RAFAEL (Talibã)
Peguei a primeira chave que vi e já fui saindo apressado, botei só uma blusa pra não parecer um desesperado.
A tal Diana mandou a localização de uma casa na Penha; o trânsito tava livre pra mim, no tempo certo eu cheguei no endereço. Aqui é meu território — não temo ninguém, to armado, tenho gente pra me defender, por isso fico tranquilo. Saí do carro olhando o movimento: tinham crianças ainda correndo, senhoras sentadas em frente as suas casas e alguns homens bebendo no bar bem em frente. Gostava dessa familiaridade que a Penha tinha.
Bati na porta e uma mulher baixinha e morena me atendeu. Devia ter uns vinte e seis anos no máximo, tinha olheiras profundas e seus cabelos cacheados estavam presos no alto da cabeça.
— Boa noite. — Cumprimentei ela ainda do lado de fora da casa e ela logo abriu espaço pra que eu entrasse.
— Boa noite! Pode sentar. — Ela apontou pra mesa de quatro cadeiras no canto da sala. — Quer beber alguma coisa?
— Não, valeu! Vim só pra gente bater esse papo sobre a Maria Júlia.
— Beleza, eu... eu já te conheço de vista, te conheço porque já te vi aqui na Penha antes. E te vi naquele dia que você saiu com a Maria, por isso com muito trabalho consegui seu número com um homem daqui que eu já tinha visto com você, e te liguei logo — porque sabia que tinha algo rolando entre vocês.
— Vai direto ao ponto.
— O delegado Soares bate na Maju. Não são umas palmadinhas, é surra mesmo — ele espanca ela até ela não conseguir andar mais. Há uma semana atrás ele deu uma surra feia nela à noite, eu não estava trabalhando, mas no dia seguinte eu cheguei lá e ela tava desacordada na cama, cheia de feridas abertas — ele pegou muito pesado. — Minha visão começou a escurecer de raiva. Ele era pai dela, como podia fazer esse tipo de atrocidade? Quem vê a família perfeita de comercial de margarina nem imagina a merda que é de verdade.
— Eu consegui acordar ela, ajudei a tomar banho, ela ficou aparentemente bem. Mas não conseguia comer, dizia que não tinha apetite. Os pais dela viajaram na segunda-feira, deixaram ela lá e se não fosse por mim, eu não sei se... se ela estaria viva ainda.
— Porra... — Foi a única coisa que eu consegui falar.
— Durante a semana ela não comeu, nem bebeu, nem falou — nada. Nenhuma reação. É como se estivesse no piloto automático. Ela ainda tá cheia de feridas, se recusa a falar até com a melhor amiga dela que vai lá todos os dias tentar fazer ela levantar. — Ela começou a chorar. — Eu tenho medo de ela ter desenvolvido depressão, pelo ambiente familiar opressor que ela vive. Ou até mesmo ter desenvolvido algum distúrbio alimentar, porque o máximo que ela colocou no estômago foi uma vitamina que eu a forcei a tomar ontem.
— O que vamos fazer?
— Eu vou te colocar dentro da casa. — Ela me olhou com medo da minha resposta, mas eu continuei olhando firme pra ela, ouvindo seu plano. — Você vai levar ela pra longe daquele lugar, eu vou comprometer meu emprego com isso, mas eu vou fazer por ela. Pelo bem dela.
— Não te preocupa com o teu emprego. Pede tuas contas que eu vou arranjar outra coisa melhor pra ti.
— Obrigada, Rafael! Sei que a Maju vai estar em boas mãos enquanto estiver com você.
— Quando vamos tirar ela de lá?
— Amanhã? Ou agora!
— Agora então. — Ela concordou. — Eu te coloco pra dentro e te ajudo a sair.
Assenti já pegando a chave do carro e saindo; ela veio atrás de mim e entrou no banco do carona do meu Audi.
Dirigi rápido dali até a casa de Maju, ansioso pelo que eu encontraria.