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A menina do último beco - Morro do Escadão

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intro-logo
Blurb

Rafaela só queria que parassem de mandar sua filha com síndrome de Down para casa como se ela fosse um problema.Mas, quando o filho de quinze anos se aproxima do crime para “ajudar” nas contas, ela faz o impensável: sobe o Morro do Escadão e encara de frente o homem que todos temem.Ferro manda no morro.Rafaela não abaixa a cabeça para ninguém.O que começa como confronto vira atração. Depois, desejo. Depois, algo perigoso demais para permanecer escondido.Só que, quando o líder do morro rival percebe que Rafaela é o ponto fraco de Ferro, a disputa deixa de ser apenas territorial.Entre preconceito, segredos de família, obsessão, guerra e um amor impossível de ignorar, Rafaela vai descobrir que lutar pelos filhos pode colocá-la no centro de uma batalha que nunca imaginou enfrentar.E quando dois homens poderosos decidem que ela pode mudar o rumo de uma guerra, quem vai pagar o preço?📖 A Menina do Último Beco — Morro do Escadão⚠️ AVISO ⚠️ Antes de iniciarmos preciso avisar que está é uma obra exclusiva de minha autoria, obra única escrita por mim desde o seu lançamento em 04 de outubro de 2026. A presente obra está em processo de registro junto à biblioteca nacional, logo, fica proibida a cópia total ou parcial, incluindo título e subtítulos conforme lei 9.620/98.

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1. Rafaela
Eu tinha acabado de torcer o pano quando meu celular vibrou em cima da bancada da cozinha. Olhei de longe e quase ignorei. Quase. Porque mãe aprende a reconhecer desgraça até pelo jeito que o telefone toca. Passei a mão molhada na lateral da calça, larguei o pano dentro do balde e atravessei a cozinha da patroa com o coração apertando antes mesmo de ver a tela. Escola Municipal Professora Nair Guedes. Fechei os olhos por um segundo. — Ah, não… Atendi. — Alô? — Senhora Rafaela dos Santos? A voz era educada demais. Formal demais. — Sou eu. — Aqui é da escola da Maria Luiza. Malu. Meu estômago afundou. Olhei automaticamente para o relógio na parede. Dez e vinte e três. Eu tinha deixado minha filha na escola fazia pouco mais de duas horas. — Aconteceu alguma coisa? Do outro lado, uma pausa. Aquela pausa me irritou mais do que se tivessem falado de uma vez. — A senhora precisa vir buscá-la. Eu segurei o celular com mais força. — Buscar por quê? — Ela está um pouco agitada hoje. Olhei para o chão brilhando, ainda úmido. Eu tinha chegado naquela casa depois das oito. Acordado antes das cinco e meia. Tirado Miguel da cama praticamente dormindo, gritado três vezes com Kauã para ele não perder a hora, prendido o cabelo com a primeira xuxinha que achei, descido escada com mochila, lancheira, guarda-chuva e criança perguntando se podia levar uma pulseira nova para mostrar à amiga. Tudo aquilo para, pouco depois das dez, alguém me dizer que Malu estava “um pouco agitada”. — O que aconteceu? — Como assim? — O que ela fez? Outra pausa. — Ela está tendo dificuldade para acompanhar a rotina. — Tá chorando? — Não exatamente. — Bateu em alguém? — Não. — Se machucou? — Não. A minha paciência começou a escorrer junto com a água do pano. — Então por que eu preciso buscar minha filha? A mulher respirou antes de responder. — A coordenação achou melhor. Encostei a mão livre na bancada. Achou melhor. Essa frase devia pagar passagem. Devia pagar a diária perdida. Devia pagar o mercado. Porque era impressionante como sempre tinha alguém achando melhor alguma coisa quando quem pagava a conta era eu. — Eu tô trabalhando. — Nós entendemos, senhora Rafaela. Não entendiam. Se entendessem, aquela ligação não seria tão simples. — Eu tô em outra região. Não chego aí em dez minutos. — A senhora consegue vir assim que possível? Olhei de novo para o relógio. A dona da casa tinha saído cedo e me deixado uma lista em cima da mesa. Cozinha. Dois banheiros. Quartos. Varanda. Trocar roupa de cama. Eu ainda nem tinha terminado a cozinha. — Eu quero falar com alguém da coordenação. — Um momento. Veio uma musiquinha baixa, irritante, como se eu tivesse ligado para uma operadora de telefone e não para a escola da minha filha. Fiquei parada no meio daquela cozinha bonita, olhando para um pote de frutas decorativas em cima da mesa. Tudo ali parecia ter lugar. As cadeiras alinhadas. Os eletrodomésticos embutidos. Os potes com etiquetas. Até as frutas falsas pareciam saber exatamente onde pertenciam. Meu celular voltou a chiar. — Senhora Rafaela? — Sim. — Aqui é Regina, coordenadora pedagógica. A voz dela eu já conhecia. — Regina, o que aconteceu com a Malu? — Hoje ela está mais resistente à rotina. — O que significa resistente? — Ela não quis realizar uma atividade no momento proposto, depois levantou algumas vezes… Esperei. — E? — E está mais agitada. — Só isso? — Senhora Rafaela, nós precisamos considerar também o bem-estar dela. Mordi a parte de dentro da bochecha. — E o bem-estar dela é ir embora da escola? Silêncio. Eu já tinha aprendido que algumas perguntas deixavam as pessoas desconfortáveis porque obrigavam a explicar coisas que funcionavam melhor quando ninguém explicava. — Não estamos dizendo isso — ela respondeu. — Mas talvez hoje seja melhor ela ficar em casa. Hoje. Como se fosse uma coisa isolada. Como se eu já não tivesse recebido outra ligação parecida na semana anterior. Como se meu trabalho pudesse ser desligado e ligado igual interruptor. — Ela tá doente? — Não. — Então eu tô indo buscar porque ela levantou algumas vezes e não quis fazer uma atividade? — É uma questão de adaptação. A palavra veio bonita. Adaptação. Cabia em relatório. Cabia em reunião. Só não cabia no meu bolso. — Tá. Eu vou. Desliguei antes que minha voz saísse do controle. Fiquei alguns segundos parada, olhando para o celular. Na tela, a foto dos três. Kauã fazendo cara de quem não queria foto, Miguel sorrindo com dois dentes de leite faltando e Malu no meio, de presilhas amarelas, abraçando os dois como se fosse dona deles. Passei o dedo pela tela. A voz dela veio na minha cabeça, fresquinha da manhã. — Mãe, a Sofia vai levar uma caneta que apaga. — Que bom. — Eu quero uma. — Depois a gente vê. — Depois quando? — Depois, Malu. Ela tinha feito aquela cara de quem sabia que “depois” podia significar nunca. Meu peito apertou. Peguei a bolsa e fui até a área de serviço. O balde estava cheio de água escura. Eu ainda tinha dois banheiros para lavar. Liguei para a dona da casa. Chamou duas vezes. — Oi, Rafa. — Dona Paula, aconteceu um negócio na escola da minha filha. Houve uma pausa curta. — De novo? A palavra doeu mais porque não tinha maldade. Tinha cansaço. — Ligaram pedindo pra eu buscar ela. — Mas ela está passando m*l? — Não. Disseram que tá agitada. Ouvi um suspiro do outro lado. — Rafa, eu tenho gente vindo aqui amanhã cedo. — Eu sei. Eu posso voltar depois, se der tempo. Ou termino outro dia, desconto… — Não é pelo desconto. É que eu preciso da casa pronta. Olhei ao redor. Claro que precisava. Todo mundo precisava de alguma coisa pronta. A escola precisava que Malu estivesse “adaptada”. A patroa precisava da casa pronta. Meus filhos precisavam comer. O mercado precisava ser pago. O ônibus precisava de passagem. E eu precisava me multiplicar. — Eu vou tentar resolver rápido. — Tá. Me avisa. A ligação terminou sem briga, mas também sem garantia. Guardei os produtos, troquei a água do balde para não deixar aquela sujeira parada e ajeitei o que consegui em cinco minutos. Na porta, voltei para conferir se tinha fechado a torneira. Meu corpo já estava na rua. Minha cabeça ainda fazia conta. Quanto eu gastaria para chegar até a escola? Quanto perderia daquele dia? Será que Dona Paula me chamaria na semana seguinte? Desci para o ponto quase correndo. O sol já tinha subido e batia forte no asfalto. Meu cabelo, preso num coque malfeito, começou a soltar na nuca. Abri o aplicativo de transporte por impulso. Fechei na mesma hora. Nem pensar. Fui para o ônibus. Enquanto esperava, mandei mensagem para Kauã. Se sair antes de mim, busca o Miguel e vai direto pra casa. Ele visualizou. Nada. Escrevi de novo. E NÃO SOME. Vieram três pontinhos. Tá bom mãe Sem vírgula, sem ponto, sem carinho. Adolescente tinha a capacidade impressionante de transformar até confirmação de vida em desaforo. Guardei o celular. O ônibus apareceu na esquina. Subi, passei o cartão e fui para o fundo porque não tinha lugar sentado. Segurei no ferro e olhei pela janela. Foi aí que a raiva começou a mudar de forma. Porque até aquele momento eu estava irritada com a ligação. Mas, repetindo a conversa na cabeça, uma pergunta começou a me incomodar. Malu não estava doente. Não tinha batido em ninguém. Não tinha se machucado. Não estava em crise. Ela simplesmente não tinha feito uma atividade na hora que esperavam e levantara algumas vezes. E, ainda assim, eu estava atravessando a cidade para buscá-la. O ônibus arrancou, e meu corpo foi para trás. Segurei mais forte. Talvez eu tivesse perguntado pouco nas outras vezes. Talvez tivesse aceitado rápido demais. Talvez, de tanto ouvir que minha filha precisava “se adaptar”, eu tivesse começado a acreditar que o problema estava sempre nela. Olhei a hora no celular. Dez e cinquenta e sete. Eu ainda estava longe. E, pela primeira vez, a preocupação de chegar rápido dividia espaço com outra coisa. Quando eu entrasse naquela escola, não queria ouvir de novo que Malu “não estava se adaptando”. Eu queria saber exatamente ao quê. E quem, naquela história toda, estava realmente precisando aprender a se adaptar

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