MARIA JÚLIA.
Eu só queria sumir.
Desaparecer.
Seria ingratidão se eu dissesse que meu pai poderia ter me matado e que seria melhor?
A surra que eu tomei até hoje dói em algumas partes do meu corpo; as marcas ainda estavam bem roxas porque eu não fazia questão de fazer com que elas se curassem rápido. Eu não fazia questão de nada.
Eu não tinha forças para levantar. Meu corpo inteiro tinha marcas, machucados não cicatrizados. Minha pressão estava baixa pela falta de alimento no organismo.
Agradeci todos os dias por não ter visto meus pais. Laura vinha aqui todos os dias, mas eu não queria que ela me visse nesse estado. A única que me vê assim é Diana, que tem me ajudado a sobreviver.
Eu estava no meu quarto com os olhos fechados, todas as luzes estavam apagadas e eu estava tentando manter minha mente bem longe da minha realidade. Ouvi a porta do andar de baixo abrir e estranhei — era domingo à noite, os funcionários não trabalham. Mas provavelmente era Diana me trazendo coisa para comer, como sempre fazia.
Ouvi passos e, logo em seguida, duas batidas baixas na minha porta.
— Hoje não, Diana. Me deixa quietinha. — falei baixo e melancólica.
A porta estava trancada porque eu tinha medo de alguém entrar no meu quarto, meus pais principalmente. Eu não faço ideia de quando eles voltam de viagem, por isso mantenho trancada para que não entrem pra acabar comigo de novo.
— Abre pra mim, linda. — A voz rouca e inconfundível do outro lado da porta me assustou.
O que diabos Rafael estava fazendo aqui?
Seria um sonho? Provavelmente sim — Rafael não entraria na minha casa em pleno domingo à noite.
— Maju? — Ele me chamou de novo e eu me levantei devagar, caminhei bem lentamente até a porta e destranquei, esperando que ele abrisse.
A maçaneta girou devagar e eu tentei cobrir meu corpo com os braços para que ele não visse o quão fragilizada eu estava. Talvez ele me olhasse e pensasse que eu era uma fraca, ou me olhasse com pena.
Ele estava ali realmente, em carne e osso. Seus olhos se arregalaram e ele entrou no quarto, fechando a porta atrás de si.
— Rafa...
— p***a, Maria. Por que não me ligou? — Ele me olhou preocupado e meus olhos se encheram de lágrimas.
— Eu... estou sem meu celular. — Respirei fundo.
— Vamos logo, não temos muito tempo. Diana tá esperando a gente lá embaixo.
— Diana? Ela chamou você? — Ele assentiu e percebeu que eu estava fraca demais para andar, por isso me pegou no colo e correu comigo até o carro dele.
— Pra onde vamos? — Perguntei assim que ele entrou no veículo.
— Pra minha casa. — Ele olhou para mim e colocou a mão na minha perna.
— Rafael, você não precisa...
— Fica quietinha, linda. Vamos deixar Diana na casa dela e depois você vai pra minha casa.
— Eu só não quero incomodar.
— Você não incomoda. — Me encolhi no banco, sentindo frio, e vi Diana saindo da minha casa com uma mochila e um cobertor em mãos.
Ela entrou no banco de trás do carro, e Rafael deu partida rumo ao local onde Diana morava — que descobri ser na Penha.
Ele estacionou bem na frente da casa dela e ela desceu, contornou o carro e falou algo baixinho para Rafael, que assentiu. Ela entrou em casa.
Em silêncio, Rafael seguiu caminho para a sua casa. Eu estava sonolenta, apaguei algumas vezes no caminho e despertei de vez quando entramos no elevador do prédio. Ele ainda me segurava no colo, tomando todo cuidado como se eu fosse quebrar.
— Linda? — Ele me chamou e eu o olhei. — Eu tô com dois amigos no apartamento, mas eles não vão te incomodar. Você pode ficar no meu quarto enquanto eles estiverem lá.
— Rafael, eu não quero incomodar, de verdade. — Ele me olhou com cara de tédio. — E eu acho que consigo andar, pode me pôr no chão.
Ele fez isso e segurou minha cintura para me apoiar.
Assim que chegamos no seu andar, o elevador se abriu e ele passou na minha frente para abrir a porta da casa. Ele caminhou à minha frente e eu me escondi atrás dele; ouvi vozes masculinas. Tinham dois homens na sala, como Rafael havia falado — eram seus amigos. Eles se calaram quando ouviram a porta abrindo e viram que era ele.
Passamos por eles, mas meu olho parou no moreno sentado no sofá. Eu o encarei como se o conhecesse de algum lugar. E realmente o conhecia: ele me dopou.
— Você... — Apontei para ele, que me olhava e pareceu me reconhecer também, pois ficou pálido. — Eu te conheço. — Os três me olhavam curiosos. — Você me dopou na festa, há algumas semanas atrás, lembra disso?
— Sim, eu lembro. — Ele baixou a cabeça. — Desculpa aí, loirinha.
Não respondi nada e olhei para Rafael, que olhava para o rapaz com um olhar de repreensão. Depois, ele me olhou e indicou o quarto dele com a cabeça. Eu o segui, queria saber por que ele está com esse cara, por que recebe esse tipo de pessoa na casa dele e ainda chama de "amigo".
Mas minha mente estava cansada demais — eu só queria deitar e ficar quietinha.
— Você não vai falar nada? — Perguntei quando me deitei na sua cama macia, com seu cheiro.
— É complicado, linda. Se você quiser, eu explico tudo, mas primeiro descansa. Se quiser tomar um banho, a casa é sua.
Eu agradeci e fui tomar um banho para tentar lavar minha alma e levar também as memórias ruins pelo ralo.