão. De qualquer forma, Nico nunca foi bom para ninguém. Nem para os irmãos, nem para os pais, não teria como ser bom para Lucas. Mas Elis gostaria de saber o que aconteceu. Ela precisava. Sentia que se soubesse, talvez pudesse ajudar o garoto, entender ele. Mas como faria isso se Lucas não falava? Pensou na possibilidade de um psicólogo. A assistente social do abrigo onde Lucas ficou depois que a mãe morreu, conversou com ela sobre isso, que talvez Lucas precisasse de ajuda profissional. E Elis tentou. Mas o menino se recusou e Elis achou melhor não forçá-lo. Estava quase se arrependendo de não tê-lo obrigado. _ Acha que eles vão gostar da torta?_ Elis perguntou tentando quebrar o silêncio. _ Acho que sim. _ O cheiro está bom, não é? _ Uhum. Elis suspirou. Aquilo era difícil. _ Você costumava cozinhar com a sua mãe? _ Às vezes. _ O que vocês gostavam de fazer juntos… Tipo, no geral? Lucas olhou para ela pela primeira vez desde que tinham entrado no carro. Elis tentou, mas não conseguiu decifrar a expressão do garoto. Mas podia chutar algo entre curiosidade e desconfiança. _ Quando éramos só nós dois, a gente costumava fazer piqueniques, ir ao cinema e ela me levou uma vez num festival de música em São Paulo. _ Isso é ótimo, Lucas_ Elis disse com um sorriso, se revezando entre olhar para o garoto e olhar para a estrada_ Deve ter sido divertido. _ Foi bastante_ Lucas respondeu, mas deu de ombros. Ele continuava apertando com firmeza a maçaneta da porta do carro. Elis então respirou fundo e entrou no tópico que era o real motivo dela começar aquela conversa. _ Você disse que faziam isso quando eram apenas os dois… Não faziam essas coisas com o Nicolau?_ ela tentou soar casual. Lucas não respondeu imediatamente, então Elis olhou para ele. Mesmo parecendo impossível, o aperto do menino na maçaneta da porta se tornou mais forte ainda. Elis pôde ver os nós dos dedos dele perderem a cor, e agora Lucas olhava concentrado para a rua. _ Não fazíamos nada_ ele respondeu finalmente. _ Sério? Não se divertiam? Nico costumava ser divertido quando era jovem… _ Elis…_ Lucas a interrompeu. O menino olhou para o GPS do carro, e depois olhou para Elis_ Você passou direto. Elis também olhou para o GPS. Ela tinha passado três prédios do endereço de Sofia. Sabendo que não tinha mais cabimento continuar com aquela conversa, ela deu ré e estacionou em frente a um condomínio grande, com um prédio esverdeado. Os dois saíram do carro sem dizer mais nada e caminharam até o portão para falar com porteiro. Elis desejou que a noite fosse boa o suficiente, talvez assim ela pudesse parar de se preocupar um pouco com Lucas e quem sabe Lucas parasse de se preocupar um pouco com tudo.                                                                                                    - Elis teve esperança que os filhos de Sofia fossem tão simpáticos quanto ela. Bernardo realmente era. Ele era inteligente, gentil e enquanto jantavam, Bernardo conversava sobre temas que interessavam a Elis. O outro, o tal de Tom, era… Bom, ele era provavelmente o homem mais bonito que Elis já tinha visto na vida, mas não era tão amigável quanto seu irmão. Ou melhor, o homem parecia querer estar em qualquer lugar menos ali. Ele participava pouco da interação dos outros adultos e ficava olhando no celular o tempo inteiro. O que pareceu incomodar Sofia, e Elis se sentiu m*l por ela. Algo que também fez Elis se sentir um pouco estranha, foi o fato de Lucas não parar de encarar o tal Tom. O garoto olhava para ele, e quando Tom o olhava, o menino desviava o olhar. _ Lucas, encarar os outros é falta de educação_ Elis disse a Lucas, que estava sentado ao seu lado à mesa de jantar. _ Desculpe_ Lucas respondeu constrangido, mas depois parecendo se encher de coragem, olhou para Tom_ Você é o Tom Castro? _ Sim, sou