14. Rafaela

1450 Words
Quando a escola pediu uma reunião “rapidinha”, eu soube na hora que rapidinha não queria dizer rápida. Queria dizer que eles tinham quinze minutos disponíveis e eu que me virasse para fazer aqueles quinze caberem no resto da minha vida. A mensagem chegou no fim da tarde. Senhora Rafaela, gostaríamos de conversar amanhã às 10h30 sobre a adaptação da Malu. A reunião deve durar cerca de quinze minutos. Fiquei olhando para a tela. Dez e meia. No meio da diária. Respondi: Tem como ser na entrada ou na saída? Eu trabalho. Demoraram quase meia hora. A coordenação só tem disponibilidade nesse horário. Eu também só tinha uma. Trabalhar. No dia seguinte, consegui trocar a ordem da faxina com a cliente. Disse que sairia por pouco tempo e voltaria. Ela perguntou: — Quinze minutos? Eu ri sem humor. — Eles disseram. — Então deve ser meia hora. Cheguei à escola às dez e vinte e cinco. Cabelo preso, rosto quente, bolsa apertada no ombro e a sensação de que eu tinha passado a manhã inteira correndo para participar de uma reunião que nem sabia direito por que existia. Na secretaria, me pediram para esperar. Dez e trinta. Dez e trinta e cinco. Dez e quarenta e dois. Olhei para o relógio. Quinze minutos, eu pensei. Era engraçado como o tempo de quem trabalhava do outro lado da mesa parecia sempre mais valioso. Quando finalmente me chamaram, já eram dez e quarenta e seis. Regina estava sentada com uma pasta aberta. Márcia, a diretora, também. Eu já tinha visto Márcia outras vezes, mas nunca tinha conversado com ela de verdade. Era uma mulher branca, de pouco mais de cinquenta anos, cabelo curto, óculos de armação fina e aquele ar de quem tentava resolver oito coisas ao mesmo tempo sem terminar nenhuma. Ela levantou. — Senhora Rafaela, bom dia. — Bom dia. — Desculpe a espera. — Tudo bem. Não estava. Sentei. Regina abriu a conversa. — A ideia é fazermos um alinhamento sobre a adaptação da Malu. A palavra de novo. — Tá. — Temos percebido algumas dificuldades de rotina, participação e permanência em atividade. — Permanência em atividade ou permanência na escola? As duas se olharam. Márcia respondeu: — Em atividade. — Porque permanência na escola ela consegue. Quando deixam. Regina respirou. Eu sabia que tinha entrado afiada demais. — Desculpa. Eu só quero entender. Márcia juntou as mãos sobre a mesa. — E nós também. Não estamos aqui para criar conflito. — Ótimo. — A Malu é uma criança muito querida. Esperei. Sempre que reunião começava com “muito querida”, eu desconfiava do que vinha depois. — Mas ela apresenta algumas necessidades que exigem atenção maior da equipe. — Quais necessidades? Regina respondeu: — Ela se levanta durante atividades, conversa fora de hora, às vezes demora a iniciar propostas e precisa de mediação frequente. — E o que vocês fazem nesses momentos? Silêncio curto. — A professora orienta. — E quando ela não responde de primeira? — Reorienta. — E depois? Regina mexeu na caneta. — Depende da situação. — É isso que eu tô tentando entender. Porque, se ela levanta duas vezes e vocês me ligam, eu preciso saber o que aconteceu entre ela levantar e vocês decidirem que ela tem que ir embora. Márcia ajeitou os óculos. — Nem sempre a decisão é de retirada, senhora Rafaela. — Nas últimas vezes foi. — Sim, mas estamos revendo alguns procedimentos. Aquilo me chamou atenção. — Revendo por quê? — Porque estamos observando melhor os padrões — Regina respondeu. Pensei em Helena. Não sabia se tinha sido ela, mas alguma coisa tinha mudado. Márcia abriu uma folha. — Também precisamos pensar na organização da turma. A professora tem muitos alunos e não é possível destinar atenção exclusiva à Malu o tempo inteiro. — Eu não pedi atenção exclusiva. — Não, claro. — Nem acompanhante exclusivo. Regina levantou os olhos. — Nós não dissemos isso. — Eu sei. Tô deixando claro porque às vezes parece que qualquer ajuda que ela precisa vira argumento pra dizer que a escola não consegue. Márcia ficou alguns segundos em silêncio. — A senhora entende que inclusão também depende de adaptação da criança ao ambiente. — Entendo. — Então… — Mas depende só dela? A pergunta parou a frase. — Porque é isso que eu escuto desde o começo. Toda vez dizem que a Malu não se adaptou. O que a escola mudou até agora? Regina fechou a caneta. Márcia olhou para ela e depois para mim. — A equipe está fazendo ajustes. — Quais? — Orientações à professora, observação da rotina, conversa com o AEE… — Ótimo. É disso que eu preciso saber. Minha voz saiu mais calma. — Eu não quero fingir que minha filha não dá trabalho. Ela dá. Todos os meus filhos dão. Eu mesma dou trabalho pra minha mãe até hoje. Márcia sorriu de leve. — O que eu não quero é que qualquer dificuldade vire telefone pra eu buscar. — Nós entendemos. — Porque não é só vir aqui. Parei. Acho que foi a primeira vez que falei aquilo para alguém da escola sem estar com pressa. — Eu moro no último beco do Escadão. Pra sair de casa, eu desço escada, atravesso parte do morro, chego na barreira, ainda caminho até o ponto, pego transporte, vou trabalhar. Quando vocês ligam, eu não levanto de uma cadeira e atravesso a rua. As duas ficaram quietas. — Eu perco diária. Perco cliente. Gasto passagem. Mexe com a rotina dos outros dois. E a Malu percebe. Márcia baixou os olhos para a pasta. — Ela percebe? — Já perguntou se eu fico brava por causa dela. Já perguntou se pode ficar na escola até o fim. Regina mudou a expressão. — Ela perguntou isso? — Perguntou. A sala ficou diferente. Menos técnica. Mais desconfortável. — Se tiver uma emergência, me liga. Se ela estiver doente, me liga. Se acontecer alguma coisa séria, eu venho de onde estiver. Mas, se o problema é que ela levantou, não quis começar uma conta ou conversou na hora errada, eu preciso saber o que vocês tentaram antes de decidir que ir embora é a solução. Márcia assentiu devagar. — É razoável. Regina olhou para ela. Eu percebi. — Podemos formalizar um acompanhamento mais detalhado — Márcia disse. — Registrar situações, estratégias e respostas. — Pra mim, ótimo. — E conversar com a professora e o AEE. — Ótimo também. Regina puxou a pasta para perto. — Há outra questão que talvez a senhora precise considerar. A forma como ela falou me deixou alerta. — Qual? — Talvez outra escola tenha uma estrutura mais adequada para atender às necessidades da Malu. Fiquei parada. — Outra escola? — Estou dizendo apenas como possibilidade. — Possibilidade de quê? — De um ambiente com mais recursos. — Vocês estão sugerindo que eu tire minha filha daqui? — Não foi isso que eu disse. — Foi quase. Márcia interferiu: — Rafaela, ninguém está falando em transferência agora. Agora. A palavra ficou. — Então por que esse assunto entrou numa reunião sobre comportamento? Regina abriu a boca. Fechou. Eu já não estava nervosa. Estava muito calma. — Minha filha tem vaga aqui. Estuda aqui. Tem professora. Tem AEE. Tem colegas. E vocês acabaram de dizer que estão começando a rever estratégia. Márcia assentiu. — Sim. — Então eu não vou discutir outra escola antes de vocês me mostrarem por que essa não consegue fazer o que tem obrigação de tentar. A diretora respirou fundo. — Entendo sua posição. Olhei o relógio. Onze e dezessete. Quinze minutos. Quarenta e sete já tinham passado desde o horário marcado. Levantei. — Eu preciso voltar pro trabalho. Márcia também levantou. — Vamos organizar esses registros e marcar nova conversa. — Pode ser. Mas, se puder, marca num horário que eu consiga existir também. Ela pareceu surpresa. Depois assentiu. — Vamos tentar. Saí da sala. No corredor, ouvi vozes de criança. Passei perto da turma de Malu e olhei pela porta aberta. Ela estava sentada ao lado de Sofia. As duas copiavam alguma coisa. Malu levantou o rosto e me viu. Abriu um sorriso enorme. Fez um coração com as mãos. Eu fiz outro de volta. Não entrei. Não precisava. Ela estava exatamente onde deveria estar. Voltei para a rua com uma frase presa na cabeça. Talvez outra escola. A reunião tinha sido marcada para falar de adaptação. Mas, pela primeira vez, eu saí de lá com a sensação de que talvez o que estivessem tentando adaptar não fosse a rotina da Malu. Talvez estivessem tentando adaptar a minha expectativa. Até eu aceitar que o lugar dela poderia ser em outro lugar.
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