Quando a escola pediu uma reunião “rapidinha”, eu soube na hora que rapidinha não queria dizer rápida.
Queria dizer que eles tinham quinze minutos disponíveis e eu que me virasse para fazer aqueles quinze caberem no resto da minha vida.
A mensagem chegou no fim da tarde.
Senhora Rafaela, gostaríamos de conversar amanhã às 10h30 sobre a adaptação da Malu. A reunião deve durar cerca de quinze minutos.
Fiquei olhando para a tela.
Dez e meia.
No meio da diária.
Respondi:
Tem como ser na entrada ou na saída? Eu trabalho.
Demoraram quase meia hora.
A coordenação só tem disponibilidade nesse horário.
Eu também só tinha uma.
Trabalhar.
No dia seguinte, consegui trocar a ordem da faxina com a cliente. Disse que sairia por pouco tempo e voltaria.
Ela perguntou:
— Quinze minutos?
Eu ri sem humor.
— Eles disseram.
— Então deve ser meia hora.
Cheguei à escola às dez e vinte e cinco.
Cabelo preso, rosto quente, bolsa apertada no ombro e a sensação de que eu tinha passado a manhã inteira correndo para participar de uma reunião que nem sabia direito por que existia.
Na secretaria, me pediram para esperar.
Dez e trinta.
Dez e trinta e cinco.
Dez e quarenta e dois.
Olhei para o relógio.
Quinze minutos, eu pensei.
Era engraçado como o tempo de quem trabalhava do outro lado da mesa parecia sempre mais valioso.
Quando finalmente me chamaram, já eram dez e quarenta e seis.
Regina estava sentada com uma pasta aberta.
Márcia, a diretora, também.
Eu já tinha visto Márcia outras vezes, mas nunca tinha conversado com ela de verdade.
Era uma mulher branca, de pouco mais de cinquenta anos, cabelo curto, óculos de armação fina e aquele ar de quem tentava resolver oito coisas ao mesmo tempo sem terminar nenhuma.
Ela levantou.
— Senhora Rafaela, bom dia.
— Bom dia.
— Desculpe a espera.
— Tudo bem.
Não estava.
Sentei.
Regina abriu a conversa.
— A ideia é fazermos um alinhamento sobre a adaptação da Malu.
A palavra de novo.
— Tá.
— Temos percebido algumas dificuldades de rotina, participação e permanência em atividade.
— Permanência em atividade ou permanência na escola?
As duas se olharam.
Márcia respondeu:
— Em atividade.
— Porque permanência na escola ela consegue. Quando deixam.
Regina respirou.
Eu sabia que tinha entrado afiada demais.
— Desculpa. Eu só quero entender.
Márcia juntou as mãos sobre a mesa.
— E nós também. Não estamos aqui para criar conflito.
— Ótimo.
— A Malu é uma criança muito querida.
Esperei.
Sempre que reunião começava com “muito querida”, eu desconfiava do que vinha depois.
— Mas ela apresenta algumas necessidades que exigem atenção maior da equipe.
— Quais necessidades?
Regina respondeu:
— Ela se levanta durante atividades, conversa fora de hora, às vezes demora a iniciar propostas e precisa de mediação frequente.
— E o que vocês fazem nesses momentos?
Silêncio curto.
— A professora orienta.
— E quando ela não responde de primeira?
— Reorienta.
— E depois?
Regina mexeu na caneta.
— Depende da situação.
— É isso que eu tô tentando entender. Porque, se ela levanta duas vezes e vocês me ligam, eu preciso saber o que aconteceu entre ela levantar e vocês decidirem que ela tem que ir embora.
Márcia ajeitou os óculos.
— Nem sempre a decisão é de retirada, senhora Rafaela.
— Nas últimas vezes foi.
— Sim, mas estamos revendo alguns procedimentos.
Aquilo me chamou atenção.
— Revendo por quê?
— Porque estamos observando melhor os padrões — Regina respondeu.
Pensei em Helena.
Não sabia se tinha sido ela, mas alguma coisa tinha mudado.
Márcia abriu uma folha.
— Também precisamos pensar na organização da turma. A professora tem muitos alunos e não é possível destinar atenção exclusiva à Malu o tempo inteiro.
— Eu não pedi atenção exclusiva.
— Não, claro.
— Nem acompanhante exclusivo.
Regina levantou os olhos.
— Nós não dissemos isso.
— Eu sei. Tô deixando claro porque às vezes parece que qualquer ajuda que ela precisa vira argumento pra dizer que a escola não consegue.
Márcia ficou alguns segundos em silêncio.
— A senhora entende que inclusão também depende de adaptação da criança ao ambiente.
— Entendo.
— Então…
— Mas depende só dela?
A pergunta parou a frase.