eu_ Tom respondeu, dando o sorriso mais forçado que Elis já tinha visto. _ Uau_ foi só o que Lucas disse. Elis franziu a testa. Ela não entendeu a pergunta de Lucas. É claro que era Tom Castro, filho de Sofia Castro. O que havia de tão fantástico no filho de Sofia? _ Hum, acho que estou perdendo alguma coisa_ ela comentou, olhando confusa de um para o outro. Tom olhou para ela com uma expressão de arrogância ferida, ele pareceu um pouco ofendido. _ Elis, é o Tom Castro. Ele é um cantor famoso_ Lucas comentou. _ Ahh, ok_ Elis respondeu simplesmente, porque não sabia o que dizer. Ela não era uma consumidora da cultura pop. Ela não sabia quais artistas estavam fazendo sucesso hoje em dia. Ela não tinha ideia de quais filmes estavam em cartaz no cinema, e quem era popular na música, na TV ou na internet. Não que ela fosse completamente ignorante nessas coisas, mas era só que ela não se importava. Elis tinha 30 anos, as coisas que a interessavam estavam bem distantes de saber quem cantava o quê atualmente. Mas em sua defesa, ela achava que já tinha ouvido sim falar de Tom Castro, só nunca se interessou em saber quem ele era. _ Tom estava preocupado de que vocês fossem fãs e fossem incomodá-lo durante o jantar… Viu, Tom? Nem todo mundo sabe quem você é_ Bernardo disse com uma pitada de deboche. Depois disso houve um silêncio estranho e Elis não pôde deixar de perceber o olhar irritado que Tom lançou para o irmão. Sofia por outro lado, parecia constrangida. _ Não se preocupe, não vamos transformar o jantar numa sessão de autógrafos_ Elis disse, tentando amenizar as coisas, mas recebeu de Tom o mesmo olhar que o homem tinha dado ao irmão segundos antes. _ Lucas, você quer mais torta?_ Sofia perguntou, visivelmente tentando encerrar aquele assunto. Lucas, que não havia sequer acabado o conteúdo que estava no seu prato, olhou para Elis. _ Eu posso?_ o garoto perguntou. _ É claro que sim_ Elis respondeu com um sorriso. Sofia começou a servir Lucas, enquanto dizia coisas como “um menino como você tem que se alimentar bem”, enquanto Elis tentava esconder seu desconforto. O fato de Lucas perguntar a ele se podia comer mais a incomodava, sempre a incomodara desde que o menino tinha ido morar com ela. Tudo que Elis queria era que Lucas se sentisse em casa, mas sabia que seria um longo caminho a percorrer. Ficou imaginando se os Castros pensavam que Lucas precisava de permissão para comer mais. _ Eu estava pensando… minha mãe disse que seu sobrenome é Novaes, certo? Outro dia eu tava lendo sobre o Charles Harlan, e tenho certeza que nessa matéria, falava sobre os filhos dele… E tinha uma Elis Novaes_ Bernardo disse de repente, chamando a atenção de todos à mesa_ Não que seja um nome incomum, mas eu fiquei pensando… Elis engoliu em seco. Ela não imaginou que ali, na casa de Sofia, sua nova colega de trabalho e amiga em potencial, encontraria alguém que já tivesse ouvido falar da família dela. Ela já tinha se desligado da maioria deles há tanto tempo, que pensou que poderia começar a passar despercebida. _ Não é coincidência, ele é meu pai_ Elis comentou, tentando soar o mais natural possível, enquanto se servia de mais purê de batata. _ Charles Harlan? Você é filha mesmo de Charles Harlan?_ Bernardo perguntou parecendo abismado. _ Quem é Charles Harlan?_ Tom franziu a testa em confusão. _ Ele é simplesmente o dono de uma das maiores redes de hotéis cinco estrelas do mundo, os hotéis Harlan_ Bernardo respondeu olhando para Tom, e depois voltou a olhar para Elis_ Por isso, sabia que já tinha ouvido falar de você, mas admito que tinha uma foto na revista, isso ajudou para que eu te reconhecesse. Elis corou um pouco, mas tentou manter a dignidade. Sempre que alguém que já tinha ouvido falar dos Novaes-Harlan, descobria quem ela era, gerava uma certa comoção. Mas felizmente isso era raro. Era uma pena que Bernardo aparentemente fosse um cara bem informado. _ Elis, você não me contou isso_ Sofia comentou, surpresa. _ Desculpe, acho que não tivemos a oportunidade… Você também não me contou sobre seu filho famoso_ Elis sorriu, acenando com a cabeça para Tom, ao que Sofia sorriu também. _ Está perdoada então. _ Então você seria tipo uma versão brasileira da Paris Hilton ou algo assim?