RAFAEL (Talibã)
— Eu queria buscar meu carro. — Maju resmungou no banco do carona enquanto íamos para minha casa.
— A gente pode pedir pra alguém ir lá pegar. — Sugeri e ela me olhou.
— Eu não tenho muitas opções, só tem Clara que mora perto da minha casa. Mas não pediria pra ela se arriscar indo lá, meu pai tá furioso.
— Seu pai precisa aprender que filhos a gente cria pro mundo. — Ela me olhou debochada.
— Você fala como se tivesse vários filhos. — Eu ri. — Você não tem filhos, né?
— Quem te garante que eu não tenha? — Olhei sugestivo para ela que arregalou os olhos e eu ri de novo. — Não, não tenho filhos.
— E quer ter?
— Claro, meu sonho ter uma cria. Mas no tempo certo, ainda não tô preparado. E você?
— Na verdade, nunca pensei. Mas seria legal ter uma criança que saiu de mim, é louco pensar isso.
— Daqui uns anos quem sabe a gente não faz um moleque pra nós — sem nem perceber falei, incluindo ela nos planos do futuro. Sem nem saber se a gente tinha um futuro.
— Moleque? Por que não uma menina? — Ela perguntou me surpreendendo, nem negou meu planejamento.
— Porque se eu tiver uma menina, estaria pagando por todos os meus pecados. Ia querer fazer ela virar freira. Um menino seria mais fácil de lidar.
— Só por isso, se tivermos filhos um dia, vou querer que venha uma menina. Dizem que homem safado é mais provável ter filha mulher. — Falei e ele gargalhou.
— Não inventa. Quer saber? Deixa esse assunto pra outra hora! — Mudei rapidamente de assunto porque não quero nem pensar em lidar com um monte de urubu em cima da minha filha inexistente.
— Ficou com medo? — Maju provocou e eu apertei sua perna com a mão livre.
Parei num sinal vermelho e olhei o celular por poucos segundos. Olhei pelo retrovisor e vi um carro de polícia atrás de mim. Como a sirene estava desligada, eu me mantive neutro. Mas atento a cada rua que eu virava e ele permanecia colado na traseira do meu carro.
— Rafael? — Maju me chamou percebendo que eu estava mudando completamente a rota para casa. — O que está fazendo?
— Tem um carro nos seguindo. — Ela olhou para trás e arregalou os olhos.
Não acelerei pra não parecer suspeito, mas mudei completamente a rota e estava praticamente saindo da cidade.
A sirene ligou uma única vez e eu parei no acostamento já irritado.
— Porra... — Desliguei o carro e Maju ficou tensa do meu lado. — Não fica nervosa, linda, haja naturalmente.
Beijei rapidamente sua boca e ela assentiu.
O policial fardado bateu na janela do carro e eu abri o vidro para ouvir ele falar o que queria.
— Boa tarde, sua documentação e do carro também. — Entreguei para ele que leu várias vezes. — Senhor Rafael, vai precisar vir comigo. A documentação do carro tá ok, mas precisamos levar você pra delegacia mais próxima. A moça é quem?
— Maria Júlia. — Ela respondeu e o policial assentiu.
— Por que eu preciso ir pra delegacia se minha documentação está ok? — Indaguei já ficando puto, mas disfarcei.
— Senhor, eu só preciso que venha.
— Tudo bem. — Me virei para Maju que me olhava apreensiva. — Leva meu carro pra casa, linda. Qualquer coisa eu vou te ligar, se eu não ligar, avisa o Cauê. — Falei a última parte mais baixa.
— A arma... — Ela falou baixinho se referindo à arma na minha cintura e eu neguei com a cabeça.
— Tá no porta-luvas.
Desci do carro e fui conduzido para o banco de trás da viatura.
— Rafael... sabe para onde tá indo? — O outro policial que já tava dentro do carro perguntou e eu neguei com a cabeça cerrando os olhos.
— Você vai descobrir. — Eles se olharam e riram.
Eles dirigiram até uma delegacia bem distante de onde estávamos. Me algemaram como se eu estivesse sendo preso e foi quando eu entrei na delegacia que eu comecei a entender o que estaria acontecendo nos minutos seguintes.
Me levaram para uma sala de interrogatório, eu fiquei sozinho por um bom tempo, mas logo a porta se abriu. Soares apareceu com um sorriso cínico no rosto.
— Rafael... — Ele disse meu nome com desgosto. — Bom te ver de novo, cara. Como tá?
— O que você quer comigo? — Perguntei me segurando pra não avançar no pescoço dele.
— Só quero conversar. — Ele se sentou na cadeira de ferro na minha frente.
— Deixou minha filha voltar pra casa sozinha... Parou pra pensar que eu estaria ao redor e observando cada passo de vocês?
— Se tocar um dedo nela, eu vou...
— Vai o quê? Hein, Rafael? — Ele provocou. — Mais uma palavra e eu te prendo de vez por desacato à autoridade. Esse é só um aviso, minha filha vai voltar pra casa onde ela nunca deveria ter saído. Eu tenho provas suficientes pra prender você por sequestro.
— Sequestro? — Ri irônico. — Que provas você tem? As câmeras da sua casa que também mostram suas agressões contra Maria? Isso sim é crime e um crime grave. Ou você vai mostrar a câmera do quarto dela mostrando que ela estava deprimida por uma semana enquanto você foi passear com sua mulher em outro estado. — Cuspi as palavras sem nem me importar com o que ele pensaria.
— Tenho provas, imagens de você tirando minha filha de casa desacordada.
— Ela não estava desacordada, p***a. Ela estava fraca porque tem um pai de merda que pouco se importa com o bem da filha. — Ele bateu na mesa com a mão e eu nem me movi.
— Cala a p***a da sua boca, garoto. — Ele socou meu rosto e eu olhei bem no olho dele. — Tu não sabe de nada, vagabundo!
— Me agradeça, Soares. Porque se não fosse por mim, Maria Júlia nem viva estaria agora. — Eu falei baixo.
— Ela vai voltar pra casa. Pode ter certeza! — Apontou o dedo na minha cara e deu a volta na mesa.
Ele soltou minha algema e se abaixou na altura do meu ouvido.
— Espero que tenha entendido nossa conversa.