— Porque é isso que eu escuto desde o começo. Toda vez dizem que a Malu não se adaptou. O que a escola mudou até agora?
Regina fechou a caneta.
Márcia olhou para ela e depois para mim.
— A equipe está fazendo ajustes.
— Quais?
— Orientações à professora, observação da rotina, conversa com o AEE…
— Ótimo. É disso que eu preciso saber.
Minha voz saiu mais calma.
— Eu não quero fingir que minha filha não dá trabalho. Ela dá. Todos os meus filhos dão. Eu mesma dou trabalho pra minha mãe até hoje.
Márcia sorriu de leve.
— O que eu não quero é que qualquer dificuldade vire telefone pra eu buscar.
— Nós entendemos.
— Porque não é só vir aqui.
Parei.
Acho que foi a primeira vez que falei aquilo para alguém da escola sem estar com pressa.
— Eu moro no último beco do Escadão. Pra sair de casa, eu desço escada, atravesso parte do morro, chego na barreira, ainda caminho até o ponto, pego transporte, vou trabalhar. Quando vocês ligam, eu não levanto de uma cadeira e atravesso a rua.
As duas ficaram quietas.
— Eu perco diária. Perco cliente. Gasto passagem. Mexe com a rotina dos outros dois. E a Malu percebe.
Márcia baixou os olhos para a pasta.
— Ela percebe?
— Já perguntou se eu fico brava por causa dela. Já perguntou se pode ficar na escola até o fim.
Regina mudou a expressão.
— Ela perguntou isso?
— Perguntou.
A sala ficou diferente.
Menos técnica.
Mais desconfortável.
— Se tiver uma emergência, me liga. Se ela estiver doente, me liga. Se acontecer alguma coisa séria, eu venho de onde estiver. Mas, se o problema é que ela levantou, não quis começar uma conta ou conversou na hora errada, eu preciso saber o que vocês tentaram antes de decidir que ir embora é a solução.
Márcia assentiu devagar.
— É razoável.
Regina olhou para ela.
Eu percebi.
— Podemos formalizar um acompanhamento mais detalhado — Márcia disse. — Registrar situações, estratégias e respostas.
— Pra mim, ótimo.
— E conversar com a professora e o AEE.
— Ótimo também.
Regina puxou a pasta para perto.
— Há outra questão que talvez a senhora precise considerar.
A forma como ela falou me deixou alerta.
— Qual?
— Talvez outra escola tenha uma estrutura mais adequada para atender às necessidades da Malu.
Fiquei parada.
— Outra escola?
— Estou dizendo apenas como possibilidade.
— Possibilidade de quê?
— De um ambiente com mais recursos.
— Vocês estão sugerindo que eu tire minha filha daqui?
— Não foi isso que eu disse.
— Foi quase.
Márcia interferiu:
— Rafaela, ninguém está falando em transferência agora.
Agora.
A palavra ficou.
— Então por que esse assunto entrou numa reunião sobre comportamento?
Regina abriu a boca.
Fechou.
Eu já não estava nervosa.
Estava muito calma.
— Minha filha tem vaga aqui. Estuda aqui. Tem professora. Tem AEE. Tem colegas. E vocês acabaram de dizer que estão começando a rever estratégia.
Márcia assentiu.
— Sim.
— Então eu não vou discutir outra escola antes de vocês me mostrarem por que essa não consegue fazer o que tem obrigação de tentar.
A diretora respirou fundo.
— Entendo sua posição.
Olhei o relógio.
Onze e dezessete.
Quinze minutos.
Quarenta e sete já tinham passado desde o horário marcado.
Levantei.
— Eu preciso voltar pro trabalho.
Márcia também levantou.
— Vamos organizar esses registros e marcar nova conversa.
— Pode ser. Mas, se puder, marca num horário que eu consiga existir também.
Ela pareceu surpresa.
Depois assentiu.
— Vamos tentar.
Saí da sala.
No corredor, ouvi vozes de criança.
Passei perto da turma de Malu e olhei pela porta aberta.
Ela estava sentada ao lado de Sofia.
As duas copiavam alguma coisa.
Malu levantou o rosto e me viu.
Abriu um sorriso enorme.
Fez um coração com as mãos.
Eu fiz outro de volta.
Não entrei.
Não precisava.
Ela estava exatamente onde deveria estar.
Voltei para a rua com uma frase presa na cabeça.
Talvez outra escola.
A reunião tinha sido marcada para falar de adaptação.
Mas, pela primeira vez, eu saí de lá com a sensação de que talvez o que estivessem tentando adaptar não fosse a rotina da Malu.
Talvez estivessem tentando adaptar a minha expectativa.
Até eu aceitar que o lugar dela poderia ser em outro lugar.