_ Tom perguntou com a boca cheia. Elis estava achando Tom muito inconveniente. Ela ouviu aquele comentário ao longo dos anos sempre que alguém ligava o nome dela a sua família. Paris Hilton também era filha de donos de hotéis como ela, mas mesmo que viessem de origens parecidas, suas realidades eram muito diferentes. Depois que conseguiu responder por si só, Elis raramente participava das festas promovidas pela alta sociedade em que cresceu e sempre interagiu o mínimo possível com o meio em que foi criada, então não é como se ela realmente conhecesse essas pessoas. E de qualquer forma, ela tinha cortado relações com boa parte de sua família há tempos. _ Se você está perguntando se sou uma herdeira, a resposta é não_ Elis respondeu com toda a educação que conseguiu reunir_ Eu não faço uso e nem tenho direito ao dinheiro da minha família há muito tempo. Ela esperava que aquilo encerrasse o assunto. Sua família e a relação conturbada que tinha com ela, principalmente com o pai, não era algo do qual ela gostava de falar. Ela olhou para Lucas, que olhava para ela com compreensão. _ Foi só uma brincadeira_ Tom disse parecendo sem graça, então se recompondo, ele continuou_ Eu já fiquei num hotel da sua família na Itália, quando fiz minha turnê pela Europa… É um hotel realmente muito bom. _ Eu não faço ideia de como estão as coisas hoje em dia… Como eu disse, não tenho mais nada a ver com os hotéis_ Elis comentou. _ Te deserdaram por que você também fez uma s*x tape?_ Tom perguntou rindo e todos olharam para ele meio chocados. _ Não, eu abri mão da herança depois que meu pai se recusou a ir no enterro de um dos meus irmãos por ele ser gay. Tom se engasgou e quase cuspiu a comida, e por um instante, ele pareceu não saber o que falar, o que deixou Elis momentaneamente satisfeita. _ Deve ter sido difícil, querida_ Sofia disse, se esticando um pouco sobre a mesa para pegar na mão de Elis. _ Na época sim, mas já faz muito, muito tempo. E preferia estar ao lado do meu irmão do que do meu pai. Pelo menos passamos bons tempos juntos antes dele partir. _ Eu não… Eu não sabia… Eu não quis dizer…_ Tom se atrapalhou um pouco. _ Não se preocupe. Não tinha como você saber, não nos conhecemos_ Elis respondeu de maneira casual e deu uma garfada em sua torta_ Sofia, esta torta está maravilhosa. _ Obra do Tom, ele cozinha bem melhor que eu. O jantar seguiu sem mais momentos constrangedores e Elis tinha certeza de que isso só foi possível, porque Tom passou o resto da noite muito quieto. Ele desviava o olhar sempre que Elis olhava para ele, e não era preciso muito para saber que ele estava sem graça. Depois que acabaram de comer, todos se juntaram na sala de estar para beber café_ Lucas bebeu suco de maçã_ e conversar. Bernardo falou sobre a época em que estava na faculdade e sobre seu trabalho como advogado e sócio num escritório em Brasília, e que estava de folga por alguns dias. Ele falou um pouco sobre seu casamento também, mas não deu detalhes. Em algum momento a conversa foi para o falecido marido de Sofia e pai de Bernardo e Tom, e os Castros pareciam saudosos ao falar dele. Já Elis falou um pouco sobre Elton e o quanto sentia falta do irmão, mas preferiu não falar muito sobre sua família, se atendo apenas a Elton e Dionne. Elis até descobriu que Tom era um frequentador assíduo do bar de sua irmã mais velha, o Dionne's. Por volta das 22h, ela decidiu que era hora de ir embora, pois Lucas tinha que estar na cama até as 23h. _ Obrigada por terem vindo_ Sofia disse com um sorriso, os acompanhando até a porta. _ Obrigado pelo convite_ Elis disse, sorrindo. _ Você gostou, Lucas?_ ela perguntou. _ Sim, muito obrigado. Os dois se despediram de Bernardo e Tom_ Bernardo com um pouco mais de entusiasmo_ e prometeram a Sofia que o próximo jantar, seria na casa deles. _ Você se divertiu?_ Elis perguntou a Lucas, já no carro. _ Eles são legais, então acho que sim. _ Fico feliz de saber disso_ Elis ligou o carro, que andou por cerca de um metro e depois parou, fazendo um barulho alto vindo da parte da frente_ De novo não. Tudo bem você ser usado, mas isso já é demais. _ Morreu de novo? _ Sim. Era a terceira vez que aquilo acontecia em uma semana. Elis sabia que precisava levar o carro para o conserto urgente, mas a falta de tempo a impedia. Agora parece que não teria jeito. Estava começando a achar que fez um m*l negócio na compra daquele carro. Tentou por mais alguns minutos fazer o veículo funcionar, mas nada feito. Elis então soltou uma leva de palavrões mentalmente_ pois se recusava a xingar na frente de Lucas_, quando o garoto disse: _ Hum, Elis… Tom Castro está vindo aí. Elis olhou na direção do prédio e Tom já estava saindo pelo portão. _ Algum problema? Eu vi vocês pela janela…_ Tom disse, assim que emparelhou com o carro, abaixando um pouco de maneira que Elis pudesse vê-lo através da janela de Lucas. _ O carro morreu, mas já estamos resolvendo. _ É, eu tô vendo_ Tom respondeu num tom irônico_ Posso dar uma olhada? Elis ponderou um pouco. Uma das histórias que ela ouviu durante a noite, era que Tom era um mecânico, e que mesmo agora sendo um cantor bem-sucedido, ainda mantinha sua oficina funcionando. Ela suspirou e fez que sim com a cabeça. Tom então se direcionou para a frente do carro e abriu o capô. Quando ele fechou o capô alguns minutos depois, Elis saiu para encontrar com ele na frente do carro. _ E então? _ Acho que a sua mecatrônica tá fudid… Ferrada_ Tom se corrigiu antes que pudesse dizer outra coisa. Ele estava ciente de que Lucas estava muito atento a eles de dentro do carro. _ E o que isso quer dizer? _ Que se eu estiver certo, seu carro só vai sair daqui de reboque. Mas eu preciso fazer um diagnóstico primeiro. _ d***a!_ Elis resmungou. Alguma coisa tinha que dar errado. Os dois ficaram em silêncio e Elis pôde notar Tom a olhando de um jeito estranho. _ Escuta_ Tom disse finalmente_ Deixa o seu carro aqui… _ Não vou deixar meu carro_ Elis o interrompeu. _ E o que vai fazer? Empurrar ele até a oficina mais próxima ou levar ele nas costas? Olha, não tem nenhum lugar aberto a essa hora, já passa das 22h… O que você pode fazer é deixar ele aqui e amanhã eu o reboco até a minha oficina. _ Sua oficina? _ Sim. Acredite, é um serviço de primeira. “Arrogante” Elis pensou. _ Amanhã eu dou uma olhada nele para você, mas por enquanto eu posso levar você e o garoto pra casa. _ Não quero incomodar. _ Bom, eu estou oferecendo, não é? Elis olhou para Lucas, que parecia bem cansado no banco do passageiro e olhou de volta para Tom. É, não tinha problema em aceitar a carona de Tom Castro. Mas ela só aceitaria por Lucas, que precisava ir pra cama. Se estivesse sozinha, provavelmente esperaria por um Táxi ou um Uber. Já no carro de Tom, o silêncio só era interrompido pelo ronco do Mustang dele_ p***a, o cara tinha um Mustang_ na estrada e pelo som baixo de algum rock antigo que Tom tinha colocado no rádio. Elis olhou pelo retrovisor interno e pôde ver Lucas cochilando no banco traseiro. Sua mão estava segurando mais uma vez a maçaneta da porta, embora o aperto dessa vez fosse meio frouxo e Elis desejou que Tom não percebesse aquilo. _ Ele parece ser um bom menino_ Tom disse de repente, tirando Elis de seus pensamentos. _ Ele é. _ Olha, me desculpa sobre a piada da s*x tape… Foi só uma brincadeira. Eu tenho um senso de humor meio e******o às vezes. Elis suspirou. _ Sem problema. Não foi a primeira vez que ouvi essa piada. _ Então você já deve tá acostumada. _ Cansada seria a palavra mais adequada. Tom assentiu e voltou a ficar em silêncio. De repente, Elis sentiu a necessidade de dizer alguma coisa, de preencher aquele nada com alguma coisa. _ Acho que vou tentar ouvir uma das suas músicas… Quando tiver tempo_ ela disse meio sem pensar e se sentiu um pouco boba. _ Não precisa se não quiser. _ Não, eu quero… Lucas parece ser um fã, vai ser uma boa maneira de me aproximar dele. Tom lançou para ela um olhar meio confuso. _ Ele é seu filho. É o mais próximo que alguém pode ser de outra pessoa. _ Lucas não é meu filho biológico… Ele está comigo há pouco tempo. De tudo que falaram durante o jantar e depois dele, Elis não havia mencionado isso. Sofia sabia porque elas tinham conversado a respeito, mas Elis ficou feliz que ela não tivesse comentando nada. Ela teve medo de que se comentasse que Lucas era adotado, alguém perguntasse algo sobre o passado do garoto e que aquilo se tornasse desconfortável para o menino. Ainda mais, porque apesar da timidez, Lucas pareceu realmente gostar da companhia da família de Sofia_ especialmente de Bernardo_, o que era uma evolução e tanto. _ Ahh… Esse é um assunto delicado pra você? _ Não muito, mas para o Lucas sim. Elis olhou novamente pelo retrovisor interno. Lucas agora parecia realmente dormir. _ Talvez você possa me contar qualquer dia_ Tom falou pegando Elis um pouco de surpresa. Ele estacionou o carro em frente ao endereço que Elis tinha dado a ele e os dois se encararam por um instante. _ O que isso quer dizer?_ Elis perguntou confusa. _ Exatamente o que parece. Que talvez você possa me contar outro dia… Nós vamos nos ver de novo. Você é amigo da minha mãe e além do mais, seu carro vai pra minha oficina. _ Sim, claro. Foi isso que você quis dizer_ Elis concordou, e foi estranho se sentir um pouco decepcionada. Ela não devia se sentir assim, porque ela realmente não gostava de Tom Castro. Depois disso, ela acordou Lucas e os dois saíram do carro com Tom_ para surpresa de Elis_ os acompanhando até a porta de casa. _ Obrigado pela carona_ Elis disse, depois que Lucas já havia dado boa noite a Tom e entrado. _ Eu sou um cara legal, Elis, apesar de você me olhar como se eu fosse um b****a. Elis corou um pouco, mas se recompôs logo. _ Bom, isso a gente vai definir com o tempo. Para surpresa de Elis, Tom riu. _ É, acho que sim. Tom tinha sardas, Elis reparou, enquanto o outro olhava para ela ali na porta da sua casa. E ele parecia tenso. Tinha as mãos nos bolsos da calça jeans e não parecia saber o que fazer ou dizer a seguir, o que foi estranho. _ Bom, então nos vemos_ Tom falou finalmente. _ Sim, nos vemos… _ Boa noite, Elis. _ Boa noite, Tom. Tom se virou então e caminhou até seu carro, enquanto Elis o observava. Ok, aquilo foi estranho. Eles passaram a maior parte do jantar evitando falar um com o outro, porque Elis não foi com a cara dele e Tom aparentemente não foi com a sua. Mas na última meia hora, as coisas foram… inesperadas, para dizer o mínimo. E apesar de quase não conversarem no caminho até sua casa, Tom foi estranhamente educado e parecia tenso perto dela. E bom, Elis não era cega, Tom era um homem atraente, o que tornou tudo mais… confuso. Agora ela estava ali observando enquanto Tom dava partida e acenava para ela de dentro do carro. Ela acenou de volta e continuou parada na porta, mesmo depois que o Mustang preto sumiu na esquina. Não, de todas as pessoas por quem ela poderia se interessar, Tom Castro não seria uma delas. Não. Não mesmo.